Repúdio a Bolsonaro expõe participação de torcidas nas eleições

Apesar de muitas se dizerem neutras, organizadas fazem campanha por candidatos

Luiz Cosenzo
São Paulo

Seja apoiando candidatos próprios ou fazendo campanha aberta contra outros, as torcidas organizadas dos principais clubes do país entraram com força no debate eleitoral visando ao pleito do dia 7 de outubro.

A primeira manifestação mais enfática em relação às eleições partiu da Gaviões da Fiel, principal organizada corintiana, que na quinta-feira (20) divulgou nota em oposição à candidatura do deputado Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência da República.

“É importante deixar claro a incoerência que há em um Gavião apoiar um candidato que não apenas é favorável à ditadura militar, pela qual nascemos nos opondo, mas que ainda elogia e homenageia publicamente torturadores, que facilmente poderiam ter sido os algozes de nossos fundadores”, diz nota divulgada pela torcida corintiana.

A Gaviões da Fiel evoca seu passado de oposição à ditadura militar —no fim dos anos 1970, a organizada levou faixas para os estádios em defesa da anistia aos acusados de crimes políticos, por exemplo.
Em pouco tempo, a iniciativa gerou novas manifestações contra o candidato. A Torcida Jovem, principal organizada santista, Os Imbatíveis, do Vitória, e a Jovem, do Sport, também publicaram manifestos contra Bolsonaro.

O posicionamento foi bem recebido por alguns torcedores, que comemoraram nas redes sociais a oposição a Bolsonaro, mas também resultou em críticas de outros.

 
“Vimos as críticas como normais. Nossa página nas redes sociais é pública e recebemos tanto críticas como elogios. Não temos que agradar todo mundo, já que temos mais de 30 mil associados”, disse Richard, diretor de bandeira da Torcida Jovem, do Santos. 

Na próxima semana, a torcida Young Flu, do Fluminense, fará uma manifestação em relação às eleições presidenciais. Segundo Chico Guanabara, conselheiro da organizada, o grupo irá se opor ao candidato “que tem ideologia voltada para o lado fascista”.

“Nossos associados podem procurar um candidato liberal, que tenha políticas neoliberais e até que tenha ideário conservador, mas ele jamais, em hipótese alguma, pode se aliar ou pensar que a nossa diretoria e nossa torcida compactua com políticos e ideários fascistas”, afirmou, lembrando que a origem da torcida Young Flu está ligada a movimentos de esquerda.

Outras torcidas descartam apoiar ou repudiar candidatos a cargos majoritários. A Mancha Alvi Verde, principal organizada do Palmeiras —clube para o qual Jair Bolsonaro torce—, afirmou , em contato com a reportagem, que não irá indicar voto a nenhum candidato ao Executivo.

“Sou de esquerda, mas a Mancha é apartidária. Não temos compromisso com presidente, nem governador, nem partido nenhum”, disse André Guerra, presidente da maior organizada palmeirense.

Na terça-feira (25), porém, a Mancha Alvi Verde deixou de lado a neutralidade e se manifestou contrária ao candidato ao senado Major Olimpio (PSL), do mesmo partido de Bolsonaro. De acordo com a torcida, “manchistas e organizadas” não votam no candidato, que é autor da lei que tramita na Câmara dos Deputados que, além de proibir a criação de novas torcidas, extingue todas as já existentes.

A organizada palmeirense também mostra apoio a outras candidaturas no Legislativo. “Há alguns anos o Antonio Carlos Rodrigues (PR) [candidato a deputado federal] e o Julio Fuda (PR) [candidato a deputado estadual] estão em nossa entidade. Temos acordos apenas com o Legislativo”, afirma Guerra.

O discurso é idêntico ao de Henrique Gomes de Lima, o Baby, presidente da torcida Tricolor Independente, principal organizada são-paulina.

“Não somos nem esquerda e nem direita. Cada um tem o seu candidato, a sua crença e o seu ideal. Cada um vota em quem quer. Somos imparciais, neutros”, afirmou, completando em seguida: “Só estamos apoiando o [candidato a deputado estadual] Guilherme Ferraz (Podemos) porque é um são-paulino raiz. Estamos pedindo votos e o ajudando na campanha”, disse, admitindo que a organizada tenta eleger um deputado que defenda os seus interesses.

“Já vimos candidatos identificados com outros clubes, como Andrés Sanchez [deputado federal pelo PT e presidente do Corinthians], Marcelinho Carioca [ex-jogador corintiano candidato a deputado estadual pelo Podemos], Romário [senador pelo Podemos e candidato ao governo do Rio] e Danrlei [ex-jogador do Grêmio e deputado federal candidato à reeleição pelo PSD]. Nunca vimos um são-paulino. Vamos apoiá-lo.”

Em Minas Gerais, a Galoucura, torcida do Atlético-MG que ajudou o ex-jogador Marques (PTB) a se eleger deputado estadual em 2014, agora declara apoio a César Gordin  (PRP) para o Legislativo estadual. Já a Máfia Azul, organizada do Cruzeiro —clube ligado ao senador Zezé Perrella (MDB)—, trabalha pela eleição do senador Aécio Neves (PSDB) à Câmara dos Deputados e de Rodrigo Pacheco (DEM) para o Senado.
Ambas as torcidas, porém, se colocam como neutras na disputa presidencial.

No Rio de Janeiro, a polarização na disputa pelo Palácio do Planalto também fez com que as principais organizadas se mantivessem neutras nas eleições majoritárias.

“Nossa torcida tem pessoas que votam em diversos candidatos. Muitos votam no Haddad, outros no Bolsonaro e outros no Ciro. Para não criar uma guerra dentro da própria torcida decidimos não apoiar ninguém”, diz Alisson Galvão de Souza, o Dadá, presidente da Raça Rubro Negra, principal organizada do Flamengo.

Já para a Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro), a torcida apoia Waguinho do Emiliano (PRB), membro da torcida e vereador em Seropédica (RJ).

Um dos fundadores e presidente da Fúria Jovem, organizada do Botafogo, Luis Gustavo Noy também diz que a torcida não apoia candidatos a presidente para evitar conflitos com seus associados.

Para o Legislativo, curiosamente, o grupo apoia candidatos de partidos opostos no espectro político. Para deputado estadual, fazem campanha para Filippe Poubel, do PSL, partido de Bolsonaro. Para federal, o apoio vai para José Maria Rangel, do PT, que tem como candidato à Presidência Fernando Haddad. O que os aproxima é a agenda de apoio às torcidas organizadas.

A Força Jovem do Vasco, por sua vez, não oficializou apoio a nenhum candidato.

No Rio Grande do Sul, a Geral do Grêmio tem um candidato próprio a deputado estadual, o Gaúcho da Geral (PSD). O grupo diz que não declarará apoio a candidatos à Presidência, assim como a Guarda Popular, mais numerosa torcida do Internacional. Ela afirma que também não apoiará ninguém para o Legislativo.

Posição das torcidas organizadas na eleição

SP
Gaviões da Fiel (Corinthians)

Desaconselha voto a Jair Bolsonaro (PSL)

Mancha Alvi Verde (Palmeiras)
Desaconselha voto a Major Olimpio (PSL) a senador. Apoia Antonio Carlos Rodrigues (PR) a deputado federal e Julio Fuda (PR) a deputado estadual

Torcida Jovem (Santos)
Desaconselha voto a Jair Bolsonaro (PSL)

Independente (São Paulo)
Apoia Guilherme Ferraz (Podemos) a deputado estadual 

RJ
Fúria Jovem (Botafogo)

Apoia Filippe Poubel (PSL) a deputado estadual e José Maria Rangel (PT) a deputado federal

Young Flu (Fluminense)
Desaconselha voto a candidato “com ideários fascistas”

Raça Rubro Negra (Flamengo)
Apoia Waguinho do Emiliano (PRB) a deputado estadual

Força Jovem (Vasco)
Não oficializou apoios

MG
Galoucura (Atlético-MG)

Apoia César Gordin (PRP) a deputado estadual

Máfia Azul (Cruzeiro)
Apoia Aécio Neves (PSDB) a deputado federal e Rodrigo Pacheco (DEM) a senador

RS
Geral (Grêmio)

Apoia Gaúcho da Geral (PSD) a deputado estadual

Guarda Popular (Inter)
Não oficializou apoios

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