Descrição de chapéu The New York Times

Conheça os segredos de astro do futebol japonês para ainda jogar aos 51 anos

Kazuyoshi Miura, o Kazu, já atuou no Santos e ainda sonha em disputar a Copa do Mundo

Homem com shorts preto e blusa azul cumprimenta pessoas em beira de gramado
Kazuyoshi Miura, do Yokohama, cumprimenta fãs durante aquecimento antes de partida em Kanagawa, em 30 de setembro - Shiho Fukada/The New York Times
Jeré Longman
The New York Times

Um tufão estava chegando. No momento do pontapé inicial, a chuva chegou. Os espectadores eram poucos e estavam todos usando capas ou segurando guarda-chuvas.

Não havia grandes motivos para assistir a um jogo nada importante da segunda divisão do futebol japonês, no último dia de setembro, mas Junichi Onishi, 61, estava lá a trabalho. Ele cobre futebol há três décadas para o Sports Nippon, o mais antigo jornal esportivo japonês. E foi ao jogo para ficar de vigia.

"Para ver se Kazu entrará em campo", disse o jornalista.

Ele estava se referindo ao extravagante Kazuyoshi Miura, um atacante japonês pioneiro (conhecido no Brasil apenas como Kazu) que continua no futebol aos 51 anos. No ano passado, Miura se tornou o jogador mais velho a marcar um gol no futebol profissional —ao menos era isso que se acreditava—, com a idade de 50 anos e 14 dias. Ele aproveitou um rebote e comemorou com um passo de samba conhecido como Kazu Dance.

É claro que não se pode afirmar coisas como essa com absoluta certeza. Mesmo Kazu coloca a façanha em dúvida. "Tenho certeza de que existe alguém na quarta ou quinta divisão brasileira que marcou um gol aos 54 anos", ele disse.

Homem de azul em pé em gramado, ao lado de outros homens de azul curvados
Kazuyoshi Miura e seus colegas do Yokohama depois de perderem o jogo em Kanagawa - Shiho Fukada/The New York Times

O cabelo dele é grisalho, e seu tempo no gramado é mínimo; a dança com que celebra seus gols é vista raramente. Até o final de setembro, Miura só havia entrado em campo oito vezes, nas 35 primeiras partidas do Yokohama FC na J2 League, em todas elas vindo do banco. E não houve nem mesmo um gol para que ele pudesse sacudir os quadris como se o carnaval tivesse chegado.

"Aos 51 anos, você perde força, é complicado manter a forma", disse Edson Tavares, o treinador brasileiro do Yokohama. "Tenho de ser honesto com ele. Sempre que possível o coloco em campo".

Mesmo no banco, porém, Miura contribui, disse Tavares, em um clube pequeno e pouco acostumado a grandes expectativas. Ele treina fastidiosamente. E come... bem, todo mundo tem uma história favorita sobre a suposta forma de comer de Miura.

Ele se levanta às 5h para o café da manhã, preparado pelo seu nutricionista pessoal. Se o nível de ferro em seu organismo está baixo, ele vai a um restaurante para comer fígado. Depois dos treinos, mergulha as pernas em um banho de gelo e bebe, segundo algumas fontes, uma quantidade imensa de suco de laranja. Mas não é suco de laranja: é uma água carbonada especial vinda da Itália.

Quando tinha 30 e poucos anos, diz a revista esportiva japonesa Number, Miura era capaz de comer um bolo inteiro sozinho. Agora, se concentra em alta proteína e baixa gordura, filés e salada temperada com azeite de oliva. Um site de esportes chamado Spollup noticiou que ele se pesa e verifica o teor de gordura em seu corpo quatro ou cinco vezes por dia.

"O Japão precisa crescer a passos pequenos para se tornar altamente profissional", disse Tavares. "Kazu oferece um bom exemplo, estimulando as pessoas, motivando os jogadores".

O rosto dele continua a aparecer em outdoors, e o número de sua camisa, 11, é visto em todo tipo de produto, de uniformes de futebol a capas para celulares. A maioria das pessoas que o encontram o considera prestativo, despretensioso, sempre pronto a apertar as mãos dos torcedores e assinar autógrafos, ainda que o tempo que ele dedica à mídia possa ser tão difícil de prever quanto seus minutos em campo.

Miura é considerado por muitos como o primeiro superastro do futebol japonês. Ele jogou no Brasil pelo Santos, o antigo clube de Pelé, e pelo Genoa, na Itália, e Dínamo de Zagreb, na Croácia. Quando a J League foi criada, em 1993, Miura era uma das grandes atrações, com seu estilo vistoso de jogo e suas declarações francas. Ele foi escolhido como melhor jogador na primeira temporada da liga, e compareceu à cerimônia de premiação usando um terno vermelho.

"Sem Kazu, a liga jamais teria se tornado o sucesso que se tornou", diz Kenji Hattori, diretor de futebol do Yokohama.

Além do futebol, Miura representa a possibilidade de envelhecer produtivamente, em um país que, de acordo com o Fórum Econômico Mundial, só é superado por Hong Kong em expectativa de vida, com 83,8 anos.

"Não podemos parar e fechar a conta em uma determinada idade", disse Nobuko Kamiya, 68, um professor aposentado que vai ao estádio para assistir a todos os jogos do Yokohama, em casa e fora. "Kazu me deu a inspiração de continuar tentando; algo pode surgir para você".

Por que ele continua jogando aos 51 anos? Porque ama o futebol e evitou lesões graves, disse Miura ao jornal The Japan Times no ano passado. Alguns torcedores e repórteres acreditam que ele continua a ser espicaçado, duas décadas mais tarde, pela sua exclusão da primeira seleção japonesa a jogar uma Copa do Mundo, em 1998.

A esperança de estar na seleção talvez ainda o mova: no ano passado, quando a Fifa aprovou a expansão da Copa do Mundo a 48 seleções, Miura, que defendeu o Japão pela última vez quase duas décadas atrás, viu uma abertura. "É importante continuar sonhando", ele disse à Reuters. "E jogar uma Copa do Mundo continua a ser meu sonho".

Homem com colete laranja deitado no chão faz alongamento enquanto outras pessoas olham para a frente
Kazuyoshi Miura se alonga durante jogo do Yokohama - Shiho Fukada/The New York Times

​Kota Ishijima, tradutora que trabalhou com jogadores de beisebol japoneses, entre os quais Hideki Irabu, do New York Yankees, compara Miura a Ichiro Suzuki, que aos 44 anos trocou sua posição em campo por um cargo de dirigente no Seattle Mariners, um time da Major League Baseball dos Estados Unidos.

Jogadores como eles parecem estar buscando ininterruptamente aquilo que os japoneses chamam de "youshikibi", a beleza da forma, disse Ishijima. "É como Chuck Yeager caçando seus demônios além da barreira do som", ela disse, em referência ao famoso piloto de provas americano.

Há alguns meses, Miura viajou com uma amiga, a fotógrafa Goya Nagawa, para assistir ao Japão na Copa do Mundo da Rússia. Ele trocou emails com os jogadores da seleção nacional, contou Nagawa, e brincou que diria ao treinador japonês Akira Nishimo que "estava disponível se ele precisar, que aguentava jogar 15 minutos".

Ele está sempre disponível. Em 30 de setembro, quando o Yokohama começou perdendo para o Renofa Yamaguchi com um gol no primeiro minuto, e se esforçava futilmente para chegar ao empate, Miura se retirou para uma área encoberta atrás do banco de reservas. Estendeu uma esteira no chão e fez abdominais e flexões. Estava pronto para entrar em campo, mas não foi chamado, e o time perdeu por 3 a 2.

Depois da partida, Miura entrou em campo com os companheiros para agradecer a torcida, e depois desapareceu sob as arquibancadas. Era o meio da tarde. O tufão Trami estava chegando ao Japão. Um vento feroz estava a caminho. Alguns trens logo deixariam de operar.

"Por favor, vão cedo para casa", o alto-falante do estádio apelava aos torcedores.

Miura deixou o estádio pouco mais tarde, de boné e óculos escuros, sem dizer uma palavra. O jornalista Onishi teria de esperar pelo menos mais uma semana por uma chance de escrever sua reportagem.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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