Skatista cego sonha em se tornar profissional e chegar à Paraolimpíada

David Courty segue ritual cuidadoso para fazer manobras sem ver quase nada

Adriano Vizoni
São Paulo

Foi com o dinheiro do primeiro salário que David Courty, 27, conseguiu comprar um skate. Fã da banda Charlie Brown Jr., ele sonha em ser um profissional da modalidade e ganhar a vida sobre as rodinhas. Seus ídolos do esporte são os brasileiros Sandro Dias e Pedro Barros, além das lendas californianas Christian Hosoi e Steve Caballero.

Nada de mais para um jovem nos dias de hoje, não fosse um detalhe: David Courty tem somente 10% de visão do olho esquerdo e é totalmente cego do direito. Ele sofre de uma doença chamada atrofia do nervo ótico, uma desconexão das ligações nervosas que unem o olho ao cérebro, que causa perda de visão e é irreversível.

“Antes eu enxergava melhor, mas como trata-se de uma doença degenerativa a falta de visão vai aumentando aos poucos até eu ficar totalmente cego. E eu ainda tenho miopia e astigmatismo, além de uma doença na visão que ainda não foi identificada”, afirma.

Apesar das limitações que a doença impõe, David é um jovem alegre, de sorriso largo e que se orgulha de ser “bastante feliz”. Antes do skate, praticava atletismo, mas não se adaptou bem aos treinamentos. Quando abandonou as pistas de corrida e se questionou sobre o que faria dali em diante.

“Eu tinha 20 anos e estava saindo da escola, ouvi o som das rodinhas do asfalto e percebi que era um garoto andando de skate na rua. Pensei que era aquilo que eu gostaria fazer pro resto da minha vida.”

David conseguiu um trabalho como jovem aprendiz, o que lhe garantiu a oportunidade de comprar seu primeiro skate.

Para conseguir andar sobre as rodinhas, ele segue um ritual cuidadoso. Procura se informar sobre a pista, se ela é feita de madeira ou concreto, e depois faz o reconhecimento de todo o local.

“Quando chego, a primeira coisa que faço é passar o pé para sentir a pista e suas bordas. Em seguida desço a rampa para perceber a altura e a transição, sigo passando a mão pelas curvaturas e novamente nas bordas para calcular a distância e a velocidade que preciso para conseguir fazer a manobra, e só então coloco o skate no pé”, conta.

David se orgulha de nunca ter quebrado nenhuma perna ou braço.

“Até hoje a única coisa que acontece comigo é que as vezes o ombro, o pulso ou o pé saem fora do lugar, mas aí eu vou lá e coloco de volta”, diz.

De personalidade forte, concentrado e responsável, quer uma oportunidade de estudar educação física para aprimorar sua técnica e ajudar outras pessoas a andarem de skate. “Mas ainda não tenho condições financeiras, preciso de uma bolsa”, afirma.

Nascido e criado no bairro de Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro, David pode ser encontrado dando aulas para crianças na Escolinha da Formiguinha, que fica próxima à pista do bairro.

O skatista sonha alto e, com a inclusão da modalidade na Olimpíada de Tóquio-2020, espera que um dia possa disputar a Paraolimpíada —o skate, no entanto, ainda não faz parte do programa paraolímpico.

Pretende ganhar o mundo sendo profissional da modalidade para mostrar que o esporte não tem apenas um tipo de atleta.

“Encaro o skate como a vida. É cair, levantar e continuar. Não deixar se abater. Quero evoluir não só no skate, mas como pessoa, quero mostrar que sou feliz e continuar minha batalha.”

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