Longa e detalhada, seleção para técnico dos EUA virou alvo de zombaria

Nesta semana, Gregg Berhalter foi anunciado como novo treinador da equipe americana

Gregg Berhalter, no centro, é apresentado como novo técnico da seleção de futebol dos EUA
Gregg Berhalter, no centro, é apresentado como novo técnico da seleção de futebol dos EUA - Mark Lennihan/Associated Press
Andrew Das
The New York Times

A U.S. Soccer (federação de futebol dos Estados Unidos) demorou 14 meses para escolher um novo técnico para a seleção masculina do país, mas Earnie Stewart sabia quem ele desejava para o posto antes mesmo de fazer o telefonema para o homem que por fim foi escolhido.

Depois de iniciar seu mandato como novo diretor geral da seleção masculina, em 1º de agosto, Stewart começou a fazer telefonemas a treinadores, diretores de clubes e ex-jogadores respeitados da seleção americana a fim de solicitar seus conselhos para criar uma lista precisa das qualidades requeridas em um novo treinador.

O perfil final incluía detalhes básicos de currículo, por exemplo o credenciamento formal como treinador e experiência com equipes de primeira linha; qualidades expressas no jargão das teorias de gestão, tais como "inovador", "de mente aberta" e "excelente capacidade de comunicação"; e alguns requisitos estranhamente específicos, como por exemplo aceitação, e compreensão, de sistemas de análise de dados, e "um comportamento calmo e confiante no banco da equipe".

A lista de candidatos que Stewart preparou, com mais de 30 nomes inicialmente, foi comparada ao perfil ideal e depois reduzida a cerca de uma dúzia de candidatos. Então, no final de agosto, ele apanhou o telefone.

"Ele me ligou no celular", disse Gregg Berhalter, apresentado como novo treinador da seleção masculina dos Estados Unidos na terça-feira (4), em Nova York. Berhalter disse que Stewart começou por uma pergunta simples: "O que você acha de conversarmos sobre isso?"

Berhalter em ação pela seleção, disputando bola pelo alto com o brasileiro Adriano, na Copa das Confederações de 2003
Berhalter em ação pela seleção, disputando bola pelo alto com o brasileiro Adriano, na Copa das Confederações de 2003 - Philippe Desmazes/AFP

Os estágios finais na busca de um treinador, que começou quando a seleção dos Estados Unidos fracassou na eliminatória para a Copa do Mundo de 2018 e àquela altura já durava quase um ano, foram conduzidos rapidamente, depois disso.

Berhalter, companheiro de Stewart como jogador na seleção americana que foi à Copa do Mundo de 2002, se reuniu com o ex-colega para conversas mais aprofundadas em Columbus, Ohio, onde Berhalter estava treinando o Columbus Crew, um dos clubes da Major League Soccer (MLS), a principal liga de futebol masculino do país, e em Chicago, onde fica a sede da federação.

Em outubro, Berhalter viajou a Miami, onde fez uma apresentação de quatro horas de duração sobre sua visão quanto ao futuro da seleção ao presidente da U.S. Soccer, Carlos Cordeiro, e ao presidente-executivo da organização, Dan Flynn.

Ao persuadir os dois, e Stewart, de que era o homem certo para o posto, Berhalter disse que também aquietou suas dúvidas.

Ele havia ouvido rumores de que estava entre os candidatos ao posto, disse, "mas você nunca acredita que isso vá realmente acontecer, nunca acha que isso pode ser uma verdadeira oportunidade".
Ele acrescentou: "Mas quando recebi o telefonema, fiquei muito empolgado".

Ao passar pelas entrevistas, ele disse ter chegado à conclusão de que estava "preparado para isso".

No final, o processo seletivo do novo treinador demorou cerca de 14 meses. A demora inicial surgiu por causa do fracasso chocante da seleção na eliminatória para a Copa do Mundo de 2018 —que resultou em uma disputa contenciosa pela presidência da federação—, e se estendeu porque a federação estava altamente concentrada em conquistar a Copa do Mundo de 2026 para a América do Norte —o que ela conseguiu.

No lento processo de busca, movimentações no mercado de treinadores e o desinteresse da U.S. Soccer resultaram na eliminação de uma série de possíveis candidatos.

Jesse Marsch, antigo treinador do New York Red Bulls e outro colega de Stewart na seleção americana, aceitou emprego como parte da comissão técnica da seleção alemã, e Juan Carlos Osorio, ex-treinador da seleção mexicana —que havia expressado forte interesse por treinar os Estados Unidos em uma entrevista ao The New York Times antes da Copa do Mundo—, estava, em agosto, a meio caminho andado de se tornar o treinador da seleção paraguaia.

Mas havia outros candidatos na parada, e em seguida fora dela: treinadores de clubes da MLS como Tata Martino, Peter Vermes e Oscar Pareja; treinadores prestigiados dentro da U.S. Soccer, como Tab Ramos e Dave Sarachan, que vinha comandando a seleção interinamente durante a busca por um novo técnico; e treinadores com currículos internacionais estabelecidos, a exemplo de Osorio e Julen Lopetegui, antigo treinador da seleção espanhola e do Real Madrid, que declarou sua candidatura repetidas vezes no mês passado, mas foi informado de que era tarde demais.

Stewart admitiu na terça-feira que um dos três candidatos que ele havia selecionado para entrevistas formais jamais chegou a ser ouvido —"ele já tinha feito outra escolha"—, mas disse que as oportunidades perdidas quanto a candidatos secundários eram menos importantes do que garantir a contratação do homem que ele via como a escolha certa.

Cordeiro elogiou o processo, cuja extrema demora causou zombarias da parte da torcida americana, descrevendo-o como meticuloso e como cumprimento de uma promessa feita por ele durante sua campanha para a presidência da federação: garantir que "as operações de futebol sejam dirigidas por especialistas em futebol".

"Não temos coisa alguma a lamentar, nada", disse Cordeiro sobre a duração da busca. "No final, conseguimos o melhor cara".

"Não sacrificamos qualquer candidato para cumprir um prazo", ele acrescentou, "porque não tínhamos prazo".

Estados Unidos não conseguiu classificação para a última Copa do Mundo, na Rússia
Estados Unidos não conseguiu classificação para a última Copa do Mundo, na Rússia - Ashley Allen/AFP

Em outubro, mais ou menos quando Cordeiro e Flynn ouviram a apresentação de Berhalter em Miami, sua contratação já começava a parecer garantida. Stewart disse na terça-feira que havia entrevistado apenas dois candidatos —de acordo com o site Yahoo Sports, o colombiano Pareja, que foi muito elogiado por seu desenvolvimento de jogadores jovens em Dallas, foi o segundo —antes de fechar com Berhalter.

O conselho da U.S. Soccer aprovou a contratação do novo treinador em uma sessão realizada por telefone no sábado.

Os primeiros treinos de Berhalter como comandante da seleção devem acontecer no começo de janeiro, ainda que eles devam ser realizados sem a presença de muitos dos principais jogadores da seleção, cujos clubes europeus não têm a obrigação de liberá-los naquela semana.

A U.S. Soccer anunciou na terça-feira que o primeiro jogo de Berhalter seria um amistoso contra o Panamá em Glendale, Arizona, em 27 de janeiro. A seleção em seguida enfrentará a Costa Rica em San Jose, na Califórnia, seis dias mais tarde.

Até lá, Berhalter, acostumado a ter acesso a seus jogadores durante a semana toda como treinador de clube, terá de cuidar da transição para a postura mais distanciada que os treinadores de seleções adotam para manter os jogadores sob observação.

Ele disse que tentaria conversar com o maior número possível de jogadores antes da primeira semana de treino, começando pelos que jogam na MLS e depois viajando à Europa para conversas a dois com aqueles que jogam no exterior.

Ele prometeu criar um time cuja identidade seria construída em torno da iniciativa, de uma formação ofensiva que "desorganizaria" os oponentes por meio da pressão e da troca de passes.

"Já estou com a cabeça funcionando a mil", disse Berhalter. "Já estou pensando no que teremos de fazer".

Tradução de Paulo Migliacci

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