Descrição de chapéu The New York Times Velocidade

Desapaixonado, Fernando Alonso encerra carreira estelar na F-1

Após 17 temporadas e dois títulos mundiais, piloto se despede da categoria neste domingo (25)

Ian Parkes
Nova York | The New York Times

Fernando Alonso aos poucos se desapaixonou pela F-1. Depois de 17 temporadas, as últimas das quais com uma McLaren nada competitiva, ele enfim terá a oportunidade de dedicar atenção às coisas importantes da vida.

“A F-1 requer dedicação integral de sua vida”, ele disse. “Todas as demais coisas não são importantes. A família não é importante, as amizades não são importantes, o amor não é importante. Se você quer ter sucesso na F-1, precisa dedicar sua vida a ela, e para mim já deu”.

Neste domingo (25), em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, Alonso, 37, considerado por todos como um dos melhores pilotos do automobilismo, largará para seu 312º e último grande prêmio, e deixará a categoria na qual ingressou em 2001. Sua carreira lhe valeu dois títulos mundiais e 97 pódios — entre os quais 32 vitórias, a última das quais em 2013, em seu país natal, a Espanha.

Fernando Alonso, da McLaren, chega ao autódromo de Yas Marina para sua última prova na F-1
Fernando Alonso, da McLaren, chega ao autódromo de Yas Marina para sua última prova na F-1 - Hassan Amma/Associated Press

“Para ser honesto, o que conquistei foi inesperado, porque, quando me recordo de minha infância, no kart, eu jamais imaginava que me tornaria piloto de F-1”, diz. “Era um sonho louco para um menino espanhol como eu”.

“No dia em que fiz minha estreia, na Austrália, eu nem imaginava que subiria a um pódio. Começando na Minardi, e vendo pilotos como Michael Schumacher, Mika Hakkinen, David Coulthard, eu me via em um ambiente que parecia grande demais para mim. Com meus títulos e minhas vitórias em grandes prêmios, consegui muito mais do que sonhava 17 anos atrás”.

Mas agora chegou a hora de dizer adeus à F-1  que ele descreve como “uma bolha, uma coisa irreal”, que em muitos ocasiões exigia que ele apresentasse um espetáculo.

“Você precisa ser um personagem, uma figura que constrói ao longo dos anos”, disse Alonso. “Às vezes você pode ser um pouco mais humilde, às vezes um pouco mais rude, às vezes um pouco mais arrogante”.
“É preciso enviar mensagens aos oponentes sobre quem você é e a quem eles devem temer quando os dois dividirem uma curva na primeira volta”, ele acrescentou.

No ano que vem, Alonso continuará nas pistas, participando de três provas do Campeonato Mundial de Endurance, e fará uma segunda tentativa de vencer a Indianapolis 500, para conquistar a tríplice coroa do automobilismo — as 24 Horas de Le Mans e o Grande Prêmio de Mônaco são os dois outros eventos —, e se equiparar a Graham Hill, o único piloto a fazê-lo.

Ou seja, a velocidade continua importante para Alonso, mas ele já não se interessa mais pelo esforço necessário a obtê-la na Fórmula 1.

“Vou sentir falta dos carros, da tecnologia, da aproximação da corrida, da busca pela perfeição em uma volta de classificação, em um carro que às vezes vai além da física, porque todas as demais categorias ficam em nível inferior”, ele disse. “Esse tipo de sentimento, essa perfeição, é algo que definitivamente me fará falta”.

Alonso sabe que foi a sorte que permitiu que ele galgasse a pirâmide do automobilismo, depois de seus dias iniciais no kart, levando-o aos monopostos de categorias inferiores e por fim à F-1. “O momento certo, as oportunidades certas, e então aproveitá-las”, ele disse.

Seus dois títulos mundiais, pela Renault em 2005 e 2006, são os pontos altos evidentes. Tentando colocá-los no contexto, o piloto disse que “são momentos difíceis de explicar com palavras. O que surge na memória são todos os sacrifícios, as viagens, o estudo, as dificuldades”.

“No kart e nos monopostos, você precisa abrir mão de muito tempo de escola. Você se apanha estudando sentado no carro, e aprende a viver de um jeito diferente porque, quando está em casa, não sai para jogar futebol com os amigos ou para ir ao bar na noite de sexta-feira”.

“Naquele momento específico em que você se torna campeão mundial, você recorda a época do kart, quando era menino, e reconhece que cada dia de sua vida, desde lá, foi dedicado totalmente ao automobilismo, e percebe que passou a vida toda se preparando para aquele momento”.

Em seus esforços para conquistar um tricampeonato, houve instantes dolorosos em que ele ficou muito perto —perdeu o título por um ponto em 2007, por quatro pontos em 2010 e por três pontos em 2012.

Depois de correr pela Ferrari entre 2010 e 2014, ele voltou à McLaren em 2015, em uma tentativa de reconduzir a equipe aos seus anos de glória, mas os quatro últimos anos foram frustrantes, porque ele não conseguiu concluir cerca de 30% das provas por problemas mecânicos, o que drenou seu entusiasmo.

Lewis Hamilton, da Mercedes, cinco vezes campeão mundial de F-1, disse que a persistência de Alonso, sua recusa a desistir, foi um grande exemplo para os outros pilotos da categoria. 

“Realmente respeito como ele se conduziu em um momento difícil para a McLaren”, afirmou Hamilton.
“Foi difícil para ele continuar batalhando, continuar dirigindo, buscar a vontade necessária a continuar fazendo seu trabalho, mesmo que soubesse que não tinha um carro à altura. E ele também teve a coragem de encarar outros desafios na IndyCar e no Endurance, usando seus talentos em outras categorias. Isso foi realmente bacana”, disse Hamilton.

“É pena que ele saia com apenas dois títulos mundiais, mas não é assim que o vejo. Eu o vejo como vencedor de múltiplos títulos mundiais, com seu talento puro, o maior que já encontrei entre todos os pilotos que enfrentei”, disse o britânico.

Carlos Sainz, espanhol que pilota para a Renault, disse que a Fórmula 1 sentiria falta do seu compatriota.
“O talento dele é inquestionável, um dos melhores da história de nosso esporte”, disse Sainz. “Que a categoria de ponta do automobilismo deixe de ter seu piloto mais completo é uma grande perda”.
Nos últimos três anos, Alonso também vem comandando uma escola de kart para as crianças de Astúrias, sua região natal na Espanha.

Questionado sobre o que diria ao seu eu mais jovem, que entrou para a Fórmula 1 aos 20 anos, e para os alunos de sua escola, ele respondeu que “a jornada nos ensina muita coisa, e a maior delas é curtir cada momento”.

“Somos pessoas privilegiadas, fazendo o que amamos. Dirigimos carros maravilhosos, para equipes maravilhosas, repletas de pessoas talentosas”, ele disse.

“Provavelmente, no meio disso tudo, quando você está profundamente envolvido com o trabalho, você não vai perceber nem desfrutar dessas detalhes e da vida privilegiada que tem, por estar muito ocupado, muito concentrado, e às vezes muito frustrado e muito ambicioso. Isso é algo que você só percebe com o tempo, e no final de sua carreira”, disse Alonso.

Tradução de Paulo Migliacci

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