Justiça dos EUA condena Marin a 4 anos de prisão e multa de US$ 1,2 mi

Ex-presidente da CBF é acusado de receber propinas e lavar dinheiro

O ex-presidente José Maria Marin foi condenado nesta quarta-feirta (22) a quatro anos de prisão
O ex-presidente José Maria Marin foi condenado nesta quarta-feirta (22) a quatro anos de prisão - Don EMMERT - 13.dez.2017/AFP
Danielle Brant
Nova York

A Justiça americana condenou nesta quarta-feira (22) o ex-presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) José Maria Marin, 86, a 48 meses de prisão e a pagar multa de US$ 1,2 milhão (R$ 4,8 milhões) por receber propinas e lavar dinheiro no escândalo de corrupção da Fifa.

Marin foi condenado depois de um julgamento de 3 horas pela juíza Pamela Chen, que ordenou ainda o confisco de US$ 3,34 milhões (R$ 13,4 milhões) do cartola.

Pelos cálculos dos advogados de Marin, ele terá que cumprir somente mais 28 dos 48 meses estipulados como pena. A defesa espera que sete meses sejam retirados da sentença por bom comportamento, e outros 13 meses que o cartola já está preso devem ser abatidos por tempo servido.

Depois, ele ficará dois anos em condicional, período durante o qual terá que prestar contas regularmente ao governo americano —mesmo que seja deportado ao Brasil ao fim do tempo de prisão.

Os advogados consideram que há bases para apelar da decisão. “A juíza discorda do que a defesa alegou, mas isso vai ser levado às cortes de apelação. É uma perda de tempo ficarmos falando das bases para apelação agora”, disse o advogado Julio Barbosa, que faz parte da equipe que representa o ex-dirigente da CBF.

Marin aguardará a definição do local onde cumprirá pena no presídio do Brooklyn, onde está detido. A defesa pediu que ele fosse encaminhado para uma penitenciária de segurança mínima na Pensilvânia, em recomendação que foi acatada pela juíza Chen. Ela, porém, não tem o poder de decidir para onde ele será enviado.

A multa de US$ 1,2 milhão será dividida em seis parcelas, que começarão a ser pagas seis meses depois de 20 de novembro, quando a juíza fará nova audiência para decidir sobre a restituição de valores a Fifa, Conmebol, Concacaf e ex-funcionários da Traffic Sports USA, que disseram ser vítimas de Marin.

Na decisão, a juíza diz ter levado em consideração a idade avançada de Marin para determinar a sentença de quatro anos —a idade média de prisioneiros nos EUA é de 36 anos. Inicialmente, ela estudava uma pena de sete anos, mas admitiu que qualquer pena muito extensa seria equivalente a uma “sentença de morte”.

​Mas a juíza lembrou que o ex-presidente da CBF já tinha 79 anos quando começou a conspirar para os crimes dos quais foi acusado. Chen também desconsiderou outro argumento da defesa, de que Marin teve papel secundário no esquema de pagamento de propinas e foi vítima de um ambiente já corrompido.

“Ao tomar conhecimento da corrupção na Fifa, ele deveria ter falado não e exposto o esquema, em vez de se juntar a ele”, afirmou a magistrada.

A pena de quatro anos, portanto, era necessária para passar uma mensagem de que um crime sério como o cometido por Marin e outros cartolas merece punição. Para a defesa, os 13 meses cumpridos pelo ex-dirigente já seriam suficientes para coibir outros esquemas do tipo. 

Marin esteve presente na audiência, vestindo um macacão cáqui e um sapato azul. Ele ouviu as argumentações da juíza com a ajuda de um intérprete. Antes de escutar a sentença, o cartola leu um texto no qual disse que sua vida virou um inferno após a prisão.

O cartola reconheceu que, “eventualmente”, pode ter prejudicado outras pessoas, mas voltou a dizer que encontrou na CBF um ambiente já corrompido no “ano e meio” que comandou a confederação —na verdade, foram três anos.

Ele pediu para que, na decisão, Chen considerasse sua idade avançada e a ligação que tem com sua esposa, Neusa, que “tem sofrido demais”. Marin apelou para que fosse liberado para que pudesse comemorar os 60 anos de casamento com a mulher.

“Eu sou um homem sem futuro, mas estou preocupado com [a esposa] Neusa. Jesus carregou uma cruz, eu carrego duas cruzes. Ela não tem nada a ver com isso”, disse, chorando.

Nesse momento, aparentou estar fortemente emocionado, o que fez a juíza ordenar um intervalo de dez minutos para que ele pudesse se recompor.

Neusa Marin, mulher do ex-presidente da CBF José Maria Marin, deixa a corte federal de Nova York após a divulgação da sentença nesta quarta-feira (22)
Neusa Marin, mulher do ex-presidente da CBF José Maria Marin, deixa a corte federal de Nova York após a divulgação da sentença nesta quarta-feira (22) - Mary Altaffer/Associated Press

Neusa, 79, assistiu ao julgamento do marido. Ela passou a maior parte da audiência de cabeça baixa e com as mãos unidas no colo.

Ao lado do intérprete, Marin falou poucas vezes. Em uma das únicas ocasiões em que reagiu ao que a juíza dizia, mostrou irritação quando Chen questionou o serviço público prestado pelo cartola —um dos argumentos usados pela defesa para tentar evitar a imposição de uma sentença maior ao cartola.

Chen levantou dúvidas sobre a contribuição recente de Marin à comunidade, lembrando que ele se afastou do serviço público na década de 1980 —ele governou São Paulo entre 1982 e 1983.

Marin assumiu o posto na condição de vice do então governador Paulo Maluf, que na época deixou o cargo para concorrer à Câmara dos Deputados. 

“O bem que ele fez à comunidade foi ofuscado pelo mal que fez nos últimos anos”, afirmou a juíza. 

Ao ouvir a tradução, o ex-presidente da CBF murmurou “eu estava aposentado”.

Em sua argumentação, a juíza afirmou que o espírito público deixou Marin em 2012, quando ele começou a fazer parte do que a Promotoria qualifica de conspiração para obter ganhos financeiros com a transmissão de partidas oficiais da Fifa.

"Ele não precisava do dinheiro, e é difícil de acreditar que ele não sabia que o que estava fazendo é errado. Não havia razão para que cometesse os crimes", afirmou a juíza. Para ela, Marin “sucumbiu à ganância”.

Chen também afirmou que, apesar da “ligação espiritual” que Marin disse ter com a esposa, Neusa não visitou o cartola uma única vez nos oito meses em que ele esteve preso. Ao fim do julgamento, Marin pediu para falar com a esposa por alguns minutos, em conversa autorizada pela juíza. 

A condenação foi mais branda do que a pena pedida pela promotoria, que era de dez anos de prisão e multa de cerca de US$ 7 milhões (R$ 28,4 milhões).

Marin foi preso em maio de 2015 na Suíça e extraditado em novembro do mesmo ano para os Estados Unidos. 

Condenado nos EUA por seis crimes cometidos durante sua gestão na CBF, José Maria Marin assumiu o cargo em 2012, aos 79 anos, para cumprir o restante do mandato de Ricardo Teixeira, que renunciou.

Ele era o vice mais velho e, por isso, ficou com o posto, seguindo estatuto da confederação. Antes de ser presidente da CBF, foi vereador, deputado estadual e governador de São Paulo.

Os advogados Paulo Peixoto (esquerda) e Julio Barbosa falam com os jornalistas após a divulgação da sentença de quatro anos de prisão para o ex-presidente da CBF, José Maria Marin
Os advogados Paulo Peixoto (esquerda) e Julio Barbosa falam com os jornalistas após a divulgação da sentença de quatro anos de prisão para o ex-presidente da CBF, José Maria Marin - Don Emmert/AFP

As acusações no chamado Fifagate englobam ações de suborno, fraudes e de lavagem de dinheiro. Os cartolas teriam recebido pagamentos ilegais, que começaram em 1991 e atingiram duas gerações de dirigentes e executivos, que movimentaram mais de R$ 564 milhões.

Empresários do marketing esportivo como Alejandro Burzaco, da Torneos y Competencias, J. Hawilla, da Traffic, e Hugo Jinkis e Mariano Jinkis, pai e filho donos da Full Play, teriam subornado os cartolas com viagens de jatinho, banquetes em restaurantes badalados e suítes de hotéis cinco estrelas.

O objetivo era obter vantagens na negociação de contrato para terem os direitos de transmissão de partidas da Copa do Mundo.

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