Descrição de chapéu santos fc

Santos promete 30% de zagueiro a empresa ligada a ex-sócio do presidente

Clube comprou 100% de equatoriano considerado "novo Mina"

Alex Sabino Diego Garcia Sheila Vieira
São Paulo

Relatório da comissão fiscal do Santos referente aos primeiros três meses da administração neste ano questiona negociação feita pela diretoria para contratar revelação equatoriana de 17 anos. Os conselheiros querem saber por que o clube, apesar de ter comprado 100% dos direitos do jogador, se comprometeu a repassar 30% a uma empresa ligada a um ex-sócio do presidente José Carlos Peres e funcionário afastado da agremiação.

Em fevereiro deste ano, o Santos fechou negócio para a adquirir o zagueiro Jackson Porozo, do Manta Fútbol Club, da segunda divisão equatoriana. Com 1,93 m de altura, ele é apontado como “novo Mina”, defensor que era do Palmeiras e foi negociado com o Barcelona (ESP).

Jackson Porozo (à direita) disputa bola em jogo da seleção do Equador sub-17 contra a Colômbia
Jackson Porozo (à direita) disputa bola em jogo da seleção do Equador sub-17 contra a Colômbia - Luis Acosta - 23.nov17/AFP

“Pegamos um equatoriano da seleção sub-17… Sabe quem é? Já viu? Tem 17 anos e 1,93 m. Veio para darmos valor. É muito menos do que formar jogador com o tempo”, justificou o presidente em entrevista há pouco mais de dois meses.

De acordo com relatório da comissão fiscal do clube, o Santos comprou 100% dos direitos sobre Porozo por 350 mil euros (R$ 1,5 milhão pela cotação atual), divididos em três parcelas. A primeira foi paga em 3 de março e as demais serão em 30 de junho e 30 de agosto.

O zagueiro já assinou um pré-contrato com o clube brasileiro, deve se apresentar em 4 de agosto com vínculo até o final de 2021. O Manta vai ficar também com 20% do valor de uma venda futura.

Os integrantes da comissão fiscal encontraram também outro contrato, sem qualquer vínculo com os outros, acertado pelo Santos com a Hi Talent Ltda, um “instrumento particular de divisão de produto”.

Neste acordo, o clube se compromete a repassar à empresa 30% do lucro líquido de uma futura transferência de Porozo.

O presidente do Santos, José Carlos Peres, 69, durante entrevista à Folha em seu escritório em São Paulo
O presidente do Santos, José Carlos Peres, 69, durante entrevista à Folha em seu escritório em São Paulo - Keiny Andrade - 14.dez.2017/Folhapress

“O contrato não menciona, em qualquer momento, a natureza e o motivo pelo qual o clube está pagando por 100% dos direitos federativos/econômicos e se vê obrigado a repassar 30% dos lucros futuros para a empresa Hi Talent”, questiona o relatório a que a Folha teve acesso.

A Hi Talent pertencia a Ricardo Marco Crivelli, conhecido como Lica. Ele se retirou da sociedade em 22 de junho de 2015, mas foi substituído por uma pessoa que, segundo o registro na Junta Comercial, tem o mesmo endereço residencial de Crivelli.

Este foi sócio do presidente José Carlos Peres na Saga Talent, empresa de agenciamento de atletas que foi encerrada em 23 de maio deste ano. A diretoria do Santos alega que a Saga jamais esteve em atividade.

Contratado pela atual gestão como coordenador das categorias de base, Crivelli está afastado enquanto a polícia investiga acusação de abuso sexual feita pelo garoto Ruan Petrick Aguiar de Carvalho, 19. Ele afirma ter sido assediado quando tinha 11 anos. Crivelli nega a acusação.

“O sr. Ricardo Marco Crivelli foi contratado no início desta gestão para ser coordenador da base de nosso clube, no momento encontra-se afastado de suas funções, porém estava em plena atividade quando da contratação do atleta equatoriano, que nos levou à Hi Talent”, afirma o relatório da comissão fiscal.

Outro lado

Questionado pela Folha textualmente sobre a participação da Hi Talent na negociação e o motivo para ter os 30% da venda do jogador, o Santos não citou o assunto, mas respondeu sobre possível conflito de interesses com a companhia:

" O Santos Futebol Clube informa, por dever de transparência, que no acordo preliminar firmado para a contratação do atleta equatoriano Jackson Porozo, não há participação nos direitos do atleta, direta ou indiretamente, de qualquer funcionário ou membro dos quadros do Clube, o que descarta qualquer conflito de interesses".

Ricardo Crivelli  disse que em 2015 foi convidado por Ulisses Jorge, sócio da empresa, a trabalhar na Hi Talent, mas que pouco depois decidiu sair dela. Ele afirma não saber porque seu endereço consta como o de outro sócio.

"Quanto ao atleta Jackson Porozo, não posso dar detalhes pois não tive acesso ao contrato e aos detalhes da negociação", disse o coordenador da base.

Procurado pela reportagem, o administrador da Hi Talent, Ulisses Jorge, não respondeu até o momento às perguntas sobre a negociação.

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