Descrição de chapéu The New York Times

Árbitro chamado de ladrão por Serena é um dos mais experientes do mundo

Português Carlos Ramos é conhecido por ser rigoroso e já puniu outros astros do tênis

Christopher Clarey
Nova York | The New York Times

O árbitro de cadeira a quem Serena Williams chamou de "ladrão" na final de simples feminina do Aberto de Tênis dos Estados Unidos, no sábado (8), há muito se demonstra disposto a aplicar as regras rigorosamente, nas partidas dos maiores astros do tênis masculino e feminino.

O árbitro, o português Carlos Ramos, 47, causou controvérsia na final feminina, e atraiu a ira de Williams no segundo set de sua derrota por 6-2, 6-4, diante de Naomi Osaka.

Ramos aplicou três penalidades contra Williams por violação do código de conduta - por contato indevido com o seu treinador, quebrar uma raquete e insultar verbalmente o árbitro. A terceira dessas violações lhe custou um game no segundo set da partida contra Osaka.

Depois da partida, Williams foi multada em US$ 17 mil: US$ 10 mil pelas ofensas verbais, a maior multa na história do Aberto dos Estados Unidos até hoje; US$ 4 mil pela consulta indevida ao treinador; e US$ 3 mil por quebrar a raquete. De acordo com as regras, os tenistas estão sujeitos a multas de até US$ 20 mil por cada um desses delitos.

Serena Williams discute com o árbitro Carlos Ramos na final do Aberto dos EUA
Serena Williams discute com o árbitro Carlos Ramos na final do Aberto dos EUA - Alex Pantling/Getty Images/AFP

Ainda que Ramos seja considerado um árbitro severo, críticos dizem que ele poderia ter feito mais para acalmar a situação no sábado, antes de aplicar duas das três punições que impôs a Williams.

"Os dois cometeram erros", disse Pam Shriver, ex-tenista e hoje comentarista da rede ESPN de TV. "Ramos ajudou a tirar dos trilhos uma decisão de torneio, ao agir com rigidez muito maior do que requer o protocolo, já que ele não fez uma advertência informal pela consulta ao treinador; não se comunicou de maneira efetiva, para acalmar uma jogadora que estava com o estado emocional alterado; e não permitiu que ela desabafasse antes de lhe aplicar a terceira penalidade, que lhe custou um game em um momento crucial da final".

"Não ouvi palavrão algum", acrescentou Shriver.

Na primeira violação, quando Ramos viu Patrick Mouratoglou, o treinador de Williams, lhe dando um sinal, ele deveria ter feito uma advertência informal, informando a Williams que havia visto o treinador lhe passando instruções e pedindo que isso não acontecesse mais.

Mas Ramos em lugar disso escolheu aplicar uma punição direta.

A segunda punição foi aplicada depois que Williams quebrou uma raquete, ao perder o saque no quinto game do segundo set. A punição por danificar raquetes é automática, e custou a ela um ponto, por ser sua segunda violação na partida.

Mas Ramos poderia ter adotado uma abordagem mais ativa antes de aplicar a terceira punição contra Williams, por agressão verbal, alertando a tenista quanto ao risco que ela estava correndo se continuasse a reclamar e a fazer observações pessoais sobre a arbitragem. Williams aparentemente acreditava, incorretamente, que a primeira punição, por contato indevido com o treinador, havia sido rescindida depois que ela protestou a respeito. Mas um árbitro de cadeira não pode rescindir punições durante um jogo.

Ramos é um dos árbitros mais experientes do tênis. Ele já realizou como árbitro sua versão do "Golden Slam", o termo usado para designar um tenista que tenha vencido os quatro torneios do Grand Slam e conquistado uma medalha de ouro olímpica. Ele é o único juiz de cadeira em atividade a ter arbitrado as finais de simples masculinas dos quatro torneios do Grand Slam, e a final olímpica de 2012 entre Andy Murray e Roger Federer.

Embora Ramos tenha sido muito criticado na mídia social depois da partida e diversos dos tenistas mais famosos tenham criticado suas decisões, alguns dos dirigentes do tênis mundial o defenderam.

"Carlos é um dos principais árbitros mundiais de tênis desde a metade dos anos 90, e tem a reputação de ser firme mas justo na forma pela qual trata os jogadores", disse Mike Morrissey, antigo juiz de cadeira e ex-diretor de arbitragem na Federação Internacional de Tênis.

Katrina Adams, presidente da Associação de Tênis dos Estados Unidos, defendeu Williams em uma entrevista à ESPN no sábado.

"Eu diria que a noite de ontem foi infeliz", ela disse. "É preciso haver coerência, porque quando vemos o que as mulheres, no caso Serena, estão sentindo, é algo que vemos acontecer do lado dos homens o tempo todo. Eles reclamam com o juiz de cadeira o tempo todo, e coisa alguma acontece".

É altamente incomum que o presidente de uma federação, especialmente uma federação encarregada de um dos torneios do Grand Slam, critique a arbitragem de uma partida. Os comentários de Adams no domingo surgiram depois de ela divulgar um comunicado unilateralmente no sábado elogiando Williams pelo apoio a Osaka na cerimônia de premiação, mas ignorando os momentos tumultuados que a precederam. Adams deu a entender em entrevista à ESPN que haveria "conversações" sobre igualdade de gêneros e arbitragem, "na semana que vem". Ela sugeriu que deveria ter havido mais diálogo entre Ramos e Williams antes que ele impusesse a penalidade final por ofensa verbal.

Em comunicado divulgado no domingo à noite, Steve Simon, presidente-executivo da WTA, criticou a arbitragem de Ramos. "A WTA acredita que não deveria haver diferença nos padrões de tolerância quanto às emoções expressadas por homens vs. as emoções expressadas por mulheres, e tem o compromisso de trabalhar com o mundo do tênis para garantir que todos os jogadores tenham o mesmo tratamento. Não acreditamos que isso tenha acontecido [no sábado]".

Outros jogadores, entre os quais Murray, Venus Williams, Novak Djokovic, Rafael Nadal e Nick Kyrgios, se queixaram em quadra de punições aplicadas por Ramos.

No Aberto da França de 2016, Venus Williams contestou uma punição por comunicação indevida com o treinador, dizendo: "Tenho 36 anos. Nunca em minha vida recebi punição por contato com o treinador. Não, não faço isso".

No Aberto da França de 2017, em uma partida de quarta rodada entre Nadal e Roberto Batista Augt, Ramos puniu Nadal duas vezes por jogo lento, e a segunda punição custou um ponto ao jogador.

"Há árbitros que pressionam mais que outros, às vezes, e é preciso aceitar isso", disse Nadal depois da partida, que ele venceu.

O tenista acrescentou que "e digo isso com alguma tristeza, porque não quero ter problemas. Mas esse árbitro, em minha opinião, tenta de algum modo procurar falhas minhas, erros meus. É essa impressão que tenho".

Na mesma entrevista, Nadal disse, sobre Ramos, que "eu o respeito muito".

Os árbitros de cadeira em atividade em geral não têm autorização para conceder entrevistas, por conta das regras das tours de tênis. Ramos não falou publicamente sobre a partida do sábado, na qual Williams o chamou de "ladrão", pelas penalidades que impôs, e o acusou de sexismo, afirmando que foi tratada com mais severidade do que um jogador homem teria sido, em circunstâncias semelhantes.

"Já vi homens chamando outros árbitros de diversas coisas", ela disse, depois da partida. "Estou aqui lutando pelos direitos das mulheres e pela igualdade da mulher, esse tipo de coisa. Que eu o chame de 'ladrão' e isso me custe um game... para mim pareceu uma atitude sexista. Ele nunca tirou um game de um homem por tê-lo chamado de ladrão".

Mas Ramos não hesita em punir homens. Ele aplicou uma punição a Murray na Olimpíada de 2016 porque o tenista o acusou de "arbitragem estúpida".

"Não é uma questão sexista, no caso", disse Chris Evert, que esteve na primeira posição do ranking feminino de tênis por diversas vezes, quando era jogadora. "O histórico dele com os homens mostra isso".

Ainda que Ramos tenha apitado mais jogos masculinos em sua carreira, ele já arbitrou finais femininas em três torneios de Grand Slam - o Aberto da França em 2005, Wimbledon em 2008, e o Aberto dos Estados Unidos este ano. Ele já havia apitado semifinais femininas do Aberto dos Estados Unidos duas vezes, em 2014 e 2016. (Williams jogou em quatro dessas partidas.)

No sábado, Mouratoglou admitiu que estava sinalizando para Williams, ainda que ela diga não ter visto os sinais. Mouratoglou também disse que a regra atual, que proíbe instruções dos treinadores em torneios do Grand Slam (os treinadores podem orientar suas jogadoras em torneios da WTA Tour), era um portão para a "hipocrisia", porque interferência pelos treinadores é muito comum, apesar da norma. Em seu comunicado do domingo, a WTA afirmou que instruções pelos treinadores deveriam ser permitidas em todos os torneios de tênis.

Mas as autoridades do tênis - atuais e passadas, e em foro privado ou público - defenderam Ramos no domingo. Morrissey disse que as instruções de Mouratoglou eram tão evidentes que mereciam punição imediata.

Morrissey disse que, em sua opinião, comunicação clara do treinador com o tenista não deveria valer apenas uma advertência informal. "É tão raro que o árbitro consiga ter certeza sobre isso que as advertências informais deveriam ficar reservadas à maioria dos casos em que a comunicação não é clara", ele disse.

O australiano Richard Ings, outro antigo árbitro de cadeira, disse que Mouratoglou sinalizou duas vezes, "para garantir que Serena visse".

"Não havia como Carlos deixar que isso passasse", disse Ings. "Ele precisava deter a comunicação, e foi o que fez. Carlos foi brilhante, corajoso e calmo".

Quanto à agressão verbal, Morrissey disse que Ramos foi contido, e não imprudente.

"Não sei o que Carlos disse, mas não creio que eu fosse capaz de encontrar uma boa maneira de lembrá-la da potencial perda de um game como penalidade sem jogar lenha na fogueira", disse Morrissey. "Talvez houvesse maneira, mas se levarmos em conta o quanto ela estava zangada, encontrá-la não seria fácil".

Ele acrescentou que "ser chamado de ladrão não é uma acusação que qualquer árbitro de cadeira deva ignorar".

A acusação foi feita depois de Williams expressar longamente sua insatisfação. O regulamento do Grand Slam define agressão verbal como uma declaração sobre um árbitro que "dê a entender desonestidade, ou que seja derrogatória, insultuosa ou abusiva de outra maneira ".

Williams mesma disse que não havia passado por experiências negativas com Ramos nas partidas dela em que ele trabalhou anteriormente.

"De forma alguma", ela disse no sábado. "Ele sempre foi um grande árbitro".

Mas no calor do momento, ela disse a Ramos na quadra que ele "nunca mais" arbitraria uma de suas partidas. Os jogadores não têm poder para tomar esse tipo de decisão, ainda que o comando da tour tenha, no passado, afastado discretamente certos árbitros das partidas de tenistas com quem eles se desentenderam. Mas esses afastamentos - descritos como "férias" - não são permanentes.

Assim, Ramos e Williams, que disse que seu novo retorno às quadras está apenas começando, podem bem se encontrar de novo.

Tradução de Paulo Migliacci

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