Goleiros da Copinha não recebem chances nos grandes do estado

Dos 39 usados por São Paulo, Palmeiras, Santos e Corinthians na década, 4 jogaram no profissional

Goleiro Caíque França, 23, foi escalado em cinco jogos com o time principal do Corinthians entre 2016 e 2017
Goleiro Caíque França, 23, foi escalado em cinco jogos com o time principal do Corinthians entre 2016 e 2017 - Daniel Augusto Jr. - 9.nov.2017/Ag. Corinthians
João Gabriel Luiz Cosenzo
São Paulo

S​anto de casa não faz milagre, até porque quase não joga. A adaptação do  ditado popular remete à dificuldade dos goleiros de Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo que já disputaram a Copa São Paulo nesta década.

A edição 2019 do torneio começa nesta quarta-feira (2).

Dos 39 goleiros que foram relacionados para a última partida de cada um dos clubes no torneio de 2011 a 2018, só 4 disputaram pelo menos um jogo por suas equipes como profissionais.

Quem mais deu chances foi o Corinthians, que colocou para jogar Matheus Vidotto e Caíque França quando teve necessidade, mas não permitiu uma sequência. Eles vivem à sombra de Cássio, que assumiu a posição em 2012, e do reserva Walter.

Goleiro titular na conquista do título da Copa São Paulo de 2012, Matheus Vidotto, 25, que chegou a ser convocado para a seleção principal por Felipão em 2013, ganhou a primeira oportunidade quatro anos depois da conquista. Em fevereiro de 2016, atuou em dois jogos do Paulista.

Desde então, não teve mais chances. Agora, procura clube para jogar após seu contrato ter expirado no fim de 2018.

Caíque França, 23, segue a mesma trajetória. Inscrito para as edições de 2013 e 2014 da Copa São Paulo, disputou cinco jogos com o time principal: uma vez em 2016 e quatro no ano passado. Em 2017, foi escalado nas vitórias sobre Avaí e Fluminense, que garantiram o título brasileiro.

Assim como o companheiro, Caíque também deixará o Corinthians. Com contrato até o fim de 2020, ele será emprestado ao Oeste, que disputa a Série B do Brasileiro e a elite do Paulista.

Palmeiras e Santos deram chance a apenas um goleiro no profissional. Reserva nas Copinhas de 2012 e 2013, Vinicius Silvestre, 24, fez uma partida pelo profissional da equipe alviverde contra o Santos pelo Brasileiro-2016. Na ocasião, foi escalado por causa de suspensão de Jailson e de lesão de Fernando Prass.

No ano passado, foi emprestado para a Ponte Preta. Agora jogará no CRB. O contrato com o Palmeiras vai até o fim de 2021. O Santos teve João Paulo, 23, em confronto com o Vasco, pelo Brasileiro-2017. Ele  foi escalado porque Vanderlei e Vladimir estavam lesionados. Hoje continua como terceiro goleiro —tem contrato até setembro de 2021—, mas sem perspectiva de jogar.

“Vejo como falta de oportunidade e analiso também que depende muito da situação do clube no momento. No São Paulo, o Rogério [Ceni] jogou por quase 20 anos em alto nível e, depois que ele parou, o clube não deu oportunidade para ninguém da base”, disse Haroldo Lamounier, que foi preparador de goleiros do São Paulo de 2003 até 2017 —hoje está no Fortaleza. ​

 

Para Lamounier, não existe uma idade certa para o profissional da posição estar preparado. Ele lembra o exemplo Alisson, titular da seleção brasileira desde os 23 anos.

Outro citado pelo preparador é Rafael Cabral, que jogou a Copa de 2009 pelo Santos. No ano seguinte, foi campeão da Copa do Brasil como titular após deixar para trás Felipe e Vladimir, revelados pelo time. Rafael ainda foi campeão da Libertadores em 2011. Duas temporadas depois, se transferiu para o Napoli (ITA).

“[A maturação] é do próprio atleta. Rogério e Marcos tinham aspectos de liderança e viraram titulares jovens [26 anos]. Quando o goleiro está acostumado a jogar na base, ele já tem a maturação necessária”, completou Lamounier.

Muitos goleiros do quarteto paulista que jogaram a Copinha nesta década optaram por serem emprestados assim que perceberam que as chances de jogar seriam remotas, enquanto outros foram até negociados com times estrangeiros. É o caso de Daniel Fuzato, 21, do Palmeiras.

Integrante do elenco que disputou a Copa São Paulo de 2016 e 2017, ele jamais atuou no profissional do clube, que tem todos os goleiros acima dos 30 anos (Weverton, 31, Jailson, 37, e Prass, 40). Fuzato foi negociado com a Roma (ITA) em julho.

Recentemente, o São Paulo também perdeu um goleiro de sua base. Após subir para o profissional em 2012 e não ter chances, Léo Navacchio saiu para Portimonense (POR) após ser emprestado para Sertãozinho, Oeste e América-RN. Lucas Paes, 21, outro do São Paulo, deve seguir o mesmo caminho. Ele está emprestado ao Toronto FC até o final de 2019.

Quem viveu situação parecida foi Richard, 27, atualmente no Paraná e na mira do Fluminense. Titular da equipe do Morumbi na conquista de 2010, quando defendeu três cobranças de pênaltis na decisão contra o Santos, ele subiu para o elenco profissional.

Sem chances de jogar, já que o titular era Rogério Ceni, foi emprestado  para União São João, América-SP e Paulista. A cada final de temporada retornava, mas não era aproveitado. Ficou sem contrato e rodou por Rio Claro, Água Santa, Operário e Paraná, com quem tem vínculo até 2020.

“No meu caso, a situação era mais difícil ainda porque o titular era e é o maior jogador da história do São Paulo. Eu poderia até jogar, mas teria que esperar muito. Com isso, resolvi arriscar. Rodei por vários clubes, mas hoje vi que a minha escolha foi importantíssima”, afirmou Richard.

Atualmente, o São Paulo vive situação semelhante com Lucas Perri, 21. Relacionado para a Copa São Paulo de 2016, ele ainda não jogou.

Considerado aposta para o futuro —tem contrato até abril de 2022—, é a terceira opção para a posição após a contratação de Tiago Volpi, que estava no Querétaro (MEX), e a permanência de Jean. Em 2018, estava atrás do próprio Jean e de Sidão, que se transferiu para o Goiás.

Se muitos goleiros são obrigados a sair para buscar espaço, outros param pelo caminho. Um deles é Guido Menezes Barreto, revelado pelo Santos e que passou pelas categorias de base da seleção. O jogador decidiu abandonar a carreira após atuar pelo Juazeirense (BA) em 2016.

“Na época, não tive contrato renovado com o Santos. Com 22 anos, estava na Juazeirense e vi que não tinha alcançado os objetivos. Resolvi mudar minha carreira. Fiz intercâmbio nos EUA, aperfeiçoei o inglês e retornei para fazer engenharia mecânica”, contou o ex-goleiro, que hoje é conselheiro de uma empresa de Mauá (na grande São Paulo).

A edição de 2019 da Copa São Paulo despejará outros tantos goleiros no mercado, já que terá a participação de 128 times. A final está programada para o dia 25 de janeiro.

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