Em relatório, CBF ignora maior parte de comissões pagas pelo Palmeiras

Clube gastou pelo menos R$ 5 milhões em comissões, mas confederação só conta R$ 1,2 milhão

Alexandre Mattos, diretor executivo do Palmeiras, é quem combina as comissões com os agentes
Alexandre Mattos, diretor executivo do Palmeiras, é quem combina as comissões com os agentes - Cesae Grecco/Agência Palmeiras
Diego Garcia
São Paulo

Em relatório da CBF sobre registros e transferências no futebol brasileiro divulgado neste ano, a confederação contabilizou R$ 1,2 milhão como valor de comissões pagas pelo Palmeiras de abril de 2017 a março de 2018, em 32 registros de envolvimentos de empresários em negociações feitas pelo clube.

Essa quantia, contudo, não representa mais de 24% do total gasto pelo Palmeiras com repasses para empresas e agentes de jogadores. A diferença é demonstrada por documentos aos quais a Folha teve acesso, em que são apontados mais de R$ 5 milhões pagos pelo Palmeiras a empresários nesse período.

A porcentagem pode ser ainda menor, já que na contratação do meia Lucas Lima, em novembro de 2017, o Palmeiras prometeu pagar R$ 4 milhões ao empresário Neymar da Silva Santos, pai do atacante do Paris Saint-Germain, que comandou a operação.

A intermediação desse negócio não está descrita entre os documentos do clube obtidos pela reportagem, mas consta no relatório da CBF como uma das 32 transferências do Palmeiras que especificaram a participação de um intermediário.

Gustavo Xisto, advogado de Neymar, afirmou que o empresário declarou à CBF a quantia acertada, mas que a comissão ainda não foi paga integralmente, uma vez que ficou acordado que ela seria quitada em parcelas durante a vigência do contrato de Lucas Lima com o Palmeiras.

A CBF não especifica os valores informados por empresários para a elaboração do relatório. Procurada para comentar o relatório, a confederação disse que os clubes avisam se tiveram o auxílio de algum agente em suas negociações e que os responsáveis pelas declarações dos valores são os empresários.

A entidade diz que só notifica os agentes se tiver acesso aos valores recebidos, o que, segundo a confederação, nem sempre ocorre. A CBF não respondeu a quais negociações corresponde o valor de R$ 1,2 milhão divulgado como referência ao Palmeiras no relatório.

A divulgação do relatório de intermediários é uma exigência da Fifa. A Receita Federal também observa as operações e prepara uma legislação específica para combater sonegação de impostos.

A Fifa não respondeu aos emails da reportagem. O Palmeiras, por sua vez, não comentou as informações até a publicação. A Folha questionou a diferença de R$ 3,8 milhões entre os documentos da confederação e os do clube.

Segundo planilhas do Palmeiras, foram ao menos 30 pagamentos por comissão feitas pelo instituição a pelo menos 16 agentes no período correspondente ao relatório da CBF. Algumas representam parcelas de contratações feitas no clube nos últimos anos.

A empresa que mais recebeu nessa época foi a MB Serviços Digitais, do empresário Bruno Paiva. No dia 31 de janeiro de 2018, a companhia ficou com R$ 1.057.273,74  de parcelas por comissão nas intermediações do atacante Borja e do volante Bruno Henrique.

Procurado para comentar o assunto, Paiva não respondeu. A MB também recebeu outras duas parcelas no negócio, de R$ 388.289,36 e R$ 134.071,43, chegando a R$1.579.634,53, valor que por si só já supera o que está declarado no relatório da CBF.

Só em junho do ano passado, o Palmeiras desembolsou R$ 1.453.904,50 em diversas comissões por intermediações de atletas —valor também maior do que o declarado no relatório da CBF.

No período do relatório, a Link Assessoria Esportiva, de André Cury, ficou com R$ 339.464,84 por ter auxiliado o clube em negociações com o atacante Lucas Barrios.

Já a Brazil Soccer, de Eduardo Uram, levou R$ 360.227,57 por parcelas de comissões nas transações envolvendo o atacante Rafael Marques, o meio-campista Jean, o zagueiro Victor Hugo, o lateral esquerdo Egídio e o técnico Cuca, que havia retornado ao clube em maio, mas saiu em outubro.

Pessoas próximas à diretoria do Palmeiras confirmam os valores de comissões que estão nos documentos aos quais a Folha teve acesso, mas dizem que 90% dos pagamentos por intermediações estão abaixo do que normalmente é pago nesse mercado.

Em geral, os agentes ficam com 10% das operações, mas, de acordo com essas pessoas próximas à diretoria, o time alviverde costuma pagar 7%. Outro argumento é que os valores são sempre divididos em várias parcelas, para impedir que a instituição pague altas quantias de uma só vez.

No último domingo (18), a Folha mostrou que o Palmeiras pagou, apenas em 2018, mais de R$ 15 milhões a empresários de jogadores, valor superior à folha salarial atual do clube, de R$ 13 milhões.

Em 2016, a Fifa montou um grupo de estudos para regulamentar a atuação dos agentes. A questão central passou a ser a porcentagem que eles recebem a cada negociação.  

A entidade quer colocar um teto de 5% do valor da transferência. Nenhum empresário poderia receber mais do que isso. Hoje não há regra, apenas recomendação de que seja pago 3%. O conselho é ignorado por clubes e agentes. 

Em janeiro deste ano, a Uefa (federação que comanda o futebol europeu) divulgou um estudo das transferências realizadas no continente entre 2013 e 2017. Segundo o relatório, no geral os agentes ficam com 13% de comissão.

As comissões no Palmeiras
Veja comissões pagas pelo clube entre abril de 2017 e março de 2018:

MB Serviços Digitais - R$1.579.634,53 
Link Assessoria Esportiva - R$ 339.464,84
Brazil Soccer - R$ 360.227,57
FJB Sports - R$ 339.620,24
Nato & Zola Sports - R$ 186.585,00  
Luzz Sports - R$ 177.700,00
VTN Representação - R$ 140.775,00 
Villa Sports - R$ 133.275,00 
On Think Ball - R$ 120.664,28 
Fottball Esportiva (Keno) - R$ 93.850,00
L.A. Sports (Hyoran) - R$ 88.850,00   
Talent Sports - R$ 50.679,00
Fábio Mello Sports - R$ 44.109,50
PMSM Publicidade - R$ 43.500,96 
T&T Comunicação - R$ 35.743,65  
Não especificadas - R$ 1.313.129,77 
 

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