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Copa conjunta é ironia em briga de Trump com vizinhos

Americano está no meio de uma guerra tarifária com Canadá e México

O presidente americano Donald Trump
O presidente americano Donald Trump - Saul Loeb/AFP
Igor Gielow
Moscou

Se os tais deuses do futebol existem, eles estavam espirituosos quando a Fifa escolheu a trinca da América do Norte para sediar a Copa de 2026. Afinal de contas o bom senso recomenda deixar os mandatários do Canadá e do México em mesa distante daquela na qual estiver o americano Donald Trump.

O clima entre os EUA e os seus dois vizinhos regionais nunca esteve tão azedo, por responsabilidade das opções de política externa de Trump, certas ou erradas. Na semana passada, ele deixou a reunião do G7, o grupo de países mais ricos do mundo, que acontecia no Canadá, no meio de um furacão político.

Durante o encontro, o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, considerou as tarifas que Trump impôs à importação de aço e alumínio da União Europeia, de seu país e do México “um insulto”. Trump retirou apoio ao documento final do grupo e ainda disse que Trudeau havia o “apunhalado pelas costas” e sido “muito desonesto e fraco” —logo o canadense, que ensaiava um “bromance” diplomático com o presidente em encontros amigáveis.

O americano preferiu ir embora da reunião mais cedo e preparou o melhor sorriso para o histórico e duvidoso encontro com o ditador norte-coreano, Kim Jong-un.

O texto que seria aprovado não era do gosto de Trump, claro. Enfatizava a importância de reformar o papel da Organização Mundial do Comércio, fórum de resolução de conflitos que é visto pelo americano como um cartório que dificulta a vida de seu país. De todo modo, como a famosa foto em que a chanceler alemã Angela Merkel encara Trump exasperada ao lado dos colegas, o ímpeto do americano colocou toda a aliança formada no Ocidente no pós-guerra em xeque.

A guerra tarifária proposta por Trump levou a retaliações imediatas dos três afetados. No caso do México, o país inclusive vai promover uma discussão no âmbito da OMC para questionar os critérios da taxação.

Já a relação com o vizinho latino ao sul é tumultuada desde a campanha eleitoral de Trump. O americano, que chamou imigrantes ilegais de criminosos, prometeu criar um muro para isolar os EUA do México e fazer o governo latino pagar por ele. A construção da estrutura já começou, sobe diversos protestos e com dúvidas sobre sua eficácia —já existe uma série de cercas e barreiras na fronteira, basicamente insuficientes para evitar o fluxo migratório. No México, Trump virou boneco de demônio em festas populares.

Desde o começo do mandato Trump ameaça rever, ou até deixar, a união aduaneira Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte, em inglês). Vigente desde 1994 entre os três países, o acordo aumentou brutalmente a eficiência das cadeias produtivas na região. Ao seu melhor estilo, ele foi e voltou em suas declarações uma série de vezes, mas não é exatamente visto como um interlocutor confiável por seus parceiros menores.

Claro que 2026 está longe e Trump, necessariamente fora do poder pela limitação legal a uma tentativa de reeleição. A Copa é um evento privado, mas que usa e abusa de recursos públicos, como os casos brasileiro e russo indicam, e no mínimo é de bom tom haver sintonia política com o governo do país anfitrião.

Também parece óbvio que trazer a Copa unindo a eficiência americana com a paixão mexicana pelo futebol (o Canadá entra por cortesia, supõe-se) é, antes de tudo, uma boa ideia de negócios. Basta ver como vêm dos EUA a maioria dos turistas estrangeiros que compraram ingressos para o Mundial na Rússia, ainda que se assuma que eles devam ser maioritariamente de origem latina.

A primeira reação de Trump, obviamente um tuíte, comprova essa leitura ao se resumir a um elogio à escolha. Vejamos se virão outros.

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