Antes salvação do clube, categorias de base do Santos viram deserto

Equipes viveram ano conturbado na formação de atletas e não tiveram bons resultados

Alex Sabino Klaus Richmond
Santos e São Paulo

“A base salva” é frase repetida sempre no Santos. É assim desde o Brasileiro de 2002, quando Robinho e Diego acabaram com a fila de 18 anos sem títulos.

Time do Santos sub-20 se prepara para a disputa da Copa São Paulo de 2019
Time do Santos sub-20 se prepara para a disputa da Copa São Paulo de 2019 - Ernesto Guerra/Santos FC

Mas o clube terminou 2018 com o sinal de alerta ligado. Pela primeira vez na década as categorias de base não conquistaram nenhum título importante ou chegaram a finais. O melhor torneio foi a Copa do Brasil sub-17, quando o time caiu nas semifinais.

A última temporada acabou com o sub-20 eliminado na 1ª fase da Copa RS. Essa é a base do elenco que vai entrar em campo na Copa São Paulo. A estreia será nesta sexta (4), às 19 horas, contra o Sergipe.

“Os garotos serão utilizados [no time profissional], mas não pode haver cobrança excessiva”, afirma o ex-volante Renato, novo gerente de futebol. É o segundo ano consecutivo em que o sub-20 é eliminado na primeira fase do Paulista. Na Copa do Brasil, caiu na primeira rodada diante do Figueirense.

“Pegamos o grupo [sub-20] desse jeito que vocês viram. Desmotivado e cheio de atritos. Esse time vai virar do meio do ano para frente com resultados”, promete o gerente da base, Marco Maturana.

O técnico Leandro Mehlich foi demitido do sub-20 um mês antes da Copinha após vazamento de áudio em que criticava a qualidade do elenco.

Pelos registros na Federação Paulista, o clube tem 74 jogadores de até 20 anos com contrato profissional e que nunca atuaram no time principal. 

Desses, 42 foram contratados ou renovaram em 2018, quando José Carlos Peres assumiu a presidência.
Uma das queixas do último relatório da comissão fiscal é o excesso de atletas profissionalizados. Isso fez crescer o gasto com a base em 30,77%.

O aumento de despesa aconteceu no momento em que o Santos enfrenta problemas financeiros reconhecidos pelo próprio Peres. A profissionalização de atletas gerou custo de R$ 1.065.900. No período, houve prejuízo geral na administração de R$ 63.678.537,09.

A falta de um plano claro fez com que o Santos investisse na contratação de jovens, mas tentasse brecar a evolução de outros. Ex-técnico do sub-20, Aarão Alves diz ter ouvido pedido para não puxar para sua equipe os principais destaques do sub-17.

Entre eles estão o meia-atacante Kaio Jorge, o zagueiro Kaique Rocha, o volante Victor Yan e o meia Lucas Lourenço.

“Eu não consegui usar muitos jogadores do sub-17. Tentei vários deles, mas brecaram”, relatou Aarão.  Ele afirma que nem sequer teve os seus relatórios respondidos pela atual gestão. Maturana nega.

“No começo, evitamos essa prática dos técnicos puxarem os jogadores de outras categorias. O Aarão já não fazia parte dos planos”, rebateu.

Aarão Alves era um dos treinadores que a diretoria queria demitir, mas Peres hesitou ao ouvir pedido de Pelé para mantê-lo. Ele é filho de Manoel Maria, atacante nos anos 60 e grande amigo de Pelé.

Além das campanhas ruins em campo, a Polícia Civil de São Paulo investiga a acusação de que o ex-coordenador da base Ricardo Crivelli, conhecido como Lica, teria abusado de um garoto de 11 anos.
Lica nega as acusações, mas foi afastado. No relatório da comissão fiscal consta o pagamento de R$ 39 mil a ele pela rescisão contratual.

Em áudio gravado pelo executivo Ricardo Feijó, após ser demitido, ele afirma que Lica, apesar de afastado, estava em todos os jogos das categorias de base no ano, sempre escondido, evitando ser fotografado. O ex-coordenador foi flagrado conversando com integrantes da comissão técnica do sub-20 durante a Copa RS.

A Folha tentou entrar em contato com Crivelli, mas ele não atendeu ao telefone.

“Tenho confiança no Lica. Tenho certeza que isso [o abuso] não aconteceu. É um homem de 55 anos, que fez a vida no futebol. Estava em um jogo nosso, continua trabalhando no futebol, mas para outra entidade. Sei que ele estava no Rio Grande, mas não pelo Santos”, afirma Maturana.

Entre os gastos questionados por conselheiros da oposição está a contratação do zagueiro Gabriel Oliveira, 19, que estava no Vitória.

O Santos pagou R$ 1,5 milhão para que o atleta fosse liberado. Depois, ele atuou cinco vezes pela Copa Paulista. Mais do que o atacante Lucas Yanese, 22, aquisição comemorada por Peres, que afirmou a aliados ter tirado o jogador do Liverpool (ING)

O time inglês não tem registro de que o brasileiro tenha feito testes na equipe ou passado algum tempo no clube. 

Na Copinha, o Santos vai tentar recuperar uma geração que se perdeu. Nomes como os dos atacantes Alexandre Tam e de Nicolas Bernardo aparecem com destaque. Ligado a Robinho, Nicolas chegou a ser o nome mais badalado da base antes de Rodrygo.

Por causa dos problemas, o Santos planeja uma reformulação na base e tratou 2018 como período de transição.

“Nesta Copinha não teremos o time dos sonhos. Mas a geração de 2000, 2001, trabalhada pelo Luciano [Santos, novo técnico do sub-20] vem logo aí”, finaliza Maturana.

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