Descrição de chapéu Copa do Mundo

Mbappé decide, França faz 4 a 3 na Argentina, e Messi dá adeus à 4ª Copa

Já nas quartas, franceses agora esperam o vencedor do duelo Uruguai x Portugal

Mbappé comemora gol em vitória por 4 a 2 contra a Argentina
Mbappé comemora gol em vitória por 4 a 2 contra a Argentina - Michael Dalder/Reuters
Alex Sabino
Kazan

Com os olhos marejados e nó na garganta, Javier Mascherano falava à imprensa quando Lionel Messi passou por trás dele. Com olhar perdido, fixo em um ponto qualquer, seguiu seu caminho calado, apesar dos pedidos. A derrota por 4 a 3 para a França acontecida minutos antes, em Kazan, representou o fim de um ciclo. E o jogador eleito cinco vezes melhor do mundo sabia disso.

Mascherano se despediu da seleção após a queda nas oitavas de final na Copa do Mundo. Lucas Biglia também. Há dúvidas se o próprio Messi vai seguir. Ele terá 35 anos quando chegar o Mundial de 2022 no Qatar. Terá de aguentar mais quatro temporadas de lembranças e questionamentos de por que não joga pela seleção o mesmo do que no Barcelona.

Pode ser o fim de linha para a geração argentina três vezes vice-campeã (Mundial de 2014, Copa América de 2015 e 2016), mas é o começo para outras. Kylian Mbappé, 19, passou pelo mesmo lugar de Messi pouco antes na zona de imprensa. Ar de indiferença, carregava o merecido troféu de melhor da partida. Não falou com os jornalistas, mas por um motivo diferente. Ele está rompido com eles por causa das críticas.

Pode ser apenas o início para a seleção francesa que, com média de 26 anos, é a segunda mais jovem da Copa na Rússia. No Qatar, Mbappé terá 23; Griezmann, 31; Pogba e Varane, 29.

O técnico argentino Jorge Sampaoli não quer que seja o seu fim de linha. Ele tem contrato até 2022 e afirmou não pretender renunciar ao cargo, apesar das pesadas críticas em uma Copa que a sua seleção teve tudo dentro e fora de campo, menos organização e tranquilidade. É pouco provável que a AFA (Associação Argentina de Futebol) tenha caixa para demiti-lo. A multa seria de US$ 16 milhões (R$ 56 milhões).

O treinador mudou seu time para que a tarde de sábado (30) em Kazan não fosse de adeus. E talvez este tenha sido o maior problema da Argentina na Rússia. As constantes mudanças. Quatro jogos, quatro escalações, quatro formações diferentes. Diante da França, Messi foi escalado como atacante mais avançado, um falso 9. Não deu certo porque não havia como isso acontecer em um equipe sem meias capazes de se aproximar do principal jogador para trocar passes.

O verdadeiro 9 foi Mbappé. No seu mais importante dia como profissional, ele quase sozinho tirou a Argentina da Copa do Mundo e, por consequência, acabou com o sonho de Lionel Messi. Ele anotou dois gols e sofreu um pênalti, convertido por Griezmann. Quando saiu de campo, foi aplaudido de pé pelos franceses e os neutros. Os argentinos viviam um estado de negação. Nem vaiaram.

A atuação de Mbappé era o tipo que se esperava de Messi, mas este poucas vezes conseguiu mostrar pela seleção. A última vez foi quando anotou três no Equador e classificou a Argentina para o Mundial quando o risco de eliminação era real.

A França era a imagem da organização, um esquema definido e filosofia de jogo apoiada em Pogba (um meia que a seleção sul-americana não tem), as velocidades de Mbappé e Griezmann e Giroud como ponto de referência no ataque. A Argentina era o caos. Poderia até ter Higuaín, o único jogador que poderia prender a zaga adversária. Mas o centroavante da Juventus (ITA) passou os 90 minutos sentado no banco de reservas.

Conservador como nos tempos em que era volante de marcação, Deschamps não é fã de correr riscos em campo. Pode até ser criticado com isso, mas foi campeão do mundo em 1998 com essa função: não deixar sua equipe correr perigo. Sampaoli (outro cabeça de área, mas que nunca chegou a ser profissional) teve Copa do Mundo em que tudo que poderia dar errado, deu.

Se a Argentina fosse campeã mundial, ficaria provado que organização e planejamento não significam nada no futebol.

A França foi melhor os 90 minutos. Criou mais chances, tinha plano de jogo mais claro e acabou classificada. Mas os sul-americandos quase venceram, apesar de tudo. No início do segundo tempo, venciam por 2 a 1 graças ao desvio do zagueiro Gabriel Mercado, meio por acaso, do chute de Lionel Messi. Depois de Marcos Rojo anotar a quatro minutos do fim para classificar a Argentina para as oitavas de final, era possível imaginar que outro zagueiro seria o salvador.

A Argentina era muito frágil para segurar a vantagem. Também porque Di María e Pavón, escalados como pontas para liberar Messi no ataque, se recusavam a acompanhar o lateral adversário. A displicência na marcação não era vista no rival.

A seleção sul-americana teve em Kazan o mesmo das outras três partidas. Esperança e uma torcida. Até Messi reconheceu isso ao, fugindo um pouco de sua personalidade, se voltar para um setor de cadeiras repletos de argentinos e cerrar os punhos, como que em uma comunhão de que estavam todos no mesmo barco. Mas os cerca de 35 mil torcedores do país que foram à Rússia foram muito melhores do que o camisa 10 eleito cinco vezes o melhor do planeta.

Na imaginação de Sampaoli, há detalhes que poderiam ter mudado o resultado. Uma delas é pensar como seria o restante do jogo se o lateral Pavard não tivesse acertado um chute no ângulo para empatar em 2 a 2, em uma das jogadas mais bonitas do Mundial. Mal acreditando estar na frente no placar com aquele futebol mostrado pela sua equipe, o treinador argentino olhou para o chão, coçou a cabeça e reclamou de uma suposta falha de marcação.

Ele não tinha nada a reclamar. A França era mais time e Mbappé provou isso com as arrancadas que Marcos Rojo, Gabriel Mercado, Federico Fazio e Javier Mascherano não podiam conter. Deveria ter feito mais do que dois gols, mas decidiu passar a bola em lance em que estava no mano a mano com a retaguarda rival e poderia levar vantagem com facilidade.

Foi apenas uma partida, mas a Copa do Mundo potencializa 90 minutos. Especialmente se o atacante francês conseguir repeti-los quanto mais a França se aproximar da decisão, se isso acontecer. A equipe europeia soube se renovar. Quando o país ganhou o torneio em 1998, Mbappé não era nascido. Desde Pelé em 1958, ele é o primeiro adolescente a marcar duas vezes em uma partida eliminatória de Copa do Mundo. Sua arrancada para sofrer o pênalti cometido por Marcos Rojo atingiu 38 km/h. Recorde do torneio.

Lionel Messi jamais fez um gol em mata-mata na Copa do Mundo.

A atuação de Mbappé é ainda mais valorizada por ter acontecido no melhor jogo do Mundial até agora. A partir das oitavas, apenas outras duas vezes houve o placar de 4 a 3. Em 1970 (semifinal entre Itália e Alemanha Ocidental) e 1986 (Bélgica e União Soviética). Mas foram partidas decididas na prorrogação. Em 90 minutos, apenas o França e Argentina deste sábado.

É um consenso mesmo entre os dirigentes da AFA que a Argentina precisa de uma renovação. De um jeito ou de outra, esta deverá acontecer. Um processo que a França já passou e que teve como produto final Kylie Mbappé, o atacante que tirou Lionel Messi da Copa do Mundo.

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