Com dono americano, clube mais popular da França quer ser contraponto ao PSG

Após experiência conturbada no beisebol, McCourt busca sucesso no Olympique de Marselha

Rory Smith
Mônaco | The New York Times

Frank McCourt tinha chegado havia pouco tempo a um hotel de luxo em Mônaco e ouviu alguém batendo à porta. Um funcionário estava trazendo uma camisa da lavanderia. McCourt, que estava se arrumando depois de um voo noturno vindo dos Estados Unidos, pediu, do banheiro, que ele pendurasse a camisa no closet.

McCourt continuou a se arrumar. O empregado do hotel, no confortável silêncio cinco estrelas da suíte, pendurou a camisa no armário e se preparou para sair discretamente, sem ver McCourt. Mas não se conteve e, antes de sair, exclamou: "Allez L'O.M."

É um tipo de encontro muito comum na França, como McCourt veio a descobrir. Mesmo antes de concluir a tomada de controle do Olympique de Marselha, o clube mais popular da França, dono da torcida mais fervorosa do país, ele já sabia claramente o que estava em jogo.

Frank McCourt, proprietário do Olympique de Marselha, caminha e aplaude no estádio da equipe francesa
Frank McCourt, proprietário do Olympique de Marselha, no estádio da equipe francesa - Boris Horvart - 10.ago.18/AFP

Houve a ocasião em que ele foi a um casamento na Provença, por exemplo —não muito depois de vender o Los Angeles Dodgers (time de beisebol dos EUA), pondo fim a uma experiência que todos os envolvidos preferem esquecer—, e o esporte se tornou o tema da conversa. "Naquela região da França, isso queria dizer o Marselha", afirmou McCourt.

Em qualquer parte da França, na verdade. Quando McCourt estava negociando o acordo, foi apresentado a um "grande" torcedor do Marselha nascido em Amiens, 150 quilômetros ao norte de Paris e a centenas de quilômetros do Mediterrâneo.

McCourt e o torcedor se mantiveram em contato esporádico desde então, ainda que os dois tenham agendas bastante ocupadas: pouco depois de McCourt adquirir o Marselha, o torcedor em questão, Emmanuel Macron, se elegeu presidente da França.

E é isso que acontece com os torcedores do Marselha: eles estão em toda parte. É o tipo de torcida que McCourt diz preferir: intensa, ardente, empolgante. São torcedores parecidos com o que ele foi, antes de se tornar dono de clube, quando torcia pelas equipes de Boston —New England Patriots, Boston Celtics e outros.

E isso vale para o palácio presidencial: Macron não ofereceu conselhos a McCourt, mas sua torcida pelo clube não é uma afetação, ou uma simples pose política.

"Ele é torcedor de verdade", disse McCourt. "O O.M. é algo real, está no sangue". E o proprietário do clube prefere que as coisas sejam assim. 

"Seria terrível ter torcedores apáticos, torcedores que só aparecem quando o time ganha".

Os predecessores dele no controle do clube provavelmente diriam que essa paixão tem seus inconvenientes. Houve momentos do passado recente, uma era de decepção e decadência, em que as demandas dos torcedores no Stade Velodrome pareciam sufocar o time, em que o motim das arquibancadas era refletido pelo caos em campo —ou causado por ele.

McCourt não vê as coisas assim. Ele vê essa torcida, esse fogo, não como um fardo que veio do passado do Marselha, mas como a chave para seu futuro.

Na metade de 2016, quando Jacques-Henry Eyraud, um polido executivo de mídia francês, abordou McCourt para que ele investisse no Marselha (a ideia de comprar o clube de vez surgiu mais tarde), o que capturou a imaginação do empresário americano foi a "história real, os antecedentes reais, a paixão real" do clube.

Torcedor do Olympique de Marselha segura cachecol da equipe durante partida pelo Campeonato Francês
Torcedor do Olympique de Marselha durante partida pelo Campeonato Francês - Eric Gaillard - 2.set.18/Reuters

O Marselha tinha um estádio elegante e ultramoderno, renome internacional, uma torcida fanática e uma história rica, que culminou em um título da Champions League em 1993 (o Olympique de Marselha ainda é o único clube francês a ter conquistado o maior título do futebol interclubes).

McCourt via o Olympique de Marselha, ele disse, "como um dos últimos, se não o último, dos clubes de futebol de primeira linha europeus adquiríveis". McCourt definiu o Olympique de Marselha como "uma marca épica".

Mas observado de outra maneira, o clube podia ser visto como relíquia. O futebol mudou completamente, desde a última ocasião em que o Marselha esteve entre as potências do futebol europeu (ainda que isso tenha acontecido em um período no qual o clube sofreu as consequências de seu envolvimento em um escândalo de manipulação de resultados de partidas). 

O cenário mudou não só pelo influxo de quantias astronômicas investidas por oligarcas russos e fundos de investimento nacionais dos emirados do Golfo Pérsico, mas também com a globalização, a mídia social e a cultura das celebridades.

A história e o fervor local já não bastam para atrair espectadores, para gerar interesse, para tornar um time famoso. Os torcedores cada vez mais se interessam por indivíduos e não pelo coletivo. Mais e mais, o que importa são os astros, uma tendência que encontra seu melhor exemplo no Paris Saint-Germain (PSG), o mais amargo rival do Marselha.

Na capital francesa, os proprietários qatarianos do PSG transformaram um time medíocre em uma potência do futebol europeu, ao contratar —sem medir custos— alguns dos mais famosos nomes do esporte: especialmente, claro, ao transformar Neymar no jogador mais caro do planeta, e ao fazer de Kylian Mbappé seu acólito.

Quando McCourt adquiriu o Olympique de Marselha, ele prometeu que o clube em breve não só se provaria capaz de competir com a galáxia de astros do PSG, mas de superá-la.

A ideia parecia quixotesca, uma loucura romântica. Sem a injeção de centenas de milhões de euros para adquirir talentos, não estava claro de que maneira essa metamorfose poderia acontecer. A era dourada do Marselha havia ficado no passado. PSG e Mônaco —bancado pelo bilionário russo Dmitry —Rybolovlev eram os clubes do momento.

Mas o plano de McCourt jamais foi copiar os métodos deles. "Temos uma cultura de celebridades, alimentada pela mídia social, que cria essas números e atrai espectadores, mas o O.M. não é isso", ele disse. "Outros estão seguindo esse caminho, mas precisamos garantir que o O.M. seja o astro".

Ele ainda estava determinado a buscar reforços. Sob seu comando, o Marselha adquiriu jogadores do talento do atacante francês Dimitry Payet e do meio-campista holandês Kevin Strootman. Cinco jogadores do Marselha jogaram a final da Copa do Mundo, em julho, pelas seleções da França e da Croácia. "O maior total entre os clubes", disse McCourt, orgulhoso.

Mas o foco —o argumento de venda do Marselha— seria uma coisa que o PSG e o Mônaco não têm como equiparar: a torcida. Ainda que ele elogie o trabalho de Nasser al-Khelaifi na presidência do PSG, McCourt não vê o clube rival como obstáculo à sua ambição, e sim como um contraponto útil.

"O Marselha se posiciona muito naturalmente como o oposto de clubes como o PSG", ele disse. "Marselha não é uma cidade rica. Não é Paris. Nós, como clube, estamos muito atrás de equipes como o Real Madrid, Barcelona, os dois times de Manchester".

"Nosso projeto é atrair os torcedores da cidade, antes e acima de tudo, mas também torcedores de todo o mundo —as pessoas que torcem por Davi contra Golias. Nós somos o lado mais fraco", afirmou McCourt.

"As pessoas de Marselha enfrentam dificuldades. Batalhamos para superá-las, temos paixão, otimismo, um espírito generoso. E essa é uma história que 99,9% da humanidade conhece bem. Queremos ser o time dessas pessoas. Pode parecer só uma frase de marketing, porque todo time quer ser o time de todo mundo, o time do povo", ele afirmou. "Mas nem todo time pode sê-lo. Nem todo time tem isso em seu DNA. O O.M. tem".

É uma abordagem que pode funcionar: o Borussia Dortmund, especialmente, se posicionou como uma espécie de alternativa insurgente à hegemonia do Bayern na Bundesliga.

Saber se isso funcionará para o Marselha continua em aberto, mas os sinais iniciais foram encorajadores. Na primeira temporada de McCourt como proprietário, o clube terminou em quinto lugar na Ligue 1; havia terminado em 13º na temporada anterior.

Na temporada passada, o Marselha terminou o Campeonato Francês em quarto lugar, mas o mais importante é que, 25 anos depois de conquistar a Champions League, o clube chegou à final da Liga Europa, a primeira grande final europeia para a equipe desde 2004.

Pela primeira vez em um bom tempo, há uma sensação de otimismo no Stade Velodrome. McCourt reativou a divisão assistencial do Marselha, e espera transformar a área em torno do estádio em espaço cívico. Ele está construindo um novo centro de treinamento para as categorias de base da equipe perto do Velodrome, no que define como "o coração da cidade".

McCourt foi a Monte Carlo no primeiro domingo de setembro para assistir ao jogo entre o Marselha e o Mônaco. Milhares de torcedores de sua equipe fizeram a curta viagem ao longo da Riviera francesa e foram ao principado assistir ao jogo. Eles passaram as horas que antecederam a partida contemplando os iates ancorados em Port Hercule, ou lotando os bares e cafés de Port de Fontvieille.

Uma hora ou pouco mais antes do jogo, McCourt —com aquela camisa recém-passada— caminhava pela pista de atletismo que circunda o gramado do Stade Louis 2º. O percurso dele até o seu lugar o levou a passar diante da área ocupada pelos torcedores mais fiéis de seu clube. McCourt foi aplaudido calorosamente. Sorriu, acenou para a torcida e seguiu em frente.

No começo, essa empatia entre a torcida do Marselha e o proprietário americano do clube poderia ter parecido improvável. Afinal, sua única experiência anterior no esporte havia sido com o Dodgers. McCourt comprou o clube em 2004, e o retrospecto da equipe com ele como proprietário foi positivo —o Dodgers venceu três títulos da divisão oeste da Liga Nacional de beisebol americana.

Ele vendeu o clube em 2012 por US$ 2,1 bilhões (R$ 8,5 bilhões), um valor recorde, mas poucos torcedores têm lembranças felizes de sua passagem, Quando McCourt deixou Los Angeles, o Dodgers havia pedido concordata, e se tornou peça de disputa no divórcio nada amigável do ex-proprietário.

O comando das operações cotidianas do clube foi entregue a dirigentes da MLB, a liga de beisebol mais importante dos Estados Unidos. McCourt, que fez fortuna no ramo de imóveis, foi até acusado de usar recursos do clube para bancar seu estilo de vida (acusação que ele nega).

O Marselha, de sua parte, tem uma das torcidas mais complicadas da Europa, e os torcedores passaram anos protestando contra os proprietários anteriores. Os torcedores do Marselha formaram até um grupo radical de oposição chamado Les Dodger's —um prenúncio de dificuldades, aparentemente.

Que as dificuldades não tenham se concretizado se deve em parte aos resultados: vencer, como disse McCourt, "é o objetivo disso tudo".

Mas ele merece crédito por o Marselha ter melhorado tanto e tão rápido, o que McCourt atribui à sua experiência em Los Angeles.

"Sem a experiência dos Dodgers, ser o orientador de um clube como o O.M. teria sido desafiador demais", ele disse. "Sem aquela experiência, eu seria um proprietário menos bem-sucedido do que sou".

Los Angeles, ele disse, lhe ensinou que "o alinhamento é crucial".

"Demorou um pouco para conseguir isso no Dodgers, conseguir que todos —proprietário, presidente-executivo, diretor de esportes e treinador— trabalhassem unidos", disse McCourt. "Desta vez, não esperei tanto".

A experiência com o Dodgers também o convenceu de que, embora ele acredite que o controle familiar é "o melhor formato" para um clube, a gestão por uma família não o é. "Se houver um problema ——no meu caso foi um divórcio, o negócio enfrenta dificuldades", ele disse. No Marselha, Eyraud cuida do comando do clube no dia a dia.

Igualmente importantes são os modos de McCourt. Ao discutir o clube, ele seleciona cuidadosamente a linguagem que usa. Não se descreve como "dono" mas como "condutor". Ele usa sempre a abreviação O.M., em lugar de chamar o clube de Marselha ou de Olympique. Esforçou-se para compreender a mentalidade não só do clube mas da cidade —ricamente diversa e economicamente conturbada, orgulhosa e independente, elegante e bruta— que ele representa.

É um lugar em que McCourt se sente em casa. Ele vê na relação entre Marselha e Paris um eco da relação entre Boston e Nova York. Depois de dois anos, mesmo sem falar francês, McCourt considera o povo de Marselha não como um "eles" mas como um "nós".

"Tenho orgulho de me considerar marselhês", ele disse.

McCourt acredita que outras pessoas possam passar pela mesma conversão, e que mesmo na era da mídia social, da cultura das celebridades, as pessoas se deixarão atrair pelo real —das lavanderias dos hotéis ao palácio presidencial.

Tradução de Paulo Migliacci

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