Descrição de chapéu Copa do Mundo

Empresário, Neymar pai cobra de todo mundo, inclusive do filho

Ex-jogador de futebol teve carreira discreta e hoje cuida do patrimônio do craque da seleção

Neymar da Silva Santos sentado e Neymar Junior em pé durante programa de TV francês
Neymar da Silva Santos e Neymar Junior durante programa de TV francês - Franck Fife - 13 mai. 2018/AFP
Camila Mattoso Diego Garcia
Sochi

“Cobro de todo mundo, inclusive do meu filho!”

Assim, Neymar da Silva Santos, pai e empresário do atacante homônimo da seleção, se definiu em conversa por mensagem com seus funcionários de confiança.

Isso foi em 2014, quando houve a revelação de que ele recebeu 10 milhões de euros (R$ 43,5 milhões em valores atualizados) do Barcelona seis dias antes da final do Mundial de Clubes 2011.

Decisão que o clube catalão venceu contra o Santos. O dinheiro pago ao pai foi um adiantamento da transferência do atacante, que só desembarcou de fato no novo time em junho de 2013.

 
 
Neymar chega a Socchi na noite de domingo (10)
Neymar chega a Socchi na noite de domingo (10) - Eduardo Knapp - 10.jun.18/Folhapress
O hoje empresário Neymar foi um ex-jogador de futebol discreto, com passagens por Operário-MT e União Mogi-SP. Encerrou a carreira precocemente, após um acidente de carro, e virou funcionário da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). Nessa época, o filho arriscava os primeiros chutes aos 10 anos, na Portuguesa Santista.

Desde que o filho é criança, procurou passar sua experiência no esporte com dicas e conselhos. Segundo relatos de quem conviveu com o atleta em diferentes momentos da carreira, a primeira coisa que Neymar faz ao chegar no vestiário após os jogos é ver se tem alguma mensagem do pai no celular.

O pai passou a se dedicar integralmente ao “Juninho”, como chama o filho, após receber R$ 1 milhão do então presidente do Santos, Marcelo Teixeira, para impedir a ida do então menino de 13 anos ao Real Madrid, em 2005.

Teixeira deixou o clube em 2009, antes de ver sua aposta Neymar brilhar entre os profissionais. A missão ficou para seu substituto, Luis Alvaro de Oliveira Ribeiro, o Laor.

O ex-mandatário santista costumava dizer, como chiste, que Neymar, o pai, e então seu amigo, merecia o prêmio Nobel de Economia. Isso por ter saído do posto de ex-funcionário da CET para a posição de um negociador implacável, com um ativo com valores milionários nas mãos.

Luis Alvaro não imaginava que morreria —vítima de um câncer em agosto de 2016— com profunda mágoa do ex-amigo. Chegou a registrar carta póstuma em um cartório o criticando por causa da negociação com o Barcelona feita às escondidas do Santos.

“O Neymar é um cara que soube perceber o que estava no entorno do filho e se preparou muito para isso. Aprendeu sobre investimento, como posicionar marca. Não tem formação, mas é muito vivo”, afirma Fernando Silva, homem influente na política do Santos que participou de negociações com o jogador em sua passagem no clube.

Quando estava para acertar a saída do Santos, em 2013, o pai e agente deu às costas para o então presidente Odilio Rodrigues e o deixou falando sozinho. Disse que a negociação estava encerrada. Horas depois, voltou à sala do então presidente do clube e disse: Vamos conversar direito agora?

Após selar a venda do filho ao Barcelona, fez outros negócios no futebol.

Em julho de 2017, a revista Forbes apontou Neymar como o único jogador de futebol a ganhar mais dinheiro em publicidade do que dentro das quatro linhas: eram 37 milhões de dólares (R$ 122 milhões) anuais, segundo a publicação.

 

O pai do atleta é sócio, ao lado da mãe do jogador, das empresas que tomam conta da carreira de Neymar Júnior. O jogador recebe apenas uma porcentagem, não divulgada, dos valores. Também não participa das negociações salariais e outros trâmites, deixando tudo sempre a cargo do pai, que é quem controla o dinheiro.

Atualmente, Neymar tem 13 patrocinadores. Ao longo da carreira, foram mais de 25 empresas parceiras.
Todas tiveram que lidar com o pai. Centenas de mensagens e emails que estão em processo trabalhista movido por um ex-funcionário, aos quais a Folha teve acesso, mostram como ele atua em negociações.
Em outubro de 2013, por exemplo, Neymar tratava com a Ambev e a Gatorade de um patrocínio para seu filho.

A empresa oferecia US$ 750 mil (R$ 2,76 milhões) por ano, com uma diária de seis horas. Um de seus assessores, que participava da negociação, opinou que existiam poucas possibilidades de conseguirem aumentar o valor. Ouviu uma resposta irredutível.

“Nós pedimos US$ 1 milhão (R$ 3,68 milhões), não foi? Vamos manter! A Ambev está pagando para o mundo mais de um milhão por isso. Pensemos bem, a Gatorade está entrando agora e quer pagar menos que a Guaraná? Apostassem [no Neymar Júnior] antes!”, disse o empresário, por email.

Na ocasião, o jogador já tinha patrocínio de outro braço do grupo Ambev, o Guaraná Antarctica, que lhe pagava US$ 1 milhão por ano. A Gatorade cedeu e aceitou pagar US$ 1 milhão anual, ainda com o acréscimo de R$ 250 mil para construir o telhado da Fundação Neymar Júnior.

Já em agosto de 2014, um ex-funcionário lhe avisou sobre um jantar com representantes da grife italiana Replay, que pretendiam patrocinar o jogador e lançar uma linha de jeans própria do astro.

Perguntou, então, se o valor inicialmente negociado —e “bem cobrado”, segundo o empregado disse ao próprio Neymar— de 1,3 milhão de euros (R$ 5,65 milhões) por ano deveria ser mantido.

 

A réplica foi negativa. “Enfia a faca”, respondeu de forma curta e grossa o empresário. A tática deu certo, e a empresa patrocina o atacante até hoje.

Uma conversa distinta de Neymar pai com um de seus assessores, no processo visto pela Folha, deixa claro como ele se comporta em qualquer tipo de negócio, seja ele publicitário ou futebolístico.

Era uma sexta-feira de agosto de 2015, dias antes de tornar-se público o interesse do Manchester United em pagar 190 milhões de euros (R$ 760 milhões, valor da então multa contratual) para contratar o camisa 11 do Barcelona.

“O Pini [Zahavi, empresário israelense com entrada no United] está me ligando e perguntando se você falou com o Neymar Júnior. O que respondo?”, perguntou o empregado.

“[Responde que] Não sabe. Eu tenho até terça-feira [para responder]. Não é pizza!”, rebateu prontamente Neymar pai.

“A proposta chegou ao Barcelona, e o clube nos comunicou dizendo que não iria vendê-lo. Ele tem três anos de contrato pela frente”, afirmou o empresário em entrevista à Fox Sports.

Não demorou nem duas temporadas e Neymar Júnior já treinava longe do Barcelona. Foi para o PSG, contratado por 222 milhões de euros (R$ 888 milhões), a maior transferência da história do futebol. A negociação foi toda feita por Neymar pai e o mesmo Pini Zahavi. Dessa vez, terminou em pizza.

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