Descrição de chapéu New York Times

Americano se torna 1ª pessoa a atravessar a Antártida sem ajuda

Colin O'Brady, 33, percorreu cerca de 1.500 km em 54 dias de caminhada

Adam Skolnick
Nova York

Os quilômetros finais de uma corrida de quase dois meses através da Antártida –um esforço solitário marcado por dias longos, noites curtas e resistência extraordinária– foram percorridos na quarta-feira (26), em uma disparada final para a linha de chegada.

Naquele que pode vir a ser considerado como um dos grandes feitos da história polar, o americano Colin O'Brady, 33, cobriu os 127,6 quilômetros finais de sua jornada de 1.482 quilômetros através da Antártida em um esforço final de 32 horas insones, se tornando a primeira pessoa a atravessar a Antártida de uma costa à outra em viagem solo, sem assistência e sem ajuda do vento.

O feito transcontinental de O'Brady, que na verdade o levou a percorrer cerca de 1.500 quilômetros, por conta de alguns desvios ao longo do caminho, foi suficientemente notável; mas concluir aqueles 127,6 quilômetros finais sem pausa –ou seja, acrescentar uma supermaratona ao último dia de uma jornada já sem precedentes– dificultou ainda mais a tarefa de quem quer que se disponha a superá-lo.

O americano Colin O'Brady, 33, no 49º dia de sua expedição na Antártida
O americano Colin O'Brady, 33, no 49º dia de sua expedição na Antártida - Colin O'Brady/The New York Times
 

"Não sei, uma força me tomou", disse O'Brady em entrevista por telefone. "Eu me senti aprisionado em um estado profundo de fluxo, naquelas 32 horas. Não ouvi música –pura concentração, a determinação de continuar até concluir a jornada. Foi algo profundo, belo, e uma maneira brilhante de terminar o projeto."

Em quase dois meses de corrida solitária, O'Brady tirou só 12 horas de folga: em 29 de novembro ele perdeu o revestimento de pele de um de seus esquis e se viu forçado a parar mais cedo, colar a pele de volta e cuidar de seus machucados.

O esforço culminante de O'Brady se une a alguns dos feitos mais notáveis da história polar, entre os quais as expedições lideradas pelo norueguês Roald Amundsen e pelo inglês Robert Falcon Scott, que competiram para se tornarem os primeiros exploradores a chegar ao Polo Sul magnético. Também houve a magnífica travessia de Borge Ousland, em 1996-1997, quando ele tornou o primeiro homem a cruzar o continente sozinho e sem apoio –ainda que tenha sido ajudado por um parapente.

Colin O'Brady no primeiro dia de sua expedição na Antártida
Colin O'Brady no primeiro dia de sua expedição na Antártida - Colin O'Brady - 3.nov.2018/The New York Times

Desde então, pelo menos três outras pessoas haviam tentado reproduzir o feito de Ousland sem a ajuda do parapente, o que dificulta muito a tarefa e reduz a margem de erro. O'Brady se tornou o primeiro a obter sucesso ao chegar ao final do percurso cedo na tarde de quarta-feira, após 54 dias de jornada.

Em 2016, o inglês Henry Worsley, veterano das forças especiais do exército de seu país, morreu dias depois de ser resgatado por um helicóptero no gelo, quando estava tentando façanha semelhante. Ele havia percorrido 1.440 quilômetros e estava a 203 quilômetros de concluir a jornada. Em 2017, outro inglês, Ben Saunders, desistiu de sua tentativa no Polo Sul. Na quarta-feira, ainda outro inglês, Louis Rudd, 49, grande amigo de Worsley, continuava no gelo, tentando concluir a jornada.

Rudd vinha correndo contra o O'Brady na chamada Rota Messner, da plataforma de gelo de Ronne à plataforma de gelo de Ross, no sopé da geleira Leverett. Os dois aventureiros partiram de Punta Arenas, no Chile, em 31 de outubro, e iniciaram seu percurso na neve em 3 de novembro, partindo do campo-base da Antarctic Logistics & Expeditions (ALE) na geleira Union.

Percurso de Colin O’Brady pela Antártida
Percurso de Colin O’Brady pela Antártida - Folhapress

Rudd liderou durante a primeira semana, mas O'Brady o ultrapassou em 9 de novembro e se manteve à frente desde então. A vantagem dele estava em um a dois dias nas últimas semanas, antes de sua puxada final no dia do Natal.

O esforço final começou por um sentimento.

O'Brady disse que acordou na manhã de Natal mais de 2.700 metros acima do nível do mar, e que sentiu que a hora havia chegado. Ele sabia que sua vantagem sobre Rudd era segura, e vinha realizando progresso sólido desde sua chegada ao Polo Sul, em 12 de dezembro, cobrindo mais de 32 quilômetros por dia –e em um dia chegando a quase 50 quilômetros. Cálculos conservadores o colocavam a três ou quatro dias de concluir a jornada, mas O'Brady disse que, enquanto preparava o café da manhã, começou a pensar.

"Acordei na manhã do Natal, pensei bem a respeito, e cheguei à conclusão de que, se faltavam três dias, isso queria dizer quantas horas em movimento?", ele disse. "Pessoas correm 160 quilômetros toda hora".

No começo, ele disse não ter mencionado a ideia à sua mulher, Jenna Besaw, que coordena a expedição. Ele também manteve o silêncio ao conversar com o campo-base da ALE, dizendo só que estava se sentindo bem e pretendia "esquiar um pouco mais". O que Besaw e a mãe de O'Brady, Eileen Brady, conselheira do filho e de Besaw durante a expedição, antecipavam era um percurso de 65 quilômetros e 16 horas, no dia de Natal.

Pela maior parte da travessia, O'Brady vinha parando a cada dia por volta das 20h, depois de 12 horas de trilha. Nas duas últimas semanas, no entanto, ele estava esticando seu esforço até pelo menos as 21h. Na noite de Natal, o relógio já marcava 23h e ele não havia sinalizado uma parada.

Em lugar disso, montou a barraca e descansou por 90 minutos, ferveu água e comeu um jantar duplo. Só então fez contato com a mulher.

"Jenna me enviou uma mensagem dizendo 'uau, 65 quilômetros, seu dia foi ótimo, mas você deveria parar e tentar fazer o mesmo amanhã'. E eu respondi que não ia parar. Disse a ela que precisava de seu apoio 100%. Pedi que confiasse em mim."

Para alguns dos que estavam acompanhando seu progresso, a decisão de continuar para além da cota diária foi preocupante. Em situações de estresse intenso, a linha que divide lucidez e loucura pode ser difícil de distinguir, especialmente para alguém que está sozinho há quase dois meses, percorrendo dezenas de quilômetros por dia e lutando contra ventos furiosos, visibilidade zero e temperaturas polares.

Será que alguém nessa situação, exausto e emaciado, faria boas escolhas?

"Estou me sentindo profundamente fatigado", disse O'Brady por telefone via satélite em 22 de dezembro. "Quando atravessei a Groenlândia" –uma jornada que ele realizou alguns meses atrás como preparativo para a expedição antártica–, "me distraí na última noite e caí em uma fenda no gelo que facilmente poderia ter me matado".

Colin O'Brady carrega seu equipamento no 50º dia de expedição na Antártida
Colin O'Brady carrega seu equipamento no 50º dia de expedição na Antártida - Colin O'Brady/The New York Times

"Eu quero demais concluir logo a jornada, mas ao mesmo tempo é importante fazer bem as pequenas coisas e não cometer erros estúpidos no final", ele afirmou.

O fato de que a parte final do percurso fosse encosta abaixo ajudou. O'Brady disse que o terreno permitia deslizar, e que ele usasse passadas curtas no esqui.

Na conversa, que além de Besaw e Brady também envolveu Caitlin Alcott, a irmão de O'Brady, e Brian Rohter, segundo marido de sua mãe, o aventureiro teve de responder a muitas perguntas, em parte para testar sua lucidez: ele tinha consumido calorias suficientes? Ia parar para ferver mais água? Estava reabastecendo seu combustível devidamente?

Eles também tentaram determinar se O'Brady estava ciente do que o aguardava, disse Besaw, e do que seria necessário para chegar ao fim.

"Tivemos uma conversa aberta, honesta e inteligente com ele", disse Besaw, " e ele claramente estava muito bem".

Nos quilômetros finais, ele fez o possível para saborear seu triunfo. Pela primeira vez em semanas, disse O'Brady, o panorama que o cercava era bonito –montanhas e geleiras, em lugar de quilômetros e quilômetros de neve branca.

"Fiquei emocionado, nostálgico", ele disse. "Relembrei toda a expedição, e sabia que essa é uma história que vou contar pelo resto da vida, mas disse a mim mesmo que estava vivendo aquele momento, e que deveria aproveitá-lo! Era hora de usar ao máximo os meus sentidos. A sensação dos esquis raspando na neve. O sabor daquele lugar. Era hora de tentar viver a experiência."

Depois de cumprir sua missão, O'Brady disse que planejava montar a barraca, fechar os olhos e esperar que o rival, Rudd, concluísse sua jornada solo.

"Não consigo manter os olhos abertos", disse O'Brady. "Meu plano é esperar por Lou aqui, e depois voarmos juntos para a geleira Union".

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

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