Descrição de chapéu Futebol Internacional

Cristiano Ronaldo já foi o menino que quebrava janelas na Ilha da Madeira

Imagem do atacante da Juventus está em todos os lugares no Funchal, cidade em que nasceu

Cristiano Ronaldo, ainda menino, com uniforme do Nacional da Ilha da Madeira
Cristiano Ronaldo, ainda menino, com uniforme do Nacional da Ilha da Madeira - Divulgação/Associação de Promoção da Madeira
Alex Sabino
Funchal

Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, 33, é o maior nome da história da Ilha da Madeira, território português onde o futebol foi jogado pela primeira vez.

Cinco vezes eleito melhor do mundo e capitão da seleção no título da Eurocopa de 2016, seu nome é quase sempre venerado no Funchal, capital da ilha.

 

Quase sempre. Na rua Quinta do Falcão, no bairro Santo Antônio, um dos mais pobres da Madeira, Cristiano Ronaldo não tem sua imagem ligada apenas aos gols e troféus por Manchester United (ING) e Real Madrid (ESP)

“Ele era endiabrado. Quebrava várias janelas a chutar a bola e depois corria. Ele era bem miúdo e sua mãe nunca aceitava pagar o que o filho quebrava”, se recorda dona Regina (ela se recusou a dizer o sobrenome), apoiada com os dois braços na mureta de sua casa de madeira e tijolos, como várias outras da rua.

Como era também a que residia a família de Ronaldo.

A mesma reclamação é feita por outras pessoas da região do Caminho do Lombo, onde está a rua. A lembrança também está na escola básica Gonçales Zarco, o descobridor da Ilha da Madeira, onde o futuro atacante estudou. 

Péssimo aluno, os funcionários dizem que ele só pensava em futebol. De acordo com outros moradores do bairro, a mãe Maria Dolores dizia a todos que o garoto teria futuro no futebol. Era a aposta da família. Por isso ela ignorava os bilhetes de advertência que os professores mandavam sobre o desempenho escolar sofrível de Cristiano.

Pelo mesmo motivo ela proibiu todos os amigos de contar ao filho (então já no Sporting, em Lisboa) sobre os problemas de alcoolismo do pai, José Diniz, morto em 2005 por falência hepática e renal.

Maria Dolores temia que o filho largasse tudo e retornasse à Madeira. Ele já ligava várias noites por semana chorando de saudades, implorando para retornar.

“Isso foi um problema nos primeiros meses. Ele teve muita dificuldade para se adaptar. Pelo que me lembro, o padrinho teve de intervir”, lembra João Marques de Freiras, primeiro empresário do menino que anos depois entraria na lista dos maiores jogadores da história do futebol.

Fernão Barros Sousa era capitão do Andorinha, pequeno clube do Funchal, quando Cristiano nasceu. Foi escolhido como padrinho por José Diniz. 

“Tentei acalmá-lo. Mostrar que ele tinha de ficar em Lisboa e ver o que aconteceria porque tinha muito potencial. E sua mãe contava que ele ficasse e tivesse sucesso”, afirma Barros Sousa.

Ser da Ilha da Madeira foi um dos motivos que o fizeram querer deixar a capital portuguesa. Ronaldo era zombado por causa do sotaque carregado da sua terra natal. O tom forte, a fala rápida, juntando as palavras umas com as outras, fazia com que não fosse compreendido.

Cristiano Ronaldo perfilado com o time infantil do Nacional, ele é o primeiro agachado da direita para a esquerda
Cristiano Ronaldo perfilado com o time infantil do Nacional, ele é o primeiro agachado da direita para a esquerda - Divulgação/Associação de Promoção da Madeira

Ameaçou atirar uma cadeira em professora que riu dele por causa do jeito de falar. Ser compreendido no “continente” (como os madeirenses chamam os lugares fora da ilha), é um dos problema de vários nascidos no Funchal que vão para Lisboa.

Os lisboetas os zombam com a alcunha de “ilhéus”. Estes devolvem apelidando os nascidos na capital de “cubanos”. Não há uma explicação oficial para isso.

Amigos de Ronaldo dizem que para acabar com as brincadeiras que o irritavam, ele treinou sozinho, diante do espelho, seu jeito de falar até se aproximar do lisboeta.

Cristiano Ronaldo nasceu no Hospital Nélio Mendonça, no Funchal (em 1985, quando veio ao mundo, se chamava Hospital da Cruz do Carvalho), a 15 km do Largo da Achada. É onde está o monumento que diz “aqui se jogou pela primeira vez futebol em Portugal.”

Harry Hilton, o inglês que voltou à Madeira em 1875 após um ano de estudos na Inglaterra, trouxe na bagagem uma bola e foi a partir daí que o esporte começou no país. Ele é o sócio número 1 e presidente de honra do Marítimo, um dos três times profissionais da ilha e a equipe preferida de Cristiano Ronaldo quando criança. 

O banzo sentido pelo adolescente ao deixar Funchal aos 12 anos é típico do morador da Madeira. Os moradores de Funchal riem dos visitantes ignorantes no fato de que, por causa dos microclimas, a ilha pode ter as quatro estações no mesmo dia.

Duas décadas após ter deixado a ilha, Cristiano Ronaldo é nome de aeroporto, museu, hotel, praça e tem duas estátuas em sua homenagem. No Pestana CR7, que pertence a uma rede hoteleira que fez parceria com o jogador, funcionários dizem que ele é esperado para as festas de final de ano.

O seu museu, que fica ao lado do hotel, recebe cerca de 300 mil visitantes por ano, o que movimenta 1,5 milhão de euros (cerca de R$ 6,5 milhões). Nele estão todos prêmios de melhor do mundo recebidos pelo craque, assim como réplicas dos troféus da Champions League e Eurocopa

Em nome do futebol, seus pais não deram importância às reclamações dos vizinhos e às advertências dos professores do Funchal. Não seria um padre a receber atenção diferente. Esta é a história mais famosa da infância de Ronaldo, embora na igreja Nossa Senhora da Graça, onde a criança foi batizada, os fiéis mais antigos não gostem de tocar no assunto. 

Fernão Barros de Sousa, o padrinho, e o pai chegaram atrasados para a cerimônia de batismo porque o Andorinha jogava naquele sábado à tarde. José Diniz era o roupeiro do time.

“Chegamos com mais de uma hora de atraso e o padre não queria fazer o batismo. Insistimos muito até que ele aceitasse. Estava furioso”, se diverte hoje em dia Fernão. “Já contei essa história muitas vezes e ainda acho divertida.”

Era o tempo em que, para a família e amigos, o menino chamado de Cristiano por pedido de uma tia e Ronaldo por causa do ex-presidente americano Ronald Reagan era apenas “Roni”. 

Na infância, ao jogar bola nas ruas de Santo Antônio, ao quebrar janelas ou não, nas partidas amadoras com amigos ou no Atrapalhança, torneio infantil organizado na região, ele ganharia outro apelido. Seria conhecido apenas como “menino chorão.”

Cada vez que perdia uma partida ou as coisas não aconteciam como esperava, ficava inconsolável em campo. Característica que não mudaria com o passar dos anos.

 
Estátua de Cristiano Ronaldo no Funchal, na Ilha da Madeira
Estátua de Cristiano Ronaldo no Funchal, na Ilha da Madeira - Divulgação

“Eu o vi jogar pela primeira vez no Atrapalhança e era técnico do time de Câmara de Lobos [outra cidade da Ilha da Madeira]. Eliminamos o Andorinha e lembro que uma criança de dez anos estava a chorar muito em campo. Não parava. Era o Cristiano. Era curioso porque ele era muito melhor do que os outros. Logo em seguida fui contratado pelo Nacional e pedi que ele fosse para a nossa equipe”, afirma Pedro Talhinhas, o primeiro técnico do atacante no Nacional da Ilha da Madeira.

Segundo Talhinhas, o que mais impressionava em Ronaldo, mesmo quando menino, era sua reação ao tocar na bola. Sempre olhava para o gol, antes de qualquer coisa. 

Dois anos depois, em 2012, ele foi descoberto pelo Sporting, que teve de perdoar uma dívida de 25 mil euros (cerca de R$ 110 mil em valores atuais) do Nacional obter a liberação do jogador. 

Há moradores da Quinta do Falcão que ainda lembram de Maria Dolores saindo com o menino Cristiano para ir ao centro de Funchal comprar roupas para a viagem a Lisboa. Seria a última vez que ele estaria na Ilha da Madeira sem que as pessoas soubessem quem ele era. 

O jornalista viajou a convite do Turismo da Madeira, órgão do governo local  

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