Descrição de chapéu Futebol Internacional

Sucesso dos anos 1980, Campeonato Italiano busca seu renascimento

Com Cristiano Ronaldo e novo acordo de TV, torneio tenta recuperar terreno perdido na Europa

Cristiano Ronaldo é a sensação do Campeonato Italiano
Cristiano Ronaldo é a sensação do Campeonato Italiano - Marco Bertorello/AFP
Alex Sabino
S√£o Paulo

Quando a década de 1980 chegou ao fim, o Campeonato Italiano era o mais valioso do futebol mundial. Nenhuma outra liga chegava perto.

Quase 30 anos depois, os times do país ainda tentam descobrir como recuperar o terreno perdido para Inglaterra, Espanha e Alemanha.

Apenas em 2017 a Uefa voltou a dar aos clubes italianos quatro vagas na Champions League, privilégio que havia perdido para os alemães nos anos anteriores por causa do ranking continental.

Em 1989, pela primeira vez na história do futebol europeu, três times do mesmo país ganharam todos os títulos continentais. O Milan venceu a Copa da Europa (hoje Champions League), a Sampdoria foi campeã da extinta Recopa e a Juventus derrotou a Fiorentina na final da Copa da Uefa (atual Liga Europa).

 

Mais do que isso, a S√©rie A (como √© chamada a primeira divis√£o do Campeonato Italiano) era o mais glamouroso torneio nacional do futebol mundial, atra√≠a os melhores jogadores do planeta e, consequentemente, telespectadores em todo o mundo. Foi o primeiro campeonato internacional a despertar interesse no p√ļblico brasileiro.

Em 1984, a Globo, pela primeira e √ļnica vez, transmitiu jogos de um torneio do exterior todos os domingos pela manh√£. Era a temporada em que a Juventus tinha o franc√™s Platini; o Napoli contratou o argentino Maradona; a Fiorentina tinha S√≥crates; a Inter de Mil√£o era de Rummenigge; a Roma, de Falc√£o. 

A campe√£ foi a pequena Hellas Verona, liderada pelo artilheiro dinamarqu√™s Preben Elkjaer-Larsen, que era conhecido tamb√©m em seu pa√≠s como titular da sele√ß√£o e colunista de uma revista er√≥tica. Nos anos seguintes, o torneio continuou popular no Brasil gra√ßas √†s transmiss√Ķes no programa Show do Esporte, na TV Bandeirantes.

Em 2018, os jogos só podem ser vistos no Brasil na TV por assinatura. O canal Rai transmite algumas partidas, mas com narração em italiano.

Programas sobre o futebol italiano foram populares, nas d√©cadas de 1980 e 1990 tamb√©m em outras na√ß√Ķes do Velho Continente, como Espanha e Inglaterra.

O torneio ficou mais forte a partir de 1986, quando o empresário Silvio Berlusconi comprou o Milan. Com o limite de três estrangeiros por equipe, ele contratou o trio de holandeses Gullit, Van Basten e Rijkaard.

Para responder, a rival Inter de Milão passou a ser o time dos alemães: Brehme, Klinsmann e Matthäus.

 

Foi na segunda metade dos anos 1980 que o técnico Arrigo Sacchi, do Milan, revolucionou o esquema tático do futebol e fez um dos maiores times da história aparecer.

Após a escolha da Itália para sede da Copa do Mundo de 1990, os estádios do país passaram por investimentos e obras de renovação.

Com o passar do tempo, essas estruturas se tornaram um problema. Sem manuten√ß√£o e de propriedade do poder p√ļblico, se ficaram obsoletos, principalmente quando os principais times de outros pa√≠ses iniciaram processo de constru√ß√£o de modernas arenas ou de remodela√ß√£o de seus locais de jogos. 

A Juventus percebeu isso e inaugurou, em 2009, seu pr√≥prio e novo est√°dio ao custo de 155 milh√Ķes de euros (R$ 683 milh√Ķes em valores atuais). 

Milan e Inter de Milão, no entanto, continuam dividindo o San Siro, estádio que pertence à cidade de Milão.

Ainda √© uma arena moderna, reformada pela √ļltima vez em 2008. Foi sede da final da Champions League de 2016, mas n√£o ser dono do campo limita a capacidade de gerar receita.

Em passos curtos, os clubes italianos ensaiam recupera√ß√£o. A primeira preocupa√ß√£o √© diminuir os preju√≠zos acumulados ano a ano. Em 2017, os times da elite registraram um preju√≠zo conjunto de 222 milh√Ķes de euros (R$ 978 milh√Ķes). Na temporada anterior, havia sido de 365 milh√Ķes de euros (R$ 1,65 bilh√£o).

Um dos passos para a melhoria financeira foi a negocia√ß√£o dos direitos de televis√£o. Em fevereiro, a companhia espanhola Mediapro comprou os direitos de transmiss√£o do Italiano por 3,15 bilh√Ķes de euros (R$ 13,9 bilh√Ķes), em um contrato de tr√™s anos.

O acordo, por√©m, foi cancelado por falta de garantias. Um novo leil√£o foi realizado em junho e vencido pela parceria formada entre a Sky Italia e a Perform (empresa dona do servi√ßo de streaming DAZN), que ofereceu 2,92 bilh√Ķes de euros (R$ 12,9 bilh√Ķes) divididos em tr√™s anos de contrato.

O valor √© o maior do g√™nero da hist√≥ria do futebol italiano, ainda que bem menor que o arrecadado, por exemplo, pela Premier League com o Campeonato Ingl√™s. Cinco dos sete contratos colocados √† venda para emissoras de TV pela liga inglesa garantiram para os clubes 4,94 bilh√Ķes de euros (R$ 21,8 bilh√Ķes).

√Č um come√ßo, assim como os dirigentes da It√°lia colocam a esperan√ßa de que a contrata√ß√£o de Cristiano Ronaldo, em julho, pela Juventus, tenha sido um marco do renascimento do futebol italiano.

Os cerca de 100 milh√Ķes de euros (R$ 440 milh√Ķes) pagos para tirar do Real Madrid o atacante cinco vezes melhor do mundo representam a maior aquisi√ß√£o internacional de uma equipe italiana desde que a Inter de Mil√£o depositou cerca de 21 milh√Ķes de euros (R$ 92,6 milh√Ķes) para tirar o brasileiro Ronaldo do Barcelona, em 1998. Na √©poca, foi a maior transfer√™ncia da hist√≥ria do futebol.

A chegada do portugu√™s n√£o ajudou no equil√≠brio do torneio. A Juventus venceu os √ļltimos sete t√≠tulos italianos e lidera o campeonato atual com oito pontos de vantagem para o Napoli ap√≥s 17 rodadas.

Ele foi contratado para tentar dar à equipe o título europeu que não é vencido por um clube nacional desde que a Inter derrotou o Bayern de Munique na final de 2010.

‚ÄúA chegada de Ronaldo pode mudar uma tend√™ncia de os principais jogadores do planeta rejeitarem a It√°lia para favorecerem Inglaterra e Espanha. Era o que vinha acontecendo‚ÄĚ, disse ex-zagueiro da sele√ß√£o italiana Alessandro Nesta, hoje t√©cnico do Perugia, da segunda divis√£o.

De uma maneira ou outra, as principais ligas da Europa encontraram sua f√≥rmula. A Espanha, com a distribui√ß√£o financeira que favorece Real Madrid e Barcelona; a Inglaterra com a cria√ß√£o da Premier League e os acordos de TV que fizeram com que 14 dos 20 times da primeira divis√£o estejam entre os 30 mais ricos do mundo; a atmosfera mais amig√°vel para os torcedores na Alemanha, o baixo pre√ßos de ingressos e a segunda maior taxa de ocupa√ß√£o dos est√°dios da Europa (91%), atr√°s apenas do rival ingl√™s (95,4%). 

A It√°lia ainda tenta se livrar da imagem dos torcedores violentos, epis√≥dios de racismo e intoler√Ęncia nas arquibancadas e o esc√Ęndalo do calciopoli de 2006, que comprovou a manipula√ß√£o de resultados de partidas do Nacional. A Juventus foi rebaixada. Milan, Lazio, Fiorentina e Reggina perderam pontos.

Em 2012, investigação da polícia sobre apostas em resultados fez com que o ex-atacante da seleção, Giuseppe Signori, fosse preso. Domenico Criscito, convocado para a Eurocopa daquele ano, foi investigado. O então primeiro ministro do país, Mario Monti, chegou a sugerir que a Itália abdicasse da competição.

A regra dos principais torneios europeus √© que a lista de times que podem ser campe√Ķes √© restrita. Os casos da Hellas Verona em 1985 e do Leicester na Inglaterra em 2016 s√£o exce√ß√Ķes. Mas h√° o esfor√ßo de outras equipes italianas em se aproximarem do poder econ√īmico da Juventus, que por enquanto continua inabal√°vel. Algo que n√£o acontecia nos anos dourados da d√©cada de 1980, que n√£o voltam mais.

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