Descrição de chapéu Copa do Brasil

Para idealizador do VAR no país, árbitro da final da Copa do Brasil não errou

Manoel Serapião diz que projeto original da CBF não teria revisão de lances interpretativos

Alex Sabino Luiz Cosenzo
São Paulo

Idealizador da implantação do VAR (árbitro assistente de vídeo) no futebol brasileiro, Manoel Serapião Filho afirma Wagner do Nascimento Magalhães, juiz da final da Copa do Brasil, não errou ao rever sua decisão em dois lances do jogo entre Corinthians e Cruzeiro, realizado nesta quarta-feira (17), no Itaquerão. 

Para ele, a marcação de um pênalti contra o time mineiro e a anulação do que seria o segundo gol corintiano foram jogadas “interpretativas” e, portanto, passíveis de revisão.

“Não se trata de erro. O árbitro tem o direito de analisar. O conteúdo do lance é uma avaliação técnica de cada árbitro”, afirma Serapião à Folha.

No início do segundo tempo, Wagner do Nascimento Magalhães inicialmente não viu falta dentro da área do meia-atacante cruzeirense Thiago Neves sobre o volante corintiano Ralf. A jogada prosseguiu até Emerson Sheik ser derrubado na lateral de campo.

Neste momento, Magalhães foi chamado por Wilton Pereira Sampaio, responsável pela arbitragem de vídeo da partida, para rever o lance no monitor. Dois minutos depois, voltou atrás e marcou pênalti, que foi convertido por Jadson. Na sequência, ele anulou um gol de Pedrinho por causa de uma falta cometida anteriormente por Jadson sobre o zagueiro cruzeirense Dedé.
 

Com os braços erguidos para cima, jogadores do Cruzeiro comemoram a conquista do título da Copa do Brasil
Jogadores do Cruzeiro comemoram a conquista do título da Copa do Brasil - Leonardo Benassatto-18.out.18/Reuters

O árbitro de campo também foi avisado sobre uma suposta infração por Sampaio e, após analisar no monitor, anulou o lance.As duas equipes reclamaram das marcações. O Cruzeiro venceu por 2 a 1 e conquistou o título. O time mineiro precisava empatar para faturar o hexa do torneio, enquanto o Corinthians necessitava ganhar por pelo menos um gol de diferença para decidir o título nos pênaltis.

“O Corinthians não votou contra o VAR, votou contra a situação. Tanto é que hoje muita gente está falando que foi, que não foi [pênalti e falta]... se tem o VAR para interpretação, não é para ter”, reclamou o presidente do Corinthians, Andrés Sanchez,  citando o congresso técnico do Campeonato Brasileiro, realizado pela CBF em fevereiro.

Além da equipe alvinegra, os outros times que votaram contra a implementação do árbitro de vídeo na elite do futebol nacional foram América-MG, Atlético-PR Ceará, Cruzeiro, Fluminense, Paraná, Santos, Sport, Vasco e Vitória. 

O principal motivo citado pelos clubes foi o valor: cerca de R$ 1 milhão por ano, que seria custeado por eles. Assim, a tecnologia estreou em uma competição nacional nas quartas de final da Copa do Brasil. O custo da operação —R$ 50 mil por jogo, ou R$ 700 mil durante o torneio todo— foi pago pela CBF.

As interpretações dos árbitros mesmo com a ajuda do vídeo têm causado polêmicas porque o VAR, na teoria, foi adotado para acabar com lances duvidosos. Não é isso o que tem acontecido.

No projeto original, elaborado por Serapião Filho, lances considerados interpretativos, como marcação de pênaltis e faltas, não poderiam ser revistos. Apenas lances indiscutíveis, como impedimento ou se a bola entrou ou não.

“No protocolo original não existia essa possibilidade [de revisar jogadas interpretativas]. Nosso projeto não tinha monitor ao lado do campo. Mas no momento em que a Copa do Mundo colocou o monitor e também teve lances de interpretação, não poderíamos ficar na contramão”, afirma Serapião Filho. Ele também atua como supervisor de árbitro de vídeo para treinamento da CBF. 

No Mundial da Rússia foram utilizadas 35 câmeras (33 na fase de grupos), enquanto no Brasil são de 14 a 16. Segundo a CBF, esse número é suficiente e atende ao protocolo definido pela Ifab (International Football Association Board), órgão que regulamenta as regras do futebol.
 

Na final do Mundial, o argentino Néstor Pitana marcou pênalti para a França quando a partida contra a Croácia estava empatada em 1 a 1. Ele usou a ajuda do VAR para ver toque de mão de Perisic na área. A marcação também causou controvérsia.

Wilton Pereira Sampaio foi o representante brasileiro na arbitragem de vídeo na Rússia. Ele também foi escalado para a mesma função no Mundial de Clubes, em dezembro, nos Emirados Árabes.

“Eu não vou aguentar o VAR. Os dois momentos [da final da Copa do Brasil] foram terríveis. Ficar esperando dois minutos para saber se foi ou não é demais”, disse Mano Menezes, técnico do Cruzeiro.

Sergio Correa, coordenador do VAR no Brasil, afirmou que a CBF não pretende se pronunciar sobre os lances da decisão da Copa do Brasil.

“O Serapião é o autor do projeto original do VAR. Ele sabe melhor do que ninguém o que era previsto no início”, respondeu, sobre a ideia de não incluir lances interpretativos na revisão por vídeo.

Wagner do Nascimento Magalhães disse estar proibido pela comissão de arbitragem de fazer qualquer comentário sobre a partida desta quarta.

Como funciona o VAR (árbitro de vídeo)
O VAR avalia todos os lances durante o jogo?
Ele assiste ao jogo na íntegra e avalia pênaltis marcados ou não marcados, impedimentos, lances de cartão vermelho direto aplicados ou não aplicados e casos de identificação errada do atleta punido com cartão

O árbitro do campo pode rever o lance no monitor? 
A Fifa recomenda que apenas lances de interpretação sejam revistos pelo árbitro no monitor, por exemplo pênaltis e, quando há uma mão na bola, se ela foi de forma intencional ou não. Em lances não interpretativos não é necessário, como para determinar se a bola saiu ou não de campo ou em confusão de identidade de jogadores

De quem é a decisão final, do árbitro do campo ou do auxiliar de vídeo?

Sempre do árbitro de campo. Para lances interpretativos, o auxiliar de vídeo informa sua opinião, e o árbitro de campo toma a decisão, podendo consultar ou não o monitor

O árbitro pode mudar a finalidade de um pedido de VAR?

Sim, ao consultar o VAR pode haver mudança da finalidade. Por exemplo: se em uma jogada de disputa dentro da área, antes do impedimento houver um pênalti, mas só o impedimento tiver sido marcado originalmente, o assistente de vídeo pode apontar que houve um pênalti e ele será cobrado normalmente

Até quando o árbitro pode mudar uma marcação de campo por decisão do VAR? 

Depende do lance. Nos casos de pênalti ou de infrações que resultem em gol, a revisão precisa acontecer antes de a bola ser recolada em jogo após a interrupção. Nos casos de erro de identificação de jogador com cartão vermelho ou amarelo, a revisão pode acontecer a qualquer momento

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