'Hoje a Libertadores é mamão com açúcar', diz Renato Gaúcho

Para técnico do Grêmio, jogar o torneio é mais fácil que nos anos 1980 e 1990

Alex Sabino Luiz Cosenzo
São Paulo

O roupeiro passa pelo técnico do Grêmio, Renato Gaúcho, 56, e deixa um tênis para ser usado depois. 

“O chapéu foi uma honra”, murmura o funcionário, antes de ir embora. O treinador aponta para ele com a cabeça e faz expressão de quem está acostumado com aquilo.

“Fizemos um jogo da comissão técnica. Ele [o roupeiro] foi brincar comigo no dois toques... Levou um chapéu.”

Em meados dos anos 1980, quando era astro do Flamengo, Renato ensaiou pedido para ser chamado de Renato Carioca. A ideia não tinha como vingar. Ele está para sempre associado ao Grêmio.

Renato Gaúcho completou dois anos no comando do Grêmio em setembro
Renato Gaúcho completou dois anos no comando do Grêmio em setembro - Lucas Uebel/Grêmio/Divulgação

Sua residência ainda fica no Rio (tanto que em Porto Alegre mora há dois anos em um hotel), mas não há como tirar o “gaúcho” do nome.

Ele se sente em casa no Grêmio. O que diz, é lei. Não apenas pela história que construiu como jogador, herói do título mundial de 1983, mas pelo que fez a partir de 2016 como técnico. Foi campeão gaúcho, da Copa do Brasil, da Libertadores e da Recopa.

Faltou o Mundial. No ano passado, foi derrotado por 1 a 0 na final pelo Real Madrid.

“[Neste ano] eu, com meu elenco completo, faço frente ao Real”, promete. 

 

Antes, tem de levantar de novo o troféu continental. Nesta terça (23), às 21h45, faz o jogo de ida da semifinal contra o River Plate num torneio que Renato reconhece ser complicado, mas sem a dificuldade existente quando ele era ponta direita do clube gaúcho.

 

Se o Grêmio passar pelo River só fará o segundo jogo da final em casa se pegar o Boca Juniors. Isso faz diferença?

Muita. É sempre bom decidir em casa, especialmente contra argentino. Tanto para nós quanto para o Palmeiras [a semi], não será fácil. Apesar de eu achar que o River tem time melhor que o do Boca.

A Libertadores é mais tranquila hoje do que quando você era jogador?

Tinha de ser muito homem para jogar Libertadores na minha época. Não tinha VAR [árbitro assistente de vídeo]. Não tinha árbitro atrás do gol. Era um canal de TV que passava os jogos e não havia antidoping.

Você enfrentou muito marcador babando?

Babando literalmente, comendo grama, sacaneando. Hoje a Libertadores, comparada com a minha época, é mamão com açúcar. 

Vendo o Real Madrid atual, o Grêmio teria mais chances de vencer?

Precisamos ganhar primeiro a Libertadores mas eu, com o meu elenco completo, faço frente ao Real Madrid.

Aborrecem as críticas de que o Grêmio foi muito defensivo na final do Mundial?

É muito fácil [falar]. Eu concordo que o Grêmio foi mal, mas não é que o time quis jogar daquela forma. Não tinha as peças. Nossos volantes [Arthur e Maicon] não estavam e eles faziam o time jogar. O Real era o melhor time do mundo, mas pergunto: o que o melhor time do mundo fez contra a gente?

Um gol de falta que a bola passou no meio da barreira.

Se o Grêmio ganhar a Libertadores de novo, eles vão ter muito trabalho com a gente. [Na final de 2017] eu olhava pra o lado, enquanto estava 0 a 0, e via o Zidane [então técnico do Real] coçar a careca. Com aquilo tudo no time dele. Pensei: se ele está coçando a careca, se estivesse no meu lugar daria um tiro na cabeça.

Na carreira de técnico você pode conseguir as coisas que lhe escaparam como jogador, como ter participação importante em uma Copa do Mundo? [Renato foi ao torneio de 1990, mas jogou apenas quatro minutos]

Um técnico que diz não querer a seleção está mentindo. Quando? Não sei. Hoje a seleção está muito bem servida com o Tite. Eu tenho de continuar fazendo o meu trabalho. Meu sonho é ser campeão do mundo, coisa que não fui pela seleção. Eu confio no meu trabalho. Minha hora vai chegar.

Para alguém que jogou muita bola, é difícil dirigir alguém que não é tão bom assim?

É muito difícil. No início da carreira, o Zico me falou: “não esquenta a cabeça. Não queira achar que o jogador atual vai fazer o que a nossa geração fazia”. Eu tenho essa conversa com meu grupo quase todos os dias. Digo a eles que na minha época cada equipe tinha quatro ou cinco craques. 

Mas jogadores gostam dessa conversa?

Sou realista. Falo para eles: “muitos de vocês não viram a minha geração. Mas seus pais viram. Perguntem para eles.” Eles se defendem dizendo que o jogo não tinha tanta velocidade. Tinha, sim. É que a gente fazia a bola correr. Hoje, muitos jogadores correm mais que a bola. 

Renato Gaúcho conversa com Douglas durante jogo do Grêmio contra o Fluminense
Renato Gaúcho conversa com Douglas durante jogo do Grêmio contra o Fluminense - Sergio Moraes - 29.set.18/Reuters

Os jogadores de hoje dão menos trabalho?

Eles podem me dar trabalho durante a semana, desde que deem trabalho para o adversário no final de semana. Na minha época fazia isso ou aquilo. Mas era o primeiro a chegar no treino e um dos últimos a sair. Chegava no jogo, falava: “presente!” Digo aos jogadores que se eles se garantirem [em campo], não tenho nada a ver com a vida deles. Se não se garantirem, vão ver o jogo no banco. 

Mas está mais difícil?

Por incrível que pareça, está difícil segurar. A minha geração era mais consciente. Muitos falavam que iam fazer, faziam, mas no jogo se garantiam. Eu falo para os jogadores: “quer dormir às 4h? Não tem problema. O treino é às 9h.” Do portão para fora, eu não cuido da vida de ninguém. 

Há nova terminologia que foi batizada de “tatiquês”...

O que é isso?

Expressões como “último terço”, “triângulo com base alta”, essas coisas.

É a pessoa querer inventar uma palavra diferente que é a mesma coisa de algo do passado. Não adianta falar bonito e não entender nada. Meu amigo, futebol é resultado. Qualquer um pode falar bonito. Mas você entende mesmo de futebol? Faz teu time ganhar, então.

Te dá prazer causar polêmica? Como dizer que jogou mais que o Cristiano Ronaldo.

Não estou preocupado com o que vão falar. Muita gente não me viu jogar. E muita gente me viu jogar com quatro meses de salários atrasados. Mesmo assim, por onde passei fui campeão com jogadores [de nível] muito abaixo dos do Real Madrid. Adoro o Cristiano Ronaldo. Acho que ele joga pra caralho. Mas vamos fazer uma troca. Ele vem jogar nos clubes que eu joguei no Brasil, com salários atrasados e disputando um jogo a cada três dias. Eu vou para o Real Madrid para jogar com o que ele tinha do lado. 

Renato Gaúcho reúne jogadores durante treino do Fluminense, em 1995, e pede união apesar dos salários atrasados
Renato Gaúcho reúne jogadores durante treino do Fluminense, em 1995, e pede união apesar dos salários atrasados - Patricia Santos - 7.dez.1995/Folhapress

Essa discussão não rendeu tanto quanto o debate sobre técnicos que estudaram e os que não estudaram.

Serviu o chapéu para esses caras? Não tenho nada contra estudar. Mas não vem falar que o cara passa uma semana na Europa, volta e diz que foi estudar. Estudar o que em uma semana? Na cabeça de alguns, o cara foi lá e voltou gênio. Nunca fui para a Europa estudar. Em dois anos, ajudei o Grêmio a ganhar quatro títulos. 

Você citou várias vezes a expressão “se garantir”. Isso resume sua carreira?

Sim. Um ou outro diz: “você saía à noite”. Sim, saía. Mas me garantia. Eu, não. A minha geração. Os caras chegavam em campo e se garantiam. Se meus jogadores quiserem fazer isso, não proíbo. Mas no dia do jogo, têm de se garantir.

Raio-x

Renato Gaúcho, 56
Como jogador, fez parte da seleção brasileira por 10 anos. Ganhou a Copa América de 1989 e foi chamado para o Mundial de 1990. Revelado pelo Grêmio, foi o principal nome das conquistas da Libertadores e do Mundial de 1983. Foi para o Flamengo em 1987 e estabeleceu residência no Rio, onde atuou também por Botafogo e Fluminense. Na Europa, teve passagem pela Roma (ITA). É técnico desde 2000 e passou por Fluminense, Vasco e Grêmio, entre outros

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.