Descrição de chapéu The New York Times

Depois de ser mãe, campeã olímpica de triatlo mira novos feitos na maratona

Americana Gwen Jorgensen muda de esporte e tentará nova medalha de ouro em 2020

Lindsay Crouse
Nova York | The New York Times

No ano passado, Gwen Jorgensen, a maior atleta do triatlo mundial, teve um bebê, deixou seu esporte e decidiu se tornar maratonista.

Em seguida, ela anunciou seu objetivo de conquistar o ouro na maratona olímpica de 2020, que viria quatro anos depois de ela conquistar o ouro olímpico no triatlo e apenas dois anos depois de ela ter passado a se dedicar em tempo integral às corridas.

Nenhuma mulher americana conquistou o ouro na maratona olímpica desde Joan Benoit Samuelson, em 1984, na primeira maratona olímpica feminina. Tampouco existem precedentes para o caminho que Jorgensen pretende seguir nessa transição, na qual enfrentará rivais que passaram décadas trabalhando em sua técnica.

Gwen Jorgensen após ganhar a medalha de ouro do triatlo no Rio
Gwen Jorgensen após ganhar a medalha de ouro do triatlo no Rio - Chang W. Lee - 20.ago.16/The New York Times

Mesmo chegar a uma olimpíada em uma modalidade completamente diferente seria extraordinário. Isso acontece, mas não com muita frequência.

"Sei que parece loucura", disse Jorgensen, 32, que disputou a Maratona de Chicago no domingo como primeiro grande teste para seu novo objetivo e ficou em 11º lugar. "Não creio que os outros devam acreditar que serei capaz disso antes que eu prove que é possível. Sei que será difícil, que não me classificarei para algumas provas e que em muitos casos não vou estar na posição de que gostaria. Mas vou apostar tudo que tenho nisso. Vou com tudo".

Ela está abordando a tarefa diferentemente de muitos outros atletas. As corridas de fundo de primeira linha são um esporte tradicionalmente monástico. Recompensam devoção constante a metas atléticas e a limitação de distrações. Pense nos leste-africanos que vivem e treinam no remoto vale do Rift, longe dos confortos e dos olhos inquisitivos do mundo moderno.

Jorgensen, que vive em Portland, no estado de Oregon, e treina com um grupo de corredores patrocinados pela Nike, está documentando sua transformação pessoal e atlética em um filme. Ela e sua família se colocam à disposição dos fãs em muitas plataformas de mídia social. No Instagram, o tempo que ela passa com o filho tem até um hashtag especial, #StanleySunday.

Gwen Jorgensen e seu marido, Patrick Lemieux, brincam com o filho, Stanley
Gwen Jorgensen e seu marido, Patrick Lemieux, brincam com o filho, Stanley - Amanda Lucier/The New York Times

Ela apresenta sua família em vídeos bem produzidos e editados com cuidado, assistidos no YouTube por milhares de pessoas. Eles mostram a comida que o marido dela prepara ("ovos cozidos perfeitos, por Pat Lemieux"); seus sucessos atléticos ("meu tempo de 15min15 no Husky Classic"); e seus revezes ("aprendendo a ser humilde").

O marido e empresário de Jorgensen, Pat Lemieux, disse que ela se inspirou na F-1 e na maneira pela qual os pilotos se conectam com os torcedores, e que queria expandir a um público muito maior o acesso ao seu perfil.

"Gwen claramente não está na liderança desse esporte, como acontecia no triatlo, e por isso estamos usando esses recursos para criar conexões e atrair novos torcedores", disse Lemieux, que tem um fotógrafo profissional sob contrato para acompanhar sua mulher.

Além de destacar o regime de treinamento de Jorgensen, os vídeos e fotos mostram como ela e Lemieux criaram uma parceria nada convencional, na qual ele se dedica a apoiar sua carreira e imagem pública, e a cuidar da casa e do filho do casal. O arranjo permite que Jorgensen se concentre quase exclusivamente em sua carreira como corredora, e no trabalho de ser Gwen Jorgensen.

Lemieux deixou seu trabalho como ciclista profissional cinco anos atrás para se dedicar em tempo integral à carreira de Jorgensen, antes do noivado do casal. (Eles se casaram em outubro de 2014.) Sua decisão sobre o ciclismo foi tomada depois que ela ficou na quarta colocação em uma prova internacional. Lemieux estava certo de que, se estivesse presente no dia da corrida para apoiá-la e ajudá-la, Jorgensen teria vencido.

Agora ele troca fraldas e aprendeu a cozinhar para a família. (Em minha visita à casa deles, algumas semanas atrás, ele estava preparando para a mulher uma combinação nutritiva de quinoa, legumes e carne de frango, o tipo de prato que faz você pensar com tristeza na barra de cereais que trouxe como almoço; Stanley comeu abacate em seu almoço).

Quando as famílias se reúnem para a hora de contar histórias, na comunidade onde eles vivem, Lemieux muitas vezes é o único homem presente. Ao falar dos objetivos da mulher, ele usa frequentemente a palavra "nós".

"Quando nos olhamos no espelho depois do Rio e perguntamos o que fazer a seguir, a maratona era a opção óbvia", ele disse, falando da Olimpíada do Rio de Janeiro em 2016.

"Mas não temos tanto tempo assim. Por isso era preciso priorizar. Precisávamos garantir que ela tivesse um ambiente ótimo para seu desempenho cotidiano, com um treinador que saiba como criar uma campeã, que ela recebesse seu tratamento cinco vezes por semana, que investíssemos nos recursos para garantir que ela possa manter o foco e ser a melhor atleta que puder o tempo todo".

Ao anunciar seu objetivo, em 2017, Jorgensen foi recebida com ceticismo considerável no mundo das corridas de fundo.

Lauren Fleshman, que fez parte da elite dos fundistas, aponta para o tom sexista de alguns dos comentários.

"Uma mulher audaciosa se verá julgada por sua aparência, seu desempenho como mãe, sua simpatia, com muito mais intensidade, depois de demonstrar publicamente sua competitividade e uma garra inflexível", disse Fleshman sobre Jorgensen esta semana.

A ascensão de Jorgensen ao topo do mundo do triatlo foi tanto rápida quanto lenta. Em 2010, ela trabalhava de 80 a 90 horas por semana, em contabilidade tributária na Ernst & Young.

A USA Thriatlon, a federação americana do esporte, queria reabastecer seu pool de talentos, depois do desempenho morno da equipe do país na Olimpíada de 2008, e a procurou, recordando seu desempenho nas corridas de fundo e como nadadora, na Universidade do Wisconsin.

Ela nunca tinha pedalado uma bicicleta de estrada, antes de começar no esporte, e em sua primeira grande prova de triatlo, em 2012, terminou a etapa de ciclismo com uma volta de desvantagem. Quatro anos depois, ela conquistou o ouro olímpico no Rio. Ao longo do caminho, registrou a mais longa sequência de vitória da história do triatlo: dois anos inteiros sem derrotas, com duas qualificações para olimpíadas e dois títulos mundiais.

No pico de sua carreira, ela decidiu que havia realizado todas as suas ambições no triatlo, e que corridas eram uma paixão especial para ela.

"Eu odiava nadar todos os dias, e não havia outro lugar a que eu quisesse ir", ela disse. "Queria assumir um grande risco".

A partir da esquerda, Amy Cragg, Shalane Flanagan, Colleen Quigley, Kate Grace, Marielle Hall e Gwen Jorgensen, que treinam juntas no Oregon
A partir da esquerda, Amy Cragg, Shalane Flanagan, Colleen Quigley, Kate Grace, Marielle Hall e Gwen Jorgensen, que treinam juntas - Amanda Lucier/The New York Times

Como triatleta, ela jamais corria mais de 56 quilômetros por semana. Jorgensen iniciou há menos de um ano seu treinamento em período integral como maratonista, e os atletas de elite costumam correr 200 quilômetros semanais, para isso.

Ela se tornou parte do Bowerman Track Club, da Nike, treinado por Jerry Schumacher, que, como técnico da equipe masculina de corrida da Universidade do Wisconsin, facilitou a transição de Jorgensen da natação universitária para as provas de corrida.

Ela treina com duas das melhores maratonistas americanas de todos os tempos: Shalane Flanagan, atual campeã da Maratona de Nova York, e Amy Cragg, medalha de bronze no campeonato mundial da modalidade.

"Quando as coisas ficam difíceis, lembro que cada uma dessas pessoas melhorou muito desde o inicio do programa", disse Jorgensen.

Ela é a única atleta do grupo que tem um filho pequeno. Correu e treinou durante toda a gestação, e pedalou até no dia de seu parto, em agosto do ano passado. Jorgensen deixou de correr por sete semanas depois de ter o bebê, mas logo se sentiu pronta para recomeçar, com séries de corridas de 20 minutos, intercaladas por caminhadas.

Muitas mulheres que têm filhos foram maratonistas de primeira linha, entre as quais a americana Kara Goucher, a britânica Paula Radcliffe e a queniana Mary Keitany. Ainda assim, ajustes são necessários.

Porque Jorgensen tinha de se levantar na metade da noite para alimentar o bebê, tentou alinhar seus horários de sono com os dele. E enquanto estava amamentando, nas semanas posteriores ao parto, não podia estar longe do menino por mais de duas ou três horas de cada vez.

Menos de seis meses depois do nascimento de Stanley, ela marcou seu melhor tempo nos 5.000 metros, ainda que não competisse nessa distância havia nove anos. No mês seguinte, venceu os 10.000 metros no torneio Stanford Invitational.

"Eu quis ser clara quanto ao que desejo porque preciso me cobrar", disse Jorgensen. "Isso é o que me faz levantar e treinar. Todos deveríamos estabelecer grandes metas, e sair atrás delas".

Tradução de Paulo Migliacci

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