Descrição de chapéu Copa do Mundo

Componente de gratidão liga estrela do ataque francês ao rival Uruguai

Ao se autodeclarar 'meio-uruguaio', Griezmann criou embaraço com Suárez

Antoine Griezmann, com uma cuia de chimarrão, e Varane chegam para treino em Glebovets
Antoine Griezmann, com uma cuia de chimarrão, e Varane chegam para treino em Glebovets - David Vincent/Associated Press
 
Alex Sabino
Istra

No time espanhol Atlético de Madri, as expressões uruguaias "bo" e "ta" são usadas não apenas pelos jogadores do clube nascidos no país sul-americano, mas também por um francês: o atacante Antoine Griezmann.

"Bo" é maneira de chamar a atenção de alguém em uma frase. Como o "che" na Argentina ou o "cara" no Brasil. "Ta" vai no final da sentença como se fosse um "né?" em português.

"Ele é o jogador não uruguaio mais uruguaio que existe", disse à Folha o atacante Carlos Bueno, 38, amigo de Griezmann desde os tempos de Real Sociedad (ESP).

Bueno é parte da história da relação de amor do francês com o Uruguai. Griezmann toma mate todos os dias, come doce de leite nas sobremesas, virou torcedor do Peñarol de Montevidéu e sempre tem no celular as músicas do grupo uruguaio de cúmbia Márama.

Nesta sexta-feira (6), ele pode fazer seu país adotivo chorar ou ser eliminado do Mundial. Uruguai e França se enfrentam pelas quartas de final, às 11h, em Nijni Novgorod.

"Antoine sempre diz que é o maior divulgador de mate da Europa. Como ele pode ser se fui eu quem o ensinou a tomar?", questiona Bueno, se divertindo. Após eliminar a Argentina nas oitavas de final, na semana passada, Griezmann disse se considerar meio uruguaio. Chamou-o de "meu segundo país".

"A nação e o povo me encantam. Tenho muitos amigos lá e vai ser estupendo jogar essa partida. Pelo aspecto emotivo, será intenso", afirmou.

Tanta demonstração de afeto pelo rival antes de confronto que vale a permanência no torneio não foi bem aceita por todos. Luis Suárez ficou contrariado. Ele não vê motivo para Griezmann dizer ser meio uruguaio, já que não é.

"Ele é francês e não sabe o que é o sentimento de ser uruguaio. Não sabe a entrega e o esforço que os uruguaios fazem desde criança para poder triunfar no futebol com uma população tão pequena", reclamou o artilheiro 100% uruguaio.

A população do Uruguai é de 3,5 milhões de pessoas. Na França moram 67,4 milhões.

Foi uma declaração de afirmação de Suárez porque é no futebol que as pessoas do seu país veem uma forma de se diferenciar dos vizinhos, especialmente a Argentina. Não é um francês, na visão do atacante, que virá a público dizer se considerar "um de nós" e vai ficar tudo bem. Ainda mais antes de jogo de Copa.

"É no futebol que o Uruguai pode ter relevância maior, já que territorialmente é muito menor que outros países do continente, como a Argentina, por exemplo", afirma o pesquisador Pablo Pérez de León, especialista em estudos sobre a identidade nacional.

Griezmann não faz por mal. Não é provocação ou maneira de apimentar o jogo. A ligação dele com o Uruguai vem, claro, do contato com jogadores do país. No elenco atual do Atlético de Madri, clube onde atua, estão os zagueiros José Giménez e Diego Godín. Esse último é o melhor amigo do atacante e foi escolhido para ser padrinho de sua filha.

"Estou com Diego todos os dias", diz Griezmann.

Diego Godin e Griezmann levantam a taça da Liga da Europa
Diego Godin e Griezmann levantam a taça da Liga da Europa deste ano - Christophe Ena - 16.mai.2018/Associated Press

Há também outros que passaram pela carreira, como Cristian "Cebolla" Rodríguez e Carlos Bueno. Todos ajudaram ou ajudam no processo de "uruguaização" do francês.

Mas existe um componente de gratidão.

Filho de pai alemão e mãe portuguesa, Griezmann nasceu em Macôn, na região da Borgonha. Nunca conseguiu ser jogador de futebol em seu país. Foi rejeitado repetidas vezes por ser considerado franzino demais, inclusive pelos treinadores de Clairefontaine, a academia de futebol mantida pela Federação Francesa. O clube que o acolheu, aos 13 anos, foi a Real Sociedad, na região basca da Espanha. Sua passagem na base não foi de grande destaque.

Até que apareceu o técnico uruguaio Martín Lasarte. Foi ele quem levou Griezmann ao elenco profissional em 2009, aos 18 anos. Dirigentes torceram o nariz com a decisão, mas o treinador insistiu. A multa rescisória de Griezmann hoje é de R$ 1,35 bilhão.

"Lasarte nunca teve dúvidas do talento de Antoine. Desde o início apostou nele, o orientou e incentivou. A recompensa é o jogador que ele se tornou hoje", completa Bueno, que estava na equipe emprestado pelo Peñarol.

Griezmann acredita ter afinidades com o povo uruguaio, quer Suárez goste ou não. Já disse considerar seu estilo de jogo parecido com o de Edinson Cavani, o autor de dois gols contra Portugal, nas oitavas de final, e que pode não enfrentar a França por estar lesionado. Ele já posou para fotos usando a camisa da seleção celeste e do Peñarol.

Em 2007, antes de partida da equipe contra o Brasil, pelas eliminatórias da Copa, escreveu "Uruguay nomá!", em uma rede social. É uma expressão de incentivo para a seleção, o "Uruguai e nada mais".

"Esperamos que em campo ele se lembre de que é meio uruguaio", brincou o meia Nahitán Nández, que vai enfrentá-lo em Nijni Novgorod.

Antoine Griezmann, 27

Nascido no leste da França, foi revelado no futebol espanhol. Jogou na Real Sociedad (ESP) de 2009 a 2014, até se transferir para o Atlético de Madri. Recentemente, disse ter recusado proposta do Barcelona e renovou contrato até 2023

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