Descrição de chapéu New York Times

Acusado de racismo por cartum sobre Serena, desenhista se defende

Mark Knight diz que o cartum só retratou o comportamento da tenista

Damien Cave
Nova York

Se você acompanha o tênis, ou o Twitter, provavelmente viu o cartum que mostra Serena Williams pisoteando a raquete em sua derrota no Aberto dos Estados Unidos, no sábado, com feições distorcidas, caricatas.

O desenho veio da Austrália, do jornal Herald Sun, uma publicação sensacionalista de Melbourne controlada por Rupert Murdoch. E causou uma tempestade de indignação internacional; atletas, torcedores e até a escritora J.K. Rowling criticaram o desenho como sexista e racista.

Como é que ele surgiu?

Na terça-feira, o desenhista, Mark Knight, e seu chefe tentaram explicar, argumentando que os críticos não entenderam o que ele queria dizer.

"O cartum sobre Serena se referia ao mau comportamento dela naquele dia, e não a raça", disse Knight em artigo para o site do Herald Sun sobre as reações negativas ao seu desenho.

Damon Johnston, o editor do jornal, expressou apoio ao artista.

"Uma tenista campeã deu um chilique em um torneio de repercussão mundial, e o cartum de Mark retratou o que aconteceu", disse Johnston. "Nada tinha a ver com gênero ou raça".

Vamos examinar essa defesa - levando em conta a História, o contexto e alguns especialistas tanto em cartuns quanto nas relações raciais australianas.

 
Quem é o desenhista?

Na Austrália, Mark Knight é um desenhista famoso, conhecido por ser provocativo. Política e esportes são dois de seus principais temas e, ao defender seu desenho sobre Williams, no Twitter, ele mencionou um cartum anterior no qual criticava o tenista australiano Nick Kyrgios, como prova de imparcialidade.

Mas os críticos de Knight apontam que ele já foi acusado de representações racistas, no passado.

Meses atrás, ele publicou um cartum no qual mostrava adolescentes africanos brigando e causando estrago. Era um esforço para criticar um político local por proibir a exibição de programas do Sky News, um canal noticioso controlado por Murdoch, em plataformas de estações de trem, mas não foi assim que a peça foi recebida.

Muitos australianos argumentam que o trabalho de Knight reflete um padrão mais amplo. A Austrália jamais confrontou plenamente seu histórico de racismo, e estudiosos afirmam que o diálogo sobre raça na Austrália não é tão robusto quanto nos Estados Unidos.

Ideias como a de vieses implícitos raramente são referenciadas, ou compreendidas amplamente, por exemplo, e muita gente afirma que o empregador de Knight arca com boa parte da culpa.

A News Corp., de Murdoch, é a maior companhia de mídia australiana, com ativos que incluem mais de 200 jornais e revistas, além de canais de televisão e estações de rádio.

Muitos desses veículos, agindo juntos mas sem coordenação estreita, fomentam o racismo há décadas. No entanto, o tom e a frequência das mensagens racistas estão se intensificando, recentemente, em meio às dificuldades políticas do partido apoiado pelas empresas de Murdoch, o Liberal.

Os veículos de Murdoch não estão sozinhos, no caso de Williams. A imprensa esportiva australiana - dominada em geral por homens brancos de uma certa idade - condenou o rompante de Williams e descartou seu argumento de que os tenistas homens têm mais liberdade para reclamar.

"É isso que a Austrália faz", disse Shareena Clanton, atriz e ativista aborígene australiana. "Foi isso que sempre foi feito contra as pessoas não brancas, especialmente as mulheres negras que chegam ao topo".

"O cartum todo é vil", ela acrescentou, apontando que Naomi Osaka, a oponente de Williams, foi retratada como mulher branca. "O fato de que tenha sido publicado e de que um editor o tenha aprovado revela muito sobre o cenário da mídia aqui na Austrália".

Chris Kindred, cartunista de Richmond, Virgínia, afirmou que o desenho só confirmou o que muitos americanos já sabiam: "Não há novidade", ele disse. "A Austrália tem problemas em enfrentar o racismo. A água é molhada".

A intenção do desenhista importa?

Knight e seu editor afirmaram que suas motivações eram puras.

"Desenhei o cartum domingo à noite, depois de ver a final do Aberto dos Estados Unidos e de ver a melhor tenista do mundo ter um chilique, e achei que a cena era interessante", declarou Knight. "O mundo parece ter enlouquecido".

Essa explicação não convence muitos cartunistas. Diversos deles disseram que trabalhar nesse ramo significa incorporar parte da história dos cartuns, e que essa história está profundamente ligada ao racismo.

Em entrevistas, outros cartunistas foram ainda mais longe.

"Os quadrinhos têm um longo histórico de iconografia racista, que inclui personagens brancos satirizando negros em trabalhos de alguns dos mais famosos desenhistas da história", disse Noah Berlatsky, autor de "Wonder Woman: Bondage and Feminism in the Marston/Peter Comics" ["Mulher-Maravilha: Bondage e Feminismo nos Quadrinhos de Marston/Peter"].

"Thomas Nast, Winsor McCay, Will Eisner, R. Crumb e outros usaram imagens de brancos com pintura que os fazia parecerem negros; o Dr. Seuss desenhou cartuns violentamente racistas contra os japoneses na Segunda Guerra Mundial, e assim por diante", disse Berlatsky. "Usar imagens exageradas e racistas para efeito cômico é um dos traços mais característicos dos quadrinhos, como mídia".

É difícil acreditar, ele afirma, que Knight desconheça essa história. Uma porta-voz do Herald Sun disse que Knight não tinha tempo para entrevistas. Mas cartunistas que tentaram defender trabalhos semelhantes no passado argumentaram que essa história os vacina - que é assim que os cartuns funcionam.

Berlatsky discorda.

"O problema é que usar iconografia racista criada 100 anos atrás para atacar uma mulher negra hoje ainda faz de você um racista, mesmo que você acredite estar perpetuando a tradição dos quadrinhos e não a tradição do racismo", disse Berlatsky. "A tradição dos quadrinhos e a tradição do racismo em muitos casos são idênticas, e você pode escolher resistir a isso ou pode escolher ser racista. Knight fez a segunda escolha".

É justo submeter um australiano aos padrões americanos?

Não ser americano, argumentam alguns cartunistas, não é desculpa.

"Embora a Austrália branca tenha uma história colonial própria, separada dos Estados Unidos, o mundo ocidental, que inclui a Austrália, compartilha de uma história estética", disse Ronald Wimberly, artista e designer conhecido por seus comentários sobre quadrinhos e raça.

Essa história inclui um esforço para "desumanizar as pessoas negras e pardas, degradando seus traços e fazendo deles símbolos do subumano", disse Wimberly, oferecendo uma crítica detalhada do cartum sobre o Aberto dos Estados Unidos, que ele descreveu como fracasso em diversos níveis.

"O cartum é racista? Para começar, o que ele pretende? Qual é seu objetivo? O texto é uma declaração clara, ainda que flácida, quanto à falta de espírito esportivo de Serena Williams. Alude à zanga e ao comportamento infantil de Serena (e eu diria que o texto também recorre a estereótipos racistas e sexistas)", disse Wimberly.

"Mas um cartum é uma mídia de desenho. Não quero atribuir intenções cegamente, mas, desconsiderando a possibilidade de que o cartunista seja mesmo um desenhista muito ruim, o traço parece ridicularizar a aparência de Serena. Como retrato, o desenho não é bom. Mark não está usando a mídia em apoio à sua piada, retratando Serena como bebê, o que teria requerido destaque maior para a chupeta", ele acrescentou.

"Cartuns usam símbolos como um código para retratar coisas. Essa é nossa arte, o uso de símbolos. A chupeta é um símbolo de imaturidade, se refere a um bebê dando um chilique. Mas Mark também está recorrendo a um histórico de símbolos diferente, aqui. Símbolos racistas e sexistas. Mark critica a aparência e o desempenho do corpo de Serena em termos de raça e sexo, e não de esporte", ele disse.

Wimberly disse que só existia uma conclusão que qualquer pessoa que saiba alguma coisa sobre cartuns e racismo poderia extrair: "Quer Mark tenha querido usar a história racista dos símbolos, quer não, ele o fez. Sua intenção é irrelevante. Ou ele é um cartunista deliberadamente racista - ou um cartunista incompetente e descuidado".

Kindred, o cartunista da Virgínia, disse que em última análise tudo dependia da qualidade, não só da sensibilidade.

"Queremos que as pessoas ofereçam comentários melhores", ele disse. "Racismo é piada para preguiçosos".

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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