Descrição de chapéu Copa do Mundo

Gols, fé e ações sociais fazem Egito venerar Mohamed Salah

Egípcios se identificam com atacante e enxergam nele o símbolo de um islã moderado

Diogo Bercito
Assuá (Egito)

Na saída de um templo faraônico no sul do Egito, mercadores esperam os esparsos turistas em um bazar. Há uma lojinha especializada em peças de alabastro, outra em tapetes, uma terceira em anéis de prata —e então uma quarta dedicada a Mohamed Salah, o jogador de camisa número 11 do Liverpool.

O craque de 25 anos é a mais recente obsessão nacional, em um país acostumado a infortúnios, como o golpe militar de 2013 e a desvalorização de sua moeda em 2016.

Egípcios assistem ao jogo entre Real Madrid e Liverpool, pela final da Liga dos Campeões da Europa, em Cairo
Egípcios assistem ao jogo entre Real Madrid e Liverpool, pela final da Liga dos Campeões da Europa, em Cairo - Khaled Desouki - 26.mai.2018/AFP

A população encontra em Mo Salah um motivo de orgulho. Esse sorridente jogador de cabelos encaracolados marcou 44 gols em 52 jogos em sua temporada de estreia pelo time britânico. 

Sua cobrança de pênalti no outubro passado classificou o Egito à Copa do Mundo pela primeira vez desde 1990. Tornou-se um faraó de chuteiras.

O feito é tomado como prova de que ainda há alguma esperança para o empobrecido país de 95 milhões de pessoas. Maior entre quatro irmãos, Mo Salah vem de um vilarejo chamado Nagrig, 130 quilômetros ao norte do Cairo.

Ele fazia o percurso à capital de ônibus todos os dias quando foi recrutado aos 14 anos pelo time El Mokawloon. Agora, disputa entre iguais em torneios como a Liga dos Campeões e o Campeonato Inglês.

O status de ídolo, em um país com outros exemplos grandiosos nos últimos milhares de anos, foi confirmado em meados de maio, quando o Museu Britânico anunciou que colocaria as chuteiras de Mo Salah ao lado de estátuas de Ramsés 2° e Amenhotep 3°, reis da Antiguidade.

Tamanha é a admiração que, quando ele machucou o ombro na final da Liga dos Campeões contra o Real Madrid, internautas árabes se enfureceram nas redes sociais.

Eles inundaram a internet de ofensas a Sergio Ramos, responsável pela lesão, tratando o zagueiro espanhol como um novo Ricardo, Coração de Leão, o cruzado europeu que enfrentou o herói muçulmano Saladino no século 12.

Salah ainda se recupera e, mesmo confirmado na Rússia, pode ficar fora da estreia contra o Uruguai, em 15 de junho.

O advogado egípcio Bassem Wahba anunciou em um programa televisivo que vai dar entrada em um processo na Fifa contra Ramos pedindo R$ 4,5 bilhões de compensação “pelo dano físico e psicológico que ele causou a Mohamed Salah e ao povo egípcio”.

“A diferença entre o Egito e o Brasil é que vocês têm diversos jogadores que são estrelas na Europa. A gente, não”, diz o repórter esportivo Ahmed Atta, 32. “Mo Salah superou todas as nossas expectativas”.

Mesmo quem não acompanhava o futebol hoje segue os jogos do Liverpool para torcer por seu conterrâneo, lotando as cafeterias entre chás de hibisco e baforadas de narguilé.

Não é acidental que Mo Salah tenha se destacado justamente pelo futebol, onde fez fama com seus dribles e impecável controle de bola.

Esse esporte é central na cultura da região, em especial no Egito. Como conta o pesquisador James Dorsey em seu livro “O Turbulento Mundo do Futebol do Oriente Médio”, o time egípcio Al Ahly foi campo do movimento nacionalista no início do século 20.

Mas o futebol é de certa maneira a parte menos importante em Salah. Nos países de cultura árabe e muçulmana, ele é venerado por outras tantas razões, incluindo a sua fé.

Em tempos de islamofobia na Europa e nos EUA, o egípcio faz questão de comemorar seus gols apontando ao céu e se prostrando no campo.

Sua filha se chama Meca, em homenagem à cidade sagrada do islã, e seu jejum durante este mês —o ramadã, sagrado aos muçulmanos— foi motivo de discussão teológica entre aqueles que defendiam que ele pudesse comer quando tivesse de jogar.

Outro motivo para o orgulho são as suas demonstrações de piedade, centrais à religião islâmica. Ele recentemente doou uma máquina de diálise a seu vilarejo natal e financiou a renovação de um centro esportivo e de uma mesquita. 

Sua aparição em uma campanha do governo contra o uso de drogas quadruplicou em três dias o número de pessoas em busca de ajuda.

“Não são apenas seus dribles dentro de campo que vêm mexendo com as pessoas de todo o mundo”, escreveu Ali Zoghbi, jornalista e vice-presidente da Fambras (Federação das Associações Muçulmanas do Brasil). “Ele se tornou um símbolo contra aqueles que insistem em generalizar e discriminar os seguidores do islã”.

No Egito, Salah também se transformou em símbolo de um islã moderado, distinto do professado por uma minoria radical. “Ele se parece com a maior parte dos egípcios, e assim sentimos que é realmente um de nós”, afirma Atta.

“Com o sucesso dele, muitas crianças agora sonham em jogar na Europa. Elas sabem que isso é possível. Afinal, nós não valemos menos do que nenhum outro país”, diz. “No final das contas, isso não é sobre Salah. É sobre nós”.

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