Descrição de chapéu The New York Times

Rival do Corinthians, Racing testa modelo europeu com orçamento sul-americano

Liderado por Diego Milito, clube aposta na formação de jogadores e lidera Nacional

Jogadores das categorias de base do Racing, da Argentina
Jogadores das categorias de base do Racing, da Argentina - Toya Sarno Jordan/The New York Times
Rory Smith
Avellaneda

Parcialmente obscurecida por um saco de pesos enferrujados, a parede dos fundos na sala de musculação da escola de futebol do Racing Club —rival do Corinthians na Copa Sul-Americana—foi pintada de azul escuro, e ostenta símbolos.

De um lado há quatro círculos sólidos de cores brilhantes; do outro, quatro círculos vazados amarelos, numerados. Do chão, sobem dois desenhos de gols em escala reduzida, com cerca de trinta centímetros de largura; no topo da parede, foram afixados dois ganchos, dos quais pendem bolas, presas por elásticos.

Diego Huerta, assistente na escola de futebol e um dos "scouts" [observadores estatísticos] do clube, passa pela parede praticamente sem olhar, e só se detém quando percebe os olhares confusos dos visitantes.

No Borussia Dortmund, ele explica, a sala de musculação dos juvenis ostenta um Footbotnaut, um equipamento futurista de treinamento cujo objetivo é aumentar a velocidade de pensamento e execução dos atletas. Posicionados dentro de uma gaiola, os juvenis do Dortmund recebem bolas a intervalos de alguns segundos. Quando isso acontece, uma área em uma das quatro paredes da sala se ilumina. O jogador precisa se reposicionar e chutar a bola para a área correta, e se preparar para receber o próximo passe.

Dortmund é um dos dois clubes do planeta a contar com esse equipamento - o outro é o TSG Hoffenheim. Os treinadores aceitam que dois ou três minutos no Footbotnaut possam ter impacto semelhante a múltiplas sessões de treino, mas o preço não é baixo: cada máquina custa de US$ 2 milhões a US$ 4 milhões, e o software que a aciona precisa ser atualizado regularmente.

Essa faixa de preço está muito além do alcance do Racing. O clube está trabalhando com um desenvolvedor de software local em uma versão mais enxuta e de preço mais camarada, mas enquanto isso sua resposta, adaptada às realidades e restrições do futebol argentino, inclui os círculos e as marcas pintadas na parede da sala de musculação, e as bolas de futebol presas por elásticos. Huerta disse: "Essa é a nossa versão".

Diego Milito, em 2014, quando jogava no Racing, antes de se aposentar e virar dirigente do clube
Diego Milito, em 2014, quando jogava no Racing, antes de se aposentar e virar dirigente do clube - Xinhua/Alejandro Santa Cruz/TELAM

O mesmo espírito move tudo que o Racing faz. Como todas as potências do futebol argentino, o clube é muito consciente de sua história. As paredes do refeitório da academia de futebol ostentam imagens de amigos astros; metade da sala é reservada a uma cronologia das façanhas do clube, dos inúmeros títulos que ele conquistou na primeira metade do século 20 ao seu primeiro sucesso na Copa Libertadores, em 1967.

Naquele ano, o Racing se tornou o primeiro clube argentino a vencer a Copa Intercontinental, derrotando o Glasgow Celtic, o campeão europeu, em dois jogos conturbados, de ida e volta. Desde então, o Racing se define como "el primer grande" - o primeiro entre os grandes clubes argentinos.

O que o Racing tem de original é que não se apega demais a essa história e nem se contenta em brilhar pela tradição. Os maiores clubes argentinos são dirigidos como agremiações sociais, cujos sócios votam para escolher um presidente em intervalos regulares. O sistema é acalentado como forma de impedir a comercialização, como uma  maneira de garantir que as identidades dos clubes não estejam à venda pela melhor oferta, mas ao mesmo tempo os torna conservadores e complicados, e cria resistência estrutural a mudanças.

Nesse contexto, o Racing se destaca como um bastião de inovação. Não estamos falando apenas do Footbotnaut feito em casa, mas das atividades de apoio disponíveis para os 55 meninos que vivem na escolinha, muito adiante daquilo que a maioria dos clubes rivais argentinos oferecem - os garotos têm acesso a assistentes sociais, psicólogos e professores particulares. É uma abordagem quanto ao desenvolvimento de jogadores que se orienta menos pelos resultados e mais pelo progresso individual. E todos esse trabalho é coordenado de um pequeno escritório subterrâneo no estacionamento do estádio do clube.

Lá, a equipe de quatro "scouts" dirigida por Javier Weiner, entre os quais Huerta, se acomoda em um grupo de quatro mesas, sobre cada qual há um iMac. Os observadores estudam jogos das ligas inferiores da Argentina e diversos países sul-americanos usando a plataforma de conteúdo Wyscout, que transmite jogos de todo o mundo.

Cada olheiro tem uma área a cobrir; Weiner fica com a Argentina e Colômbia; Huerta monitora o futebol juvenil e a Venezuela.

Usando o serviço de análise InStat, eles compilam fichas sobre possíveis aquisições, contendo não só dados brutos sobre desempenho mas os antecedentes psicológicos, emocionais e médicos dos jogadores. Eles acompanham informações postadas por jornalistas na mídia social.

A maioria dos clubes dessa escala, na Europa, América do Norte e Ásia, vê esse tipo de trabalho como padrão, agora. Na Argentina, é praticamente revolucionário.

"Na maioria das vezes, é o treinador principal que recruta jogadores, ou o presidente, com a ajuda de alguns agentes", disse Huerta. "Não há um processo estabelecido. Tudo muda constantemente. E há momentos em que decisões cruciais são tomadas por alguém que nada entende de futebol".

O Racing, no entanto, está determinado a ser "um tipo diferente de clube", disse Weiner. "Temos de ser criativos", ele disse. "Temos de ter uma rede que signifique que podemos obter jogadores antes dos clubes maiores, porque financeiramente não somos capazes de competir com o River Plate e o Boca Juniors".

O cérebro por trás desse plano para o futuro é uma das figuras mais imponentes do passado do Racing. Sua imagem está não em um mas dois pôsteres, nas paredes da escola de futebol.

Diego Milito conquistou dois títulos argentinos pelo Racing como jogador, embora seu maior sucesso no futebol tenha acontecido na Itália, onde ele comandava o ataque da equipe tricampeã italiana da Inter de Milão treinada por José Mourinho. Ele voltou ao seu clube de juventude para encerrar sua carreira, em 2014. Depois de parar, foi apontado para a secretaria técnica do Racing, o equivalente ao posto de diretor de futebol.

O objetivo de Milito, disse Huerta, era "fazer do Racing de novo um campeão". E ele está a ponto de consegui-lo. O Racing lidera a Superliga da Argentina, e seu primeiro título desde 2014 se aproxima. Mas a jornada do clube, dirigida por Milito, nada teve de ortodoxa.

"Durante todo o tempo que passou na Europa, Milito viu  como eles estavam trabalhando, e tentou adaptar algumas das ideias que encontrou", disse Huerta.

O trabalho dos "scouts" era essencial para isso. Um dos primeiros contratados de Milito foi Weiner, que trabalhava com seu pai, Gabriel., em sua "unidade técnica móvel", uma operação freelancer de avaliação de jogadores que trabalhava por encomenda para clubes europeus e da América do Norte.

"Prestávamos serviços para o Bayer Leverkusen, Udinese, Chicago Fire e alguns outros clubes", disse Javier Weiner. Torcedor do Racing, ele correu a aceitar a proposta quando Milito o procurou.

O percurso de Huerta foi um pouco diferente. Jornalista por formação, ele trabalhou por quatro anos para o jornal argentino Clarín, o maior veículos noticioso do país, antes de começar a trabalhar com Martí Perarnau, no passado atleta olímpico pela Espanha e hoje jornalista, escritor e biógrafo de Pep Guardiola.

A conexão entre Huerta e Perarnau lhe permitiu visitar diversos dos clubes mais progressistas da Europa.

"Conversei com pessoas do Dortmund, Sevilla, Barcelona, Olympique Marseille", ele disse. "Vi Zinedine Zidane quando ele treinava a equipe reserva do Real Madrid. Li 'Soccernomics' e 'Moneyball'. Eu fazia alguma ideia de como dirigir um clube".

Ele começou a analisar vídeos e a fazer trabalho estatístico para o Racing. Quando Milito chegou, percebeu o talento de Huerta para idiomas e o trouxe para sua equipe de assessores diretos. Agora, Huerta trabalha como contato entre o pessoal das estatísticas, o time principal e a escola de futebol.

"Antes não tínhamos uma estrutura", disse Huerta. "Agora temos uma visão clara do que desejamos que o clube seja".

O melhor paralelo que ele consegue encontrar é com um dos clubes que visitou em sua passagem pela Europa; o Sevilla, que conseguiu sucesso constante mesmo entre rivais de porte muito maior ao recrutar bem seus jogadores e vendê-los ainda melhor.

O Racing sempre teve boa reputação no desenvolvimento dos juvenis - o clube é conhecido como La Academia, na Argentina - e isso continua a ter posição central no plano de Milito. Em seu escritório na escola de futebol, Huerta tem um mapa de todas as áreas da Argentina na qual já buscou talentos.

Nunca houve escassez disso, é claro - "a Suíça sabe fazer relógios, e nós fazemos jogadores", disse Miguel Gomis, o veterano diretor da escola -mas também há a convicção de que esse trabalho poderia ser feito de maneira mais efetiva, mais confiável.

"Não vemos os erros que cometemos porque, por pior que façamos as coisas, os jogadores continuam a aparecer", disse Gomis.

Agora, o foco não está em "treinar talento" - a sequência interminável de jogadores criativos, de ataque, pela qual a Argentina  é famosa - mas em "posições conceituais", os papéis mais defensivos e cerebrais. "Queremos criar os jogadores de que o Racing precisa", disse Claudio Úbeda, treinador na academia. "Mas também os jogadores que a Europa quer".

O Racing está buscando essa matéria-prima com mais afinco que os rivais. Muitas vezes, é o único time que envia observadores a torneios juvenis internacionais. Começou a recrutar atletas na Colômbia, Peru e Venezuela.

De forma igualmente significativa, como diz Weiner, o Racing "formalizou" a outra ponta do processo. "Lembro de ter visto um par de loiros altos em meio aos torcedores, em um jogo", disse Weiner. "Eram observadores do Copenhagen, da Dinamarca. Não havia quem os ajudasse a conseguir ingressos para ver um jogador, e eles terminaram sentados atrás do gol. Isso foi algo que mudamos, agora".

Mas a mudança é tão recente que restam suspeitas sobre ela. O conceito de "scouting" continua a parecer estranho para muita gente. Colegas de outros times muitas vezes perguntam a Huerta por que ele perde tempo assistindo a jogos de divisões inferiores, ou acompanhando jogadores da Venezuela. Há céticos também dentro do clube. Mudar não é fácil, mesmo com um líder tão influente. A equipe que Milito construiu, porém, tem a coragem de suas convicções. O Racing pode ver o futuro - ou pelo menos sua versão caseira dele.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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