Campeã multicultural, França ainda sofre com agressões racistas no futebol

Ligas amadoras do país são palco de prática do racismo contra imigrantes

Elian Peltier
Estrasburgo | The New York Times

Quando a França ganhou a Copa do Mundo, em julho, milhões de torcedores tomaram as ruas e celebraram, enquanto jogadores como Paul Pogba e Kylian Mbappé eram recebidos no palácio presidencial. Como em 1998, quando uma seleção igualmente multicultural conquistou o primeiro título mundial da França, os comentaristas não demoraram a saudar o triunfo de uma França "nova" e mais unida, que se tornaria mais aberta à diversidade, pelo menos no esporte.

Mas Kerfalla Sissoko tinha pensamentos mais perturbadores em mente.

Um mês antes da Copa do Mundo, Sissoko, 25, futebolista amador nascido na Guiné, foi atacado brutalmente quando irrompeu uma briga em uma partida de uma liga amadora perto de Estrasburgo, no nordeste da França.

Kerfallo Sissoko, guineano agredido durante jogo de liga amadora da França
Kerfallo Sissoko, guineano agredido durante jogo de liga amadora da França - Pascal Mora/The New York Times

Sissoko e diversos colegas de time negros disseram mais tarde que os jogadores e torcedores rivais lhes dirigiram insultos racistas durante o jogo, mas o motivo da briga pouco lhe importava, enquanto corria para se salvar. Encurralado ao deixar o campo, Sissoko foi ameaçado por torcedores do time rival - um deles armado com uma faca - e surrado por jogadores e torcedores da equipe, que fraturaram seu malar.

Em seguida os dirigentes da liga o suspenderam por 10 partidas por ter provocado a briga.

"Senti tanto medo e tanta repulsa que achei que jamais voltaria a jogar futebol", disse Sissoko.

O que aconteceu com ele em maio, longe do reluzente Stade de France - onde os muitos jogadores negros da seleção francesa recentemente celebraram sua vitória na Copa - revelou o racismo e a discriminação que continuam a macular o futebol francês nas categorias amadoras, dizem críticos.

Uma pesquisa envolvendo 300 clubes amadores, divulgada em março pela Licra, uma organização de combate ao racismo, expôs 74 casos de racismo, mas os autores do estudo reconheceram que o problema era tão generalizado que episódios muitas vezes passavam sem denúncia.

Os incidentes que chegam ao noticiário - o ataque a Sissoko e seus colegas de time; uma agressão a três jogadores negros do lado de fora de uma casa noturna na Córsega em setembro; outro caso de insultos raciais por torcedores em St. Pierre d'Oleron, no oeste da França, em maio de 2017 - mostram que o problema é nacional e continua a existir.

É claro que o racismo no futebol não é só um problema francês. Insultos racistas contra jogadores negros continuam a ser rotina em muitas ligas europeias. Na Alemanha, a federação nacional de futebol está tentando conter as acusações de discriminação, depois que Mesut Ozil, cujos pais nasceram na Turquia, abandonou a seleção nacional, ao final da Copa do Mundo, declarando que "sou alemão quando ganhamos mas imigrante quando perdemos".

Mas na França, a vitória na Copa do Mundo por uma seleção de franceses multiculturais - brancos, negros, muçulmanos - não bastou para convencer muitos ativistas que se opõem à discriminação de que questões duradouras e profundamente contenciosas como raça e nacionalidade foram resolvidas.

"É muito complicado discutir a questão do racismo na sociedade francesa, porque na França fingimos ser cegos às cores", disse Lilian Thurman, zagueiro na seleção francesa que conquistou a Copa do Mundo de 1998, e que acompanhou de perto o caso de Sissoko.

Críticos como Thuram argumentam que embora a seleção e os clubes profissionais da França tenham realizado progressos em punir o racismo no futebol, as autoridades locais muitas vezes se recusam a reconhecer o problema ou enfrentá-lo de maneira efetiva quando surge. Os dirigentes da liga local na qual ocorreu o ataque a Sissoko, por exemplo, rejeitaram não só as acusações de agressão racial a ele e seus colegas como a premissa de que o motivo da violência fosse racial.

William Gasparini, professor de sociologia na Universidade de Estrasburgo que estuda a discriminação no esporte, disse que existia uma grande disparidade entre a forma pela qual as questões raciais são tratadas no esporte profissional e nos escalões mais baixos do futebol amador.

"Os clubes profissionais e as seleções nacionais podem estar mais conscientes das questões de racismo do que no passado, agora, mas esse é o palco, a parte visível", ele disse.

Gasparini acrescentou, se referindo a um código de silêncio parecido com o da máfia, que "no futebol amador da França existe uma omertà: os clubes relutam mais em lidar com racismo ou discriminação".

Para Thuram, isso pode ser explicado por uma falta de diversidade. Os conselhos da maioria das instituições futebolísticas da França continuam a ser formados quase que exclusivamente por homens brancos, ele disse.

Quatro dos 14 membros do comitê executivo da federação francesa de futebol são mulheres, e apenas um dos integrantes é não branco. A organização equivalente no futebol amador, que fiscaliza centenas de clubes e dezenas de ligas no país, é governada por um conselho cujos 12 integrantes são brancos.

Sissoko durante partida de liga amadora em Estrasburgo, meses depois de ter sido agredido em campo
Sissoko durante partida de liga amadora em Estrasburgo, meses depois de ter sido agredido em campo - Pascal Mora/The New York Times

Sissoko foi agredido no primeiro tempo de um jogo em Mackenheim, uma aldeia de 800 moradores. Sissoko e dois colegas negros do A.S. Benfield disseram que diversos torcedores e jogadores do time de Mackenheim os insultaram com epítetos raciais.

A partida foi se tornando mais tensa, e no final do primeiro tempo um desacordo em campo virou briga. Jogadores do time de Mackenheim agrediram os futebolistas negros, de acordo com espectadores e com os colegas de Sissoko. Moudi Laouali, 27, nascido no Níger e jogador do Benfeld, recebeu um soco na cara e depois foi espancado ao cair no chão.

Quando Sissoko buscou chegar à relativa segurança do vestiário, ele disse, os torcedores do time de Mackenheim que haviam invadido o campo bloquearam seu caminho. Ele disse que um deles, armado com uma faca, afirmou que "ainda não acabamos com você". Jogado no chão e chutado no rosto e peito, ele perdeu a consciência.

"Achei que morreria em campo, naquele dia", disse Sissoko.

Mas o árbitro decidiu que Sissoko, um meio-campista de 1,83 metro, havia provocado a briga, e lhe aplicou o primeiro cartão vermelho de sua carreira enquanto ele estava deitado inconsciente no gramado.

"Esse é o mundo do futebol para as pessoas não brancas: você precisa ser três vezes melhor que o adversário, ou brigar", disse Francis Mante, 39, árbitro e antigo futebolista amador na região de Estrasburgo. Mante, nascido em Gana, chegou à França em 1998.

"O esporte é chamado de o jogo bonito", ele disse, "mas transcorre em um mundo muito cruel".

Laouali e dois jogadores de Mackenheim receberam suspensão de 10 jogos, igual à de Sissoko. A liga também multou o time de Mackenheim em 500 euros (US$ 575) por não controlar seus torcedores, mas a decisão não considerou as acusações de racismo dos jogadores, limitando-se a afirmar que os jogadores negros afirmaram ter ouvido insultos racistas.

"Sempre que pessoas negras dizem ter enfrentado racismo, questionamos a legitimidade do que dizem, desqualificamos suas reivindicações", disse Thuram, hoje presidente da Fundação Lilian Thuram, uma organização de combate ao racismo.

Ele argumentou que uma forma semelhante de daltonismo havia sido exibida depois da vitória francesa na Copa do Mundo, quando muita gente se recusou a reconhecer que a diversidade da equipe era em parte responsável por seu sucesso.

"Nos Estados Unidos, as pessoas destacaram o fato de que havia muitos jogadores negros de origem africana na seleção francesa", disse Thuram. "Mas na França as pessoas dizem que não, são todos franceses".

O que transcorreu durante aquele violento jogo em maio, porém, em um campo aninhado entre plantações de milho e um bosque de pinheiros, chocou toda a comunidade do futebol no leste da França.

Com mais de 210 mil jogadores registrados, a Grande Liga do Leste é uma das maiores organizações francesas de futebol amador, e conhecida por sua diversidade étnica e religiosa - há times formados exclusivamente por jogadores turcos, espanhóis ou portugueses -, mas também por casos de violência e racismo.

Francis Mante, árbitro e ex-atleta amador, nasceu em Gana e também diz já ter sofrido insultos racistas enquanto apitava jogos de ligas amadoras
Francis Mante, árbitro e ex-atleta amador, nasceu em Gana e também diz já ter sofrido insultos racistas enquanto apitava jogos de ligas amadoras - Pascal Mora/The New York Times

Poucos dias antes que Sissoko fosse agredido, em maio, por exemplo, Mante, o árbitro nascido em Gana, estava a caminho de seu carro depois de uma partida entre dois pequenos clubes quando ouviu o presidente de um dos clubes dizer que ele devia "ir comer sua banana".

O presidente recebeu uma suspensão de 10 meses e o clube foi multado em 100 euros pelo insulto, mas se recusou a admitir que as palavras representavam racismo. "A federação pune aqueles que insultam juízes, mesmo que seja uma punição ridícula", disse Mante. "Mas se você é vítima de racismo como jogador, praticamente não tem chance".

Ainda que os dois jogadores do time de Mackenheim que foram suspensos pela briga em maio tenham reconhecido que a violência era inaceitável, negaram que seus atos tenham sido motivados por sentimentos xenófobos ou racistas, argumentando que tinham origem turca e com isso não podiam ser racistas para com os negros. Os dois se recusaram a permitir que seus nomes fossem citados, afirmando temer represálias.

"Sim, existe algum racismo em Mackenheim", disse Victor Gallin, 22, zagueiro do time da aldeia. "Mas nossos jogadores jamais foram racistas. Nunca".

Mas Cynan Keles, 18, jogador de origem turca do Benfeld, deu a entender que os jogadores negros de sua equipe foram tomados como alvo especificamente por conta da cor de sua pele.

"Pode usar o termo que preferir, mas os jogadores turcos do Mackenheim jamais teriam ousado atacar a nós, os outros turcos", ele disse.

Sissoko apresentou queixa à polícia em maio e os resultados da investigação devem ser anunciados até o final de outubro. Anne Hussenet, a procuradora encarregada do caso, disse que a polícia ainda não havia determinado o que precipitou a violência, que ela disse ter sido causada em parte pelas tensões durante o jogo mas, potencialmente, "por motivos de outra ordem".

Em Estrasburgo, a federação regional implementou medidas para combater a intolerância, entre as quais uma regra que determina que os capitães de times rivais precisam se encontrar socialmente antes de partidas que acarretem algum risco de violência ou tensão. Em jogos como esses, a federação também pode indicar delegados adicionais para apoiar o árbitro.

Sissoko está sofrendo de distúrbio de estresse pós-traumático, de acordo com um diagnóstico recente; ele disse que ainda tem pesadelos, meses depois da surra. Ele jogou pelo Benfeld pela primeira vez desde o incidente em um domingo recente, e disse que embora voltar ao campo fosse motivo de alegria, contato físico com os demais jogadores o preocupava. "Sinto que não estou 100% presente em campo, e logo que posso passar a bola, me livro dela", ele disse depois da partida.

Com a ajuda de organizações locais, ele espera colocar sua experiência em uso ao criar uma declaração contra o racismo e a intolerância que os clubes amadores da região terão de assinar.

"O que aconteceu não pode voltar a acontecer aqui", disse Sissoko. "Nunca".

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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