Jogo entre River e Boca em local inóspito já foi suspenso por falta de público

Empresário tentou levar o clássico para o interior em 1985, mas fracassou

O estádio 23 de agosto fica em Jujuy, no norte da Argentina, e é a casa do Gimnasia y Esgrima local
O estádio 23 de agosto fica em Jujuy, no norte da Argentina, e é a casa do Gimnasia y Esgrima local - Divulgação
Bruno Rodrigues
São Paulo

Entre os torcedores de River Plate e Boca Juniors privados de assistir ao segundo jogo da final da Copa Libertadores em seu próprio país, haverá certamente aqueles que farão o esforço de ir a Madri para ver a partida no próximo dia 9.

Haverá também, entre os pouco mais de 250.000 argentinos que vivem na Espanha --segundo dados do Instituto Nacional de Estatística espanhol--, quem se deslocará ao estádio Santiago Bernabéu para matar a saudade do clube do coração, já que a Conmebol, em conjunto com as autoridades locais, permitirá a entrada das duas torcidas.

Mas há um episódio na história do clássico que foge à percepção comum de que o torcedor apaixonado faz de tudo para ver seu time jogar, onde quer que ele jogue.

Em maio de 1985, River e Boca foram contratados por um empresário para participar de um torneio amistoso em San Salvador de Jujuy, norte da Argentina. Duas equipes locais completavam o quadrangular.

Naquele fim de semana, os dois gigantes estavam desfalcados de algumas de suas estrelas, que serviam à seleção para um amistoso contra o Brasil, na Bahia.

Mesmo assim, havia atrativos entre os jogadores que foram a Jujuy. No River, os ídolos Enzo Francescoli e Norberto Alonso, inclusive, marcaram os gols de uma vitória por 3 a 0 do time sobre o Gimnasia de Jujuy, no sábado.

Naquele mesmo dia 4 de maio, o Boca encarou a alguns quilômetros dali, em Salta, o Juventud Antoniana. Com o clube afundado em uma crise econômica, empatou em 2 a 2.

Por sorteio, ficou definido que haveria Superclássico no domingo, dia 5, no estádio 23 de Agosto, que pertence ao Gimnasia local. Hospedadas no mesmo hotel da cidade, as delegações subiram no ônibus e foram até o estádio. Contudo, faltando 40 minutos para a bola rolar, o jogo simplesmente precisou ser cancelado. E por falta de público.

"Eu já havia pago ao Boca a bilheteria, mas ainda faltava pagar o River. Vamos ao estádio e só havia 1700 pessoas! Era para se matar! Mandaram para cá um senhor dirigente do River que disse que não queria jogar. Foi caprichoso e não jogaram. Nunca aconteceu na história das instituições. Mas aconteceu comigo", lembra Gustavo Sandoval, 66, responsável por ter levado os clubes a Jujuy para o torneio.

A ausência do público deixou o River desconfiado de que a organização do evento não conseguiria arcar com as garantias financeiras. Por decisão do dirigente encarregado da delegação, o time pegou o ônibus e voltou a Buenos Aires. As passagens haviam sido pagas por Gustavo Sandoval.

Segundo ele, o técnico do time de Nuñez, Héctor Veira, queria entrar em campo, mas não o fez por decisão do dirigente "caprichoso". O Boca, por outro lado, queria jogar independentemente de quem fosse o adversário. Ao contrário do que ocorreu no último fim de semana após o ataque ao ônibus boquense.

"O Boca queria jogar até com os funcionários do mercado ou os carregadores da estação de trens. Quem se negou a jogar foram as pessoas do River. Eu disse que se faltasse algum peso eu pagaria", conta Sandoval.

Hoje, mais de 30 anos depois, Sandoval até brinca com o tema e leva a lembrança do clássico fracassado como uma curiosa anedota. Contudo, ele diz que foi difícil se recuperar do projeto malsucedido na época.

Os advogados dos dois clubes o cobraram pelo jogo não realizado. Segundo ele, tudo foi pago. "Foi o único golpe forte que tive toda a vida. Mas me superei", afirma.

O que conforta o empresário é que o jogo não foi o único espetáculo sem sucesso na cidade. Um fenômeno que ele atribui aos ares particulares do norte argentino.

"É verdade que havia problemas econômicos na Argentina nessa época, mas dizer que não houve ninguém para ir ao clássico River e Boca é para se matar. Jujuy é uma coisa curiosa. Tivemos a visita de grandes artistas internacionais e que fracassaram. Julio Iglesias, gente de peso, que fizeram shows e ninguém foi. Quem triunfa em Jujuy, triunfa em qualquer lugar do mundo. Não é fácil Jujuy", completa o empresário do River e Boca que não aconteceu.

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