Descrição de chapéu Copa do Mundo

Sempre imprevisível, 'Profe Osorio' ainda busca confiança de mexicanos

Em 49 jogos à frente da seleção, técnico colocou em campo 49 formações

Alinne Fanelli Fábio Aleixo
São Paulo e Moscou

Com críticas da imprensa e vaias da torcida, o México se despediu do país antes de chegar à Rússia. Uma vitória sobre a campeã Alemanha depois, vive sob clima de euforia incontida e elogios.

Assim é a realidade vivida pelo treinador Juan Carlos Osorio, 57, ou “Profe Osorio”, como costuma ser chamado, pela formação em Ciências de Exercício Físico e Rendimento Humano e Ciências Superiores do Futebol.

 

Tão imprevisível quanto o comportamento dos torcedores e jornalistas mexicanos é também o técnico. A cada jogo apronta uma surpresa.

Em 49 jogos à frente da seleção, colocou em campo 49 formações diferentes.

Em 2017, na Copa das Confederações, chegou a trocar oito titulares de uma vez, do primeiro para o segundo jogo. Isso após empatar em 2 a 2 com Portugal.

O rodízio virou uma marca caraterística de seu trabalho.

“A equipe sempre encarou este rodízio com tranquilidade. Sabemos que aqueles que estão jogando podem dar conta do recado, e os outros que entraram também”, disse o goleiro Guillermo Ochoa.

“Ninguém sabe o que esperar ou que vai acontecer. E esta sempre foi a principal queixa sobre seu trabalho”, analisou o jornalista mexicano Manuel González Vargas, da agência de notícias DPA.

Ao longo de toda sua carreira como treinador, que teve início em 2006, no Millonarios (COL), após cinco anos trabalhando como assistente no Manchester City (ING), Osorio manteve esta característica.

Um método de trabalho do qual não abre mão e que nem sempre é compreendido ou dá os resultados esperados.

Em sua passagem de menos de cinco meses pelo São Paulo, em 2015, cansou de fazer isso e gerou atritos no clube e reclamações da torcida.

Muitas vezes, nem os próprios jogadores sabiam que time entraria em campo. O zagueiro Rodrigo Caio lembra de um episódio em 2015, quando Osório treinava o São Paulo. Antes de um jogo contra o Grêmio, em Porto Alegre, ninguém sabia qual seria o time titular.

“Na véspera do jogo, ele resolveu dar um treino coletivo. Pouco atrás da linha do meio-campo, na intermediária da nossa defesa, ele colocou quatro cones e pediu para que nossos atacantes [Pato, Ganso, Carlinhos e Michel Bastos] não passassem, ou seja, impedindo-os de voltar para marcar”, afirma o zagueiro, que diz ter questionado o técnico sobre o porquê daquele teste.

“Eu já estava pensando no pesadelo que seria para nossa defesa. O Osorio dizia que iríamos surpreendê-los. Foi o que aconteceu. Em um escanteio, ele pediu para os nossos atacantes continuarem lá na frente, deixou dois no rebote e outros quatro na marcação, da mesma maneira que havíamos treinado. Aquilo causou uma confusão no time do Grêmio, que não sabia se subia para nossa área ou se voltava para marcar”, contou o camisa 3 são-paulino. Naquela oportunidade, o São Paulo venceu o por 2 a 1, com a “loucura” do colombiano dando certo.

 

Osorio dirigiu o time do Morumbi em 28 partidas, com 12 vitórias, sete empates e nove derrotas. Um aproveitamento de 51%. No período, estudou português e questionava sempre quando não entendia alguma palavra. Em campo, quando percebia que os jogadores não o entendiam, explicava de outra maneira, com tranquilidade.

Como curiosidade, o técnico gostava de chamar os seus atletas pelo primeiro nome. Pato era “Alexander”; o volante Souza, “Josef”; e Centurión, “Ricardo”. Sua saída, porém, não se deu por uma demissão. Resolveu aceitar o convite feito pela Federação Mexicana para levar a seleção à Copa da Rússia.

O trabalho na seleção foi cheio de percalços, o mais dramático deles, a goleada de 7 a 0 para o Chile na Copa América Centenario de 2016. Ali, sua demissão era dada quase como certa, mas o presidente da federação, Decio di Maria, e o secretário de seleções nacionais, Guillermo Cantú, que haviam apostado em sua contratação, resolveram bancá-lo.

Nas eliminatórias, o México passou sem sustos, com apenas um revés no hexagonal final. E desde o sorteio dos grupos, em 1º de dezembro, começaram os estudos dos rivais. “Desenhamos esta estratégia há seis meses. Neste período, alguns jogadores se lesionaram e mudamos as peças. Mas a ideia jamais se alterou”, disse Osorio após a vitória sobre a Alemanha.

Para o duelo com a Coreia do Sul, neste sábado (23), e contra a Suécia, na quarta (27), os jogadores já tem há semanas os dados e sabem exatamente o que tem de ser feito.

Isso corrobora o caráter estudioso de Osorio, que também é adepto dos bilhetinhos aos atletas à beira do gramado. Caneta vermelha, o mais importante; caneta azul, o resto. “Ele se entrega demais por este grupo. É um gênio. Esta é a verdade. Penso que é um gênio”, disse o defensor mexicano Miguel Layún.

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