Conselho de Ética do COB absolve Marcos Goto e critica Diego Hypolito

Ginasta teria se recusado a depor sobe casos de abuso sexual na ginástica

Demétrio Vecchioli
São Paulo | UOL

O Conselho de Ética do Comitê Olímpico do Brasil (COB) anunciou na tarde desta sexta-feira (31) a absolvição do técnico de ginástica artística Marcos Goto e da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) no caso envolvendo as acusações de abuso sexual supostamente cometidas pelo técnico Fernando de Carvalho Lopes. Esse foi o primeiro julgamento da história do conselho, criado em março deste ano.

Marcos Goto estava sendo investigado porque um dos atletas que, de forma anônima, deu depoimento à Rede Globo acusando Fernando de abuso sexual disse que, depois que se transferiu para o clube de Goto, o treinador passou a fazer chacota dos relatos. Mas, diante do Conselho de Ética, nenhuma das testemunhas confirmou essa versão. Por se tratar de fonte anônima, o conselho não sabe se o atleta em questão negou a versão ao depor ou está entre "aquelas tantas que se recusaram a depor".

Marcos Goto, técnico de ginástica artística
Marcos Goto, técnico de ginástica artística - Ricardo Bufolin - 1º.out.17/CBG/Divulgação

Entre os que não aceitaram falar com Conselho de Ética está o medalhista olímpico Diego Hypolito, citado no relatório como o responsável pela "escolha individual e pessoal" de levar Fernando de Carvalho Lopes à seleção brasileira, apontando-o como seu técnico pessoal. Prata na Rio-2016, Diego foi  duramente atacado no relatório.

"Não obstante tenha dado entrevista em veículos de imprensa amplos e conhecidos, deliberadamente recusou-se a ser ouvido pelo Conselho de Ética, injustificadamente deixando de colaborar com procedimento ético. O que é, no todo, deplorável e condenável, até porque a inclusão de Fernando Carvalho na equipe olímpica deu-se por exclusiva escolha do atleta, conforme depoimentos gravados", atacou o conselho.

"Foram inúmeras as tentativas de contato, mensagens enviadas por esse Conselho a Diego, arrolado pelas partes sem que houvesse sequer resposta. Claro que o atleta não está obrigado a atender os convites deste Conselho, mas sendo o atleta pessoa de expressão internacional e, ainda, tendo-se prestado a falar sobre o assunto em rede nacional, em horário nobre, esse Conselho entende que seu depoimento teria sido importante para ajudar a depurar fatos tão graves na modalidade que pratica", continua, dizendo que a decisão do medalhista olímpico pode ser "imensamente deletéria". Ou seja: ter efeito destrutivo.

Fernando de Carvalho Lopes, ex-técnico da seleção brasileira de ginástica artística, durante CPI dos Maus-tratos
Fernando de Carvalho Lopes, ex-técnico da seleção brasileira de ginástica artística, durante CPI dos Maus-tratos - Marcos Oliveira - 16.mai.18/Agência Senado/Divulgação

O documento, de 22 páginas, também ataca a gestão anterior do COB, apontando que durante o ciclo olímpico passado o comitê viveu uma "cegueira deliberada", em que o objetivo era "tão somente mais medalhas, não tendo exercido nenhum filtro sobre colaboradores deste projeto final", em alusão ao fato de Lopes ter chegado à seleção brasileira como treinador de Diego Hypolito.

Em abril, o Fantástico publicou uma longa matéria na qual ginastas que foram treinados por Fernando de Carvalho Lopes na infância ou juventude relataram casos de abuso sexual. Fernando sempre trabalhou em São Bernardo do Campo, com formação de atletas. No ciclo olímpico passado, porém, a equipe dele passou a ter patrocínio da Caixa Econômica Federal e contratou dois ginastas de seleção, já consagrados: Diego Hypolito e Caio Souza.

Como Diego foi convocado para a Olimpíada, seu treinador da época também o foi. Já na reta final de preparação, dois garotos da equipe de base de São Bernardo do Campo relataram terem sido abusados e o caso chegou ao Ministério Público. A CBG e os demais técnicos da seleção também foram informados da denúncia, mas Lopes demorou um mês para ser afastado da equipe.

O processo no Conselho de Ética foi aberto para investigar se a CBG deveria ter feito alguma coisa para impedir que Fernando chegasse à seleção e para apurar se Marcos Goto de fato sabia das denúncias contra o treinador da cidade vizinha —Goto é de São Caetano do Sul.

Quanto a Goto, o Conselho entendeu que não há provas de qualquer conduta ética indevida. De acordo com o relatório "nada há a desabonar a conduta de Marcos Goto".

Em depoimento, o treinador reconheceu que havia comentários sobre a sexualidade de Fernando, mas disse que nada lhe foi relatado, ainda que tivesse perguntado pessoal e sigilosamente a todos os seis atletas que passaram a treinar com ele depois de serem da equipe de Fernando.

Já com relação à CBG, a absolvição veio única e exclusivamente pelo fato de o Conselho só ter jurisdição sobre fatos ocorridos após a sua criação. Ou seja: 23 de março de 2018. "Havia omissão claríssima na data dos fatos (2016). Não há omissão em data posterior à instalação do Conselho de Ética", avaliou o Conselho, que diz, porém, que os movimentos da CBG são "tímidos e insuficientes".

Em nota oficial, a CBG se manifestou a respeito da absolvição do Conselho de Ética no caso envolvendo as acusações contra o técnico Fernando de Carvalho Lopes.

"A CBG continuará com seus esforços para aprimorar ainda mais seus programas, tornar-se um exemplo no combate ao assédio e ao abuso no esporte, garantir um ambiente sempre saudável para nossos atletas e influenciar positivamente a sociedade", afirmou a presidente da entidade, Luciene Resende.

Em nota enviada por sua assessoria de imprensa na manhã de sábado (01), Diego Hypolito negou que tenha sido procurado pelo Conselho de Ética do COB.

"O Conselho de Ética do COB, diferente do que foi dito, não entrou em contato comigo. Alegam que esse contato foi realizado via e-mail, mas ressalto que nunca recebi nenhum conteúdo como o citado. Causa estranheza também que todos sabem onde eu moro, onde eu treino e quem são meus assessores, mas reafirmo que em nenhum momento fui chamado para depor. Sempre que solicitado, colaborei com as autoridades e, ontem (sexta) mesmo, prestei um depoimento à justiça de São Bernardo como colaborador em processo que acontece em segredo de Justiça. O intuito dessa nota é deixar bem claro que não fui procurado pelo Comitê de ética do COB, cujo os componentes têm meu contato pessoal e direto. Saliento que estou a disposição de todos para colaborar pelo esporte brasileiro".

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