Descrição de chapéu Copa do Mundo

Ícone soviético, goleiro Aranha Negra ressuscita até como símbolo da Copa

Morto há 28 anos, Yashin vira símbolo do Mundial e estampará nota de rublo

Carlos Maranhão
Moscou

Alguns ícones russos jamais saem de cena, a começar pela múmia de Lênin, exposta no mausoléu da praça Vermelha. Muitas outras glórias do país continuam vivíssimas décadas depois da morte, dos romances de Tolstói e Dostoiévski às músicas de Tchaikóvski e Stravinski, autores que parecem escrever e compor cada vez melhor ao serem relidos ou novamente ouvidos.

Mas há também os que andavam mais ou menos esquecidos no resto do mundo e de repente, como na Páscoa Russa, ressuscitam, sobem ao céu e entram na eternidade.

Lev Yashin, goleiro do Dynamo Moscow, durante treino antes de jogo, na Rússia. em 1969
Lev Yashin, goleiro do Dynamo Moscow, durante treino antes de jogo, na Rússia. em 1969 - RIA Novosti - 1º abr.1969/France Presse

Foi o que aconteceu com Lev Ivánovitch Yashin, um dos grandes goleiros da história, para muitos o maior de todos. Sepultado no cemitério Vagankovo, em Moscou, é um caso raro de garoto-propaganda já morto: seu retrato aparece em outdoors de um banco. 

Mais importante, a mesma figura majestosa, em um estilo que faz alusão às vanguardas artísticas russas do início do século passado, brilha no pôster oficial da Copa do Mundo que começa na quinta (14).

No inconfundível uniforme negro, luvas, boné e proteção apenas no joelho direito, ele voa para defender com a mão esquerda uma enorme bola antiga, de gomos, em cuja parte superior, rasgada, surge o mapa da Rússia, que ocupa mais de um nono da Terra. 

Para quem o idolatrou, é emocionante. Dá vontade de vê-lo sair do cartaz para entrar em campo. Tem mais: um dia antes da abertura do Mundial, entram em circulação as novas cédulas de 100 rublos (cerca de R$ 6) com sua imagem. O valor de face é pequeno, mas nenhum esportista brasileiro recebeu uma homenagem semelhante.

O Aranha Negra, apelido que carregou a vida inteira, era também chamado de Pantera Negra e Polvo Negro, pois não jogava com camisa, calção e meias de outra cor —e, além disso, com seu 1,90 metro, destacava-se pela agilidade, pela reação instantânea, pela capacidade de enredar o adversário em saltos rasteiros que lhe fechavam o ângulo de chute e pela habilidade de se esticar acrobaticamente para apanhar bolas traiçoeiras, dando às vezes a impressão de ter longos tentáculos no lugar de braços.

Se não bastasse, inventou um novo jeito de jogar no gol: adiantado, qual um último zagueiro, décadas antes de o alemão Manuel Neuer virar sob sua sobrenatural inspiração um sweeper-keeper, algo como goleiro líbero.

Como seria inevitável na história de um gigante dessa dimensão, criaram-se lendas a seu respeito. Afirmava-se que, nos 812 jogos que disputou em uma carreira de 22 anos (78 partidas pela seleção soviética e as outras pelo Dínamo de Moscou, único clube que defendeu), não sofreu gols em 207 deles.

Mais incrível, teria defendido 150 pênaltis. Não há comprovação. Yashin nasceu, viveu, jogou e morreu durante a vigência do comunismo da União Soviética, cujas estatísticas, na economia como no futebol, não eram exatamente um primor de precisão. 

É provável, porém, que tenha chegado perto. Era um especialista em pênaltis. Embora avesso ao estrelismo, orgulhava-se dos feitos nos penais.

"A alegria de ver Yuri Gagárin no espaço", disse quando o compatriota tornou-se o primeiro ser humano a viajar pelo espaço, em 1961, "só é superada pela alegria de uma boa defesa de um pênalti."

Nem sempre pegava, é claro. Na Copa de 1966, Portugal e URSS decidiram o terceiro lugar. Logo no começo do jogo, foi marcado um pênalti para os portugueses.

Eusébio, o maior craque lusitano até o aparecimento de Cristiano Ronaldo, preparava-se para cobrar quando Yashin lhe perguntou, à base de mímica, em que canto chutaria. 

Apesar de monoglota, ele sabia se comunicar com jogadores de qualquer nacionalidade. O atacante sinalizou que bateria no seu canto direito. Cumpriu a palavra. Yashin saltou no lado certo e a ponta de sua luva resvalou na bola, mas o chute, violento e colocado, era indefensável.

Eusébio, que se tornaria seu amigo —comeriam caviar e beberiam vodca juntos em Moscou—, contou esse episódio ao historiador russo Igor Rabiner, autor de 16 livros sobre futebol. 

A propósito de vodca, Rabiner sustenta que outra lenda a respeito de Yashin não teria fundamento.

Segundo se comentava, antes das partidas, para aliviar a tensão, ele costumava tomar um trago seguido de um cigarro. 

“É besteira. Yashin aliviava com bicabornato de sódio, não com vodca, as dores que sentia no estômago por causa de uma úlcera”, disse à Folha.

A úlcera, de acordo com o que ouviu de sua viúva, Valentina Yashina, seria resultado de má alimentação em parte da adolescência, durante a Segunda Guerra. Vodca, deixava para tomar quando não estava jogando ou se entretinha em pescarias solitárias. 

O goleiro Lev Yashin, da União Soviética, faz defesa durante jogo contra a Alemanha Ocidental, na semifinal da Copa de 1966, na Inglaterra
O goleiro Lev Yashin, da União Soviética, faz defesa durante jogo contra a Alemanha Ocidental, na semifinal da Copa de 1966, na Inglaterra - Associated Press

Cigarro, no entanto, não era apenas um ou outro no vestiário. Yashin fumava compulsivamente. "Chegava a quatro maços por dia", afirma o jornalista Ivan Kalashnikov, repórter em Barcelona do site Sports.ru e especialista em sua biografia. O tabagismo agravou sua úlcera e lhe causou problemas circulatórios.

Yashin ganharia oito títulos nacionais pelo Dínamo e obteve projeção internacional pela seleção a partir de 1956, quando conquistou a medalha de ouro na Olimpíada de Melbourne. Quatro anos depois, seria um dos responsáveis pelo título da Eurocopa. A final, em Paris, contra a antiga Iugoslávia, terminou com a vitória da União Soviética por 2 a 1 na prorrogação.

O Aranha Negra consolidaria seu prestígio na Copa. Esteve em quatro e jogou em três (na última, em 1970, aos 40, ficou no banco). Ajudou sua equipe a alcançar duas quartas de final e um quarto lugar. 

Na primeira, em 1958, foi uma das vítimas daqueles que seriam considerados os três minutos iniciais dos mais empolgantes da história do futebol. Nesses 180 segundos diante do Brasil, houve uma bola na trave, dribles desconcertantes de Garrincha —que estreava naquela terceira partida do Mundial ao lado de um garoto de 17 anos chamado Pelé— e o primeiro dos dois gols de Vavá. 

Yashin evitou que placar não passasse dos 2 a 0. O marcador foi pequeno, como mostrariam as goleadas brasileiras por 5 a 2 contra a França, na semifinal, e a Suécia, na final. Esse jogo inesquecível aconteceu no dia 15 de junho de 1958, em Gotemburgo, há 60 anos, a se completarem na sexta-feira.

No Chile-62, Yashin caiu em desgraça. Foi considerado um dos responsáveis pelo empate de 4 a 4 contra a Colômbia (tomou um gol olímpico) e pela derrota por 2 a 1 para os donos da casa. Tinha 32 anos e parecia ter chegado ao fim.

Como um Dostoiévski que escapa do pelotão de fuzilamento, sobreviveu para dar a volta por cima. No ano seguinte, foi o goleiro da seleção do Resto do Mundo contra a Inglaterra e ganhou a Bola de Ouro da revista France Football. Nenhum outro camisa 1 receberia esse troféu, antecessor do que hoje é oferecido pela Fifa para o melhor do mundo.

Até parar de vez, em 1971, continuou sendo admirado no mundo inteiro, inclusive no Brasil: ao conseguir do seu governo uma espécie de licença-prêmio que o Kremlin dava aos astros esportivos leais ao regime --era filiado ao Partido Comunista--, decidiu passar uma temporada no Rio, em 1965. Ia à praia de manhã e treinava no Flamengo à tarde. 

O final, infelizmente, seria doloroso. Teve a perna esquerda amputada por causa do velho problema circulatório, sofreu um AVC e morreu em decorrência de um câncer no estômago em 1990, aos 60, em Moscou, sua cidade natal.

Seu mito sobreviveu a tudo. Batizou o prêmio de melhor goleiro da Copa antes que ele passasse a se chamar simplesmente Luva de Ouro. Em 2000, a IFFHS, sigla em inglês da Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol, elegeu Yashin o melhor goleiro do século 20.

A partir desta semana, com a Copa do Mundo que seu país organiza, ele renasce de uma vez por todas.

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