Com 20 modalidades esportivas, internet supera TV em transmissões ao vivo

Só cinco esportes têm torneios exibidos com regularidade no Brasil na TV aberta ou fechada

Marcelo Laguna
São Paulo

​O torcedor brasileiro que se acostumou a assistir às principais competições de seus esportes favoritos pela televisão está sendo obrigado a mudar seus hábitos.

Em um movimento que reflete a alteração na forma de distribuição de conteúdo, não são poucas as modalidades que têm seus campeonatos transmitidos só na internet.

Atualmente, é possível acompanhar regularmente e ao vivo competições internacionais ou nacionais de 20 esportes olímpicos, incluindo o futebol, pela internet e de forma gratuita, em computadores ou smartphones.

Na TV aberta, a oferta se restringe a dois esportes: o futebol, com transmissão na TV Globo de campeonatos nacionais e na RedeTV! do Campeonato Inglês, e o basquete, com transmissão da Band do NBB, principal torneio masculino da modalidade no Brasil.

 
Mesmo se contabilizados os canais de TV paga, a oferta de transmissões regulares não supera cinco modalidades: vôlei, tênis e natação, além de futebol e basquete.

Não foram levadas em consideração no levantamento transmissões pontuais, como, por exemplo, as finais do Mundial de Canoagem Velocidade, transmitidas pelo SporTV.

A internet abre a possibilidade para que esportes historicamente sem espaço nas grades de programação, como pentatlo moderno ou badminton, sejam exibidos ao vivo. Mas não é só isso. Mesmo alguns torneios de futebol estão migrando para o streaming.

“Trata-se de uma realidade concreta e que deve se intensificar nos próximos anos. A tendência da migração desta mídia tradicional para plataformas na internet e em redes sociais está se dando de uma forma muito acelerada”, diz Anderson Gurgel, professor de marketing esportivo da Universidade Mackenzie.

O impasse na venda de direitos de transmissão de importantes competições do futebol internacional ajudou a popularizar o streaming entre os torcedores brasileiros.

Com o encerramento das atividades do canal Esporte Interativo pela Turner, algumas partidas da Liga dos Campeões da Europa —principal evento esportivo da emissora— estão sendo transmitidas no Facebook do canal. Outros jogos do torneio são exibidos nos canais TNT e Space, que pertencem à Turner.

“O Esporte Interativo fez essa mudança entendendo que é o caminho para o futuro das transmissões esportivas. Nós não fazemos apenas simulcast [espelhar a transmissão simultânea à da TV], como já existe no mercado brasileiro, mas também transmissões exclusivas para as plataformas digitais”, diz Fabio Medeiros, diretor de esportes da Turner.

Os fãs do português Cristiano Ronaldo também precisam recorrer à internet para acompanhar os seus jogos pela Juventus, já que nenhum canal nacional de TV aberta ou fechada transmite o Italiano.

“Quando ganhamos os direitos de transmissão [do Italiano], deixamos claro que queríamos lançar um serviço de streaming OTT [over the top, sem a participação de outros distribuidores] para garantir que o Italiano fosse visto pelo maior público possível”, diz Felix Alvarez-Garmon, vice-presidente sênior da IMG para o Brasil e América Latina.

A empresa lançou uma plataforma para exibir o Italiano na internet. As assinaturas custam R$ 35 (mensal) e R$ 232 (anual) para acompanhar todas as partidas. 

“Streaming é o caminho a ser seguido e há muito investimento sendo feito em conectividade pelas empresas de telecomunicações. O Facebook irá transmitir a Champions League e as emissoras tradicionais no Brasil também estão buscando alternativas OTT”, diz o executivo da IMG.

Até as empresas de mídia tradicional enxergam o streaming como uma ótima estratégia de negócios. 

Dona dos direitos do Campeonato Espanhol no Brasil, a Fox tem usado seu novo canal Premium, disponível em pacotes de TV por assinatura e na internet, para transmitir as partidas dos gigantes Barcelona e Real Madrid.

Esse serviço também pode ser adquirido sem a necessidade da pessoa assinar um plano com alguma operadora. A assinatura mensal custa R$ 35,90, feita diretamente na conta da Apple ou Google.

“O Premium nasceu dentro da TV por assinatura como canais à la carte. Para incrementar a oferta, colocamos o Espanhol. Isso faz com que os assinantes tenham um serviço melhor e que mais gente possa se interessar em assiná-lo”, afirma Michel Piestun, diretor geral da Fox Networks Group no Brasil.

A chegada destes serviços especiais, porém, foi criticada por alguns espectadores, acostumados a ver os jogos pelos canais esportivos que eles já assinavam, sem precisar pagar a mais por isso. 

“A resposta tem sido boa, tanto que ocorreu um aumento de assinaturas no Premium. Há algumas reações negativas do consumidor, mas já diminuíram muito”, pondera Piestun. “Consideramos o preço justo para uma das principais ligas de futebol do mundo, com alguns dos melhores jogadores do planeta”, diz Felix Alvarez-Garmon, da IMG.

A estratégia de cobrar pelo streaming também existe para plataformas criadas por algumas modalidades, como tênis, basquete, hipismo e natação.

A ATP (Associação dos Tenistas Profissionais), por exemplo, vende o plano mais barato de assinatura de sua plataforma de streaming por  US$ 14,99 (R$ 60,52) por mês. O risco é que ao cobrar pelo serviço, a modalidade acabe também afastando o público. 

“Claro que terá efeitos colaterais. A melhor comparação é com o nosso futebol, que passou de uma realidade com estádios antigos e ingressos baratos para novas arenas, com preços altos, o que elitizou as arquibancadas”, comparou o professor Anderson Gurgel.

O cardápio de opções não se resume apenas a competições internacionais. No ar desde março, a TV NSports já realizou mais de 100 transmissões esportivas de eventos nacionais de basquete, handebol, vôlei e tênis, além de partidas da Liga Futsal e competições universitárias.

“Estamos bem felizes com a audiência e número de cadastros dos primeiros 6 meses de operação. O número de usuários mostra que há uma demanda reprimida por transmissões ao vivo. O foco atual é ampliar o número de modalidades, ainda com transmissão gratuita nos primeiros anos”, diz Guilherme Figueiredo, diretor executivo da TV NSports, que segundo ele já conta com mais de 130 mil inscritos.

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