Descrição de chapéu The New York Times

Com domínio de veteranos na elite, tênis tem ensaio de renovação

Topo do ranking segue com os experientes, mas jovens já incomodam em torneios grandes

Christopher Clarey
Nova York

A temporada oficial do tênis terminou com alegria e raiva mal disfarçada, na cidade de Lille, norte da França, domingo passado.

Enquanto Marin Cilic e seus colegas croatas celebravam a vitória decisiva de seu país por 3 a 1 na Copa Davis, o tenista francês Nicolas Mahut não hesitou em dizer exatamente o que pensava a David Haggerty, presidente da Federação Internacional de Tênis, ao receber seu prêmio pelo segundo lugar. Mahut continua zangado com a decisão de mudar radicalmente o formato da competição de tênis por equipes no ano que vem.

Essas emoções seriamente contraditórias representaram um final apropriado para uma temporada na qual o tênis teve muito a celebrar (novas estrelas como Naomi Osaka, astros duradouros como Roger Federer e Serena Williams), mas também a lamentar, por conta do fracasso repetido das organizações que comandam o esporte quanto a encontrar terreno comum.

Zeverev e Djokovic conversam após a final do ATP Finals.
Zeverev e Djokovic após a final do ATP Finals. - Glyn KIRK-19.nov.2018/AFP

Os líderes do esporte precisam fazer melhor, e rápido, em um cenário mundial brutalmente competitivo para o entretenimento, onde apenas os eventos mais fortes conseguem deixar alguma marca.

O tênis masculino não teve um 2018 de alta potência. Andy Murray, que fechou a temporada de 2016 no primeiro posto de ranking, jogou apenas algumas partidas, enquanto batalhava para se recuperar de uma cirurgia na bacia. Juan Martín del Potro, um tenista frequentemente lesionado, teve sua temporada mais bem sucedida em nove anos, mas terminou quebrando a rótula do joelho direito em Xangai, em outubro.

Rafael Nadal, 32, perdeu partes importantes da temporada, com diversas lesões, e teve de abandonar o Aberto da Austrália e o Aberto dos Estados Unidos ao se lesionar durante jogos. Mas ainda assim venceu cinco dos nove torneios que disputou, entre os quais o Aberto da França, pela 11ª e provavelmente não última vez.

No final, o topo do ranking parecia um retorno ao passado. Novak Djokovic, 31, terminou na liderança depois de um segundo semestre de retomada, no qual ele venceu em Wimbledon e no Aberto dos Estados Unidos. Nadal ficou com o segundo posto e Federer, 37, com o terceiro, a despeito de uma vez mais ter ficado de fora dos torneios em quadra de saibro.

Esses três duradouros campeões, que de novo ficaram com os troféus do Grand Slam em 2018, também estão nos três postos mais altos do ranking desde pelo menos 2007, e terminaram o ano exatamente nessa mesma ordem já em 2011, por exemplo.

"O que me espanta é que eles tenham tido tanto sucesso em uma era de competição dura como essa, na qual os profissionalismo do tênis avançou para patamares que nunca havíamos visto", disse Darren Cahill, veterano treinador e analista. "Muito disso se deve ao dinheiro que existe no esporte agora, que permite que todo mundo monte uma boa equipe, em todas as áreas; mas mesmo assim, esses três caras continuaram capazes de dominar".

Em uma pesquisa do The New York Times este mês com jogadores da Associação de Tênis Profissional (ATP), treinadores e comentaristas respeitados, Djokovic, Nadal e Federer dominaram a votação sobre os melhores do esporte. O mais notável é que os três terminaram em primeiro, segundo e terceiro lugares na categoria movimento, ainda que todos tenham mais de 30 anos.

"Isso é um tributo à ênfase que eles atribuem a cuidar de seu principal ativo, seus corpos", disse Cahill. "Se você observar os três, eles não realizaram muitas mudanças em suas equipes de condicionamento físico e treinamento de força, ao longo de suas carreiras. Tiveram muita estabilidade".

Sete dos tenistas do Top 10 têm mais de 30 anos, entre os quais o sul-africano Kevin Anderson, 32, e o americano John Isner, 33, que entraram para o grupo de elite do tênis pela primeira vez este ano. Kei Nishikori, um dos tenistas mais habilidosos do esporte, também se recuperou de uma lesão séria no punho e fechou o ano em nono lugar, aos 28 anos de idade.

Mas houve indícios de uma troca de gerações, que parece estar surgindo apesar da demora. E se você levar em conta o Top 20, há seis tenistas com menos de 23 anos na lista: Alexander Zverev, Karen Khachanov, Borna Coric, Kyle Edmund, Stefanos Tsitsipas e Daniil Medvedev.

No total, o número de tenistas com idade superior a 30 anos no Top 100 caiu a 33, em 2018, ante o recorde de 43 no ano passado.

Zverev, que agora conta com o notável Ivan Lendl entre seus treinadores, continua a ser o líder inconteste da nova geração, depois de vencer as finais da ATP este mês, derrotando Federer e Djokovic em partidas consecutivas.

Mas Zverev, que ocupa o quarto posto do ranking aos 21 anos, deve ter muita concorrência dentro de sua geração. Khachanov, Coric e Tsitsipas são jogadores de estilos diferentes que têm o potencial de conquistar grandes títulos.

​Khachanov, um russo imponente com um dos forehands mais pesados do esporte, derrotou Zverev e Djokovic e venceu o  Masters de Paris este mês. Tsitsipas derrotou Djokovic, Zverev e Anderson a caminho da final em Toronto, nesta temporada. Coric, um dos melhores defensores do tênis mas que está desenvolvendo uma mentalidade cada vez mais ofensiva, derrotou Federer duas vezes em 2018, e foi um dos membros cruciais da equipe da Croácia em sua vitória na Copa Davis.

Por enquanto, os títulos de Grand Slam, que definem carreiras (e maximizam o faturamento), continuam a ser domínio exclusivo dos veteranos. Nenhum jogador ativo da ATP com idade inferior a 30 anos venceu um dos quatro grandes títulos, a primeira vez que isso acontece nos 50 anos da história dos abertos.

Já o tênis feminino está em situação diferente, muito menos previsível. Oito tenistas ganharam os oito últimos grandes títulos de simples femininas, e cinco delas, entre as quais Simona Halep e Caroline Wozniacki em 2018, tiveram seus primeiros títulos de Grand Slam, nessa sequência. Naomi Osaka venceu o Aberto dos Estados Unidos aos 20 anos, em setembro, derrotando Serena Williams por dois sets a zero em uma final no qual o brilho do tênis de Osaka passou despercebido diante da disputa entre Williams e o árbitro de cadeira Carlos Ramos.

Pela primeira vez desde 2006, Williams, 37, passou a temporada sem vencer um torneio, mas não se pode considerar sua temporada de retorno ao esporte, depois de ter um bebê, como menos que um sucesso. Ela chegou à final também em Wimbledon e venceu suas três primeiras partidas no Aberto da França de forma impressionante, antes de ter de abandonar o torneio por conta de uma lesão no peitoral.

Se Williams conseguir se manter em forma, ainda tem chance de vencer mais um grande título e igualar o recorde de Margaret Court, que conquistou 24 títulos de simples no Grand Slam. Mas Williams tem de se apressar. Sua irmã mais velha, Venus, tropeçou em 2018, depois de chegar às finais de dois torneios de Grand Slam no ano anterior, e caiu para o 38º posto do ranking, aos 38  anos.

Osaka e outras jovens como Aryna Sabalenka, 20, de Belarus, têm força e ambição de sobra. Talentos mais jovens como Marta Kostyuk, 16; Amanda Anisimova, 17; e Dayana Yastremska, 18, já surgem no horizonte.

E com mais uma temporada encerrada e outra para começar em breve, seria melhor que os líderes do tênis não perdessem tempo, igualmente.

A governança dividida do esporte continua a ser o principal obstáculo ao crescimento e a um calendário racional e sustentável. Que os líderes cheguem a um compromisso não seria pedir demais.

E se existe alguma dúvida sobre a beleza de uma reaproximação, os burocratas deveriam considerar o que aconteceu pouco depois da final da Copa Davis.

A despeito de sua decepção, a equipe francesa visitou o vestiário da Croácia para oferecer congratulações, abraços e, por fim, brindes

The New York Times

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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