Descrição de chapéu The New York Times

PSG quer conquistar fãs nos gramados e nas passarelas

Clube de Paris tem projeto ambicioso para se transformar também marca de luxo na cidade da moda

Jogadores do PSG posam com a nova camisa do clube para a Champions League, desenhada pela Jordan.
Jogadores do PSG posam com a nova camisa do clube para a Champions League, desenhada pela Jordan. - Nike/Divulgação
Elian Peltier e Rory Smith
Paris | The New York Times

Poucos dias antes de o Paris Saint-Germain (PSG) viajar a Liverpool, Inglaterra, para iniciar sua nova campanha em busca do título da Champions League, Dani Alves e Kylian Mbappé subiram à passarela em uma sala brilhantemente iluminada no subsolo do estádio Parc des Princes.

Diante deles, uma multidão de dezenas de jornalistas, influenciadores de mídia social e blogueiros de moda circulavam, assistindo a jogadores de futebol freestyle que faziam acrobacias surpreendentes com a bola. O estilo do cenário era industrial chique. Canos expostos corriam por sob o teto. Traves e aros de basquete haviam sido instalados para replicar o ambiente de uma quadra poliesportiva urbana.

Alves e Mbappé –acompanhados por Wang Shuang e Marie Antoinette Katoto, da equipe feminina do PSG– não estavam lá para jogar, no entanto. Estavam lá para posar. Para circular. Para trabalhar como modelos. Por uma vez, no estádio de seu clube, eles não eram as grandes atrações. O que interessava aos presentes acima de tudo eram as roupas que estavam usando.

Modelo desfila com a camisa estilizada com o rosto de Mbappé, feita pelo designer Manis Arora, durante a Paris Fashion Week.
Modelo desfila com a camisa estilizada com o rosto de Mbappé, feita pelo designer Manis Arora, durante a Paris Fashion Week. - Stephane Mahe-27.set.2018/REUTERS

Foi o lançamento da mais recente em uma série de ambiciosas colaborações entre o PSG, atual campeão da França, e uma grife de moda. Os dois estavam lá para mostrar a nova camisa que a Nike criou para o PSG: um modelo justo e preto criado pela marca Jordan, com o escudo do clube redesenhado para incorporar o famoso logotipo da marca, a silhueta de um jogador de basquete saltando com a bola.

O time utiliza a camisa em jogos da Champions League nesta temporada –um uniforme pensado para a conquista da Europa–, mas ela existe porque os horizontes do PSG deixaram para trás o velho mundo e se expandiram aos mercados futebolísticos emergentes do planeta, na Ásia e América do Norte, e para a riqueza que aguarda o clube neles.

"Nós vamos", disse Fabien Allègre, executivo de marketing do PSG, "até onde outros clubes não vão".

A conexão entre o PSG e as casas de moda da cidade é antiga. O estilista Daniel Hechter foi presidente do clube por cinco anos na década de 1970, e é visto como uma das forças propulsoras em sua criação.

Hechter criou o look tradicional da camisa do PSG –uma listra vertical vermelha, com bordas brancas, sobre um fundo azul–, durante seu reinado. Reza a lenda que ele baseou a ideia no uniforme vermelho e branco usado pelo Ajax, o clube holandês que dominava as competições europeias naquela época.

Hoje, o PSG usa essa conexão e a reputação de Paris como polo mundial da moda a fim de forjar sua identidade para o século 21.

A ambição dos proprietários do clube (o fundo de investimento estatal qatariano Qatar Sports Investments) de transformar o clube em uma superpotência do esporte é bem conhecida. A companhia investiu centenas de milhões de dólares em jogadores no últimos anos, o que inclui a transação de US$ 222 milhões (cerca de R$ 816 mi) para contratar o brasileiro Neymar, a mais cara da história, em 2017.

Mas a visão dos controladores não para por aí. Mesmo que estejam cientes de que o PSG, como clube, talvez jamais venha a ter a mesma história e os mesmos atrativos de Barcelona, Real Madrid ou Bayern de Munique em campo, fora dele estão convictos de que o clube francês pode superar todos estes.

De braços abertos, Neymar comemora gol pela Champions League, competição que o PSG usa os uniformes desenhados pela Jordan.
Neymar comemora gol pela Champions League, competição que o PSG usa os uniformes desenhados pela Jordan. - FRANCK FIFE-04.out.2018/AFP

"Paris quer dizer moda, estilo, criatividade e energia", disse Nasser al-Khelaifi, presidente do PSG. "Queremos que o PSG abrace esses valores que tornam a cidade tão única. Nem todo mundo pode fazer o mesmo".

Em termos mais simples, a Qatar Sports Investments quer que o PSG seja visto como "cool".

A parceria com a Nike e a marca Jordan está longe de representar o primeiro passo nesse sentido. O clube também tem acordos de patrocínio com marcas como Levi Strauss e Beats. E no ano passado, o PSG trabalhou com os Rolling Stones e a Nike para produzir mercadorias exclusivas a fim de celebrar a chegada da banda de rock à capital francesa. As peças foram colocadas à venda na Colette, uma das lojas de roupas mais antenadas de Paris.

Em 2017, o clube foi destaque na Paris Fashion Week, graças a uma coleção cápsula da grife de moda Koché. A estilista da empresa, Christelle Kocher, usou a camisa do clube para uma série de looks, combinando-a a cristais, seda e musselina.

"Paris rima com estilo, com moda, com glamour, e o PSG tem a Torre Eiffel em seu logotipo, o que faz de brincar com esses conceitos uma ideia completamente lógica para a marca deles", disse Kocher. "Isso parece meio óbvio agora, mas não o era antes de o PSG fechar essas parcerias".

Este ano, uma coleção do estilista indiano Manish Arora foi produzida com os mercados chinês e indiano em mente e incorporando retratos coloridos e muito estilizados de jogadores como Mbappé, Thiago Silva e Edinson Cavani, em camisetas, casacos e vestidos.

Participações especiais em desfiles são apenas um dos elementos nos esforços do PSG para se infiltrar no mundo da moda. O clube conta com uma equipe de quatro empregados, comandados por Allègre, que trabalha em tempo integral em diversificação de marca, em busca de maneiras de ajudar o PSG a se tornar algo mais que apenas um time de futebol.

O clube estabeleceu colaborações com mais de uma dezena de artistas e estilistas: marcas como Afterhomework, Maison Labiche e Blume, além de Nick Fouquet, fabricante de chapéus sediado em Los Angeles, e Georges Esquivel, que cria sapatos. As parcerias, disse Allègre, se dirigem primordialmente a "fãs americanos que podem não conhecer o PSG como clube mas aderem ao nosso projeto como marca de estilo de vida".

Essa reputação foi criada em parte pela presença constante de rostos famosos como Naomi Campbell, Leonardo DiCaprio, Rihanna e a família Kardashian, nos camarotes do Parc des Princes. Virgil Abloh, diretor artístico da Louis Vuitton, é presença regular nas partidas do time.

Assistir a um jogo do PSG se tornou obrigatório, ao que parece, para qualquer astro de Hollywood ou atleta famoso em visita a Paris. E a camisa do clube e seu escudo se tornaram uma espécie de brasão para celebridades de primeira linha: Beyoncé e a cantora britânia Rita Ora usaram peças criadas pela Koché; Justin Timberlake usou um paletó com o logotipo Jumpman, ainda não lançado oficialmente, em um show que fez em Paris em julho; e LeBron James chegou para um jogo do Los Angeles Lakers no mês passado usando uma camisa do PSG.

Beyonce e Jay Z nas arquibancadas do Parc des Princes para partida do PSG contra o Barcelona pela Champions League.
Beyonce e Jay Z nas arquibancadas do Parc des Princes para partida do PSG contra o Barcelona pela Champions League. - Christophe Ena-28.out.2014/AP Photo

O PSG insiste em que todo esse interesse é orgânico. "Alguns astros querem vir", disse Allègre. "Outros são convidados".

Para o mundo do futebol, profundamente cínico, existe uma linha visível entre o brilho de Hollywood e os artifícios de relações públicas. Os torcedores célebres do PSG só serviram para acentuar sua reputação como clube menos que autêntico, “brinquedinho” dos ricos e famosos, um time que um dia teve torcedores apaixonados mas se transformou em arapuca para turistas.

Apesar da preocupação dos torcedores de que o clube possa ter perdido a alma, existe um propósito esportivo por trás da abordagem dos donos do clube. As colaborações de moda e a presença de celebridades, acredita o clube, podem ter impacto genuíno em seu desempenho.

"Desde que compramos o clube, tentamos ser mais diferentes, mais únicos, mais criativos", disse Khelaifi em entrevista no evento de lançamento da camisa Jordan. "Essa parceria nos trará mais torcedores, em todo o mundo: torcedores que amam o basquete e o futebol, que amam a moda, que amam Michael Jordan e que amam Paris".

É uma abordagem que Kocher, ao menos, afirma estar funcionando. A coleção que criou, ela diz, ajudou o clube a "elevar o prestígio da marca", e pode convencer pessoas desdenhosas quanto ao futebol de que vale a pena experimentá-lo. "Fãs de moda me disseram que nunca usaram uma roupa de futebol, mas que as minhas são bacanas, quase desejáveis", ela disse. Ao visitar a loja de luxo que o PSG inaugurou recentemente em Tóquio, disse Kocher, ela percebeu que boa parte dos produtos de estilo de vida tinham estoques esgotados.

Mais ou menos o mesmo aconteceu com a coleção Jordan. O site do clube teve de expandir seus recursos para atender ao pico de demanda, quando os produtos foram colocados à venda, e filas de torcedores se formaram para comprar os produtos da nova linha, do lado de fora da loja do PSG no centro de Paris.

Nem todo mundo encara a ideia de modo tão positivo. Muitos dos torcedores mais ardorosos do clube ficaram insatisfeitos com o abandono do design clássico de Hechter para a camisa do clube, no começo desta temporada, em troca de uma versão repaginada criada pela Nike. O uniforme com que o clube manda seus jogos em casa já não tem a listra vermelha com bordas brancas. E as incursões no mundo da moda não apaziguarão os torcedores inconformados.

A Qatar Sports Investments aponta, porém, para seus objetivos mais amplos. O PSG não pode depender para sempre de injeções de dinheiro do Qatar; por duas vezes já passou perto de ser punido severamente, nos termos da lei de fair-play financeiro da Uefa, e informações surgidas recentemente apontam para novas questões sobre seus esforços para burlar as regras. Por isso, o clube precisa encontrar alguma maneira de reduzir sua desvantagem financeira e de reputação ante os times que vê como pares.

Real Madrid, Barcelona e Bayern têm a vantagem de suas histórias, de múltiplos títulos de Champions League, de galerias de antigos astros. O PSG está tentando recuperar o atraso, e precisa descobrir como extrair toda vantagem que puder. Ao conquistar o mundo da moda, ao se tornar uma marca desejada e elegante, ao aparecer nas passarelas e nas ruas, ao usar seus jogadores como modelos, o clube tem a esperança de que possa começar a fazê-lo

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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