Descrição de chapéu New York Times

Infantino enfrenta oposição da Europa para aumentar o Mundial de Clubes

Dirigente tem proposta de US$ 25 bilhões para criar dois torneios internacionais

Tariq Panja
Nova York

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, planeja reordenar o futebol mundial, mas seus esforços vêm sendo bloqueados por um inimigo conhecido: a Europa.

Desde que propôs diversas mudanças importantes no calendário do esporte, no primeiro trimestre do ano passado, Infantino tem dedicado meses a viagens pelo mundo, nas quais promove conferências de cúpula locais com os líderes das 211 federações nacionais de futebol que integram a organização. O objetivo dele é conquistar apoio à proposta de lançar dois novos torneios –um Mundial de Clubes expandido e uma nova liga de seleções nacionais– que seriam bancados por uma oferta de US$ 25 bilhões de um grupo de investidores liderado pelo conglomerado japonês SoftBank.

Esse exercício de persuasão se segue a repetidos fracassos de Infantino quanto a forçar a aprovação da proposta no Conselho da Fifa; caso as mudanças sejam aprovadas, seriam as maiores a acontecer no futebol em uma geração, e sua adoção –bem como a injeção multibilionária de capital nos cofres da Fifa –  daria a Infantino um sucesso muito visível em sua campanha para conquistar um novo mandato à frente da organização, neste ano.

Todas as reuniões no giro internacional de Infantino, incluindo a mais recente, realizada em Marrakech, no Marrocos, contaram com a presença de pelo menos 50 presidentes de federações, das seis confederações regionais do futebol mundial. Ao final de cada reunião, os participantes recebem tablets e são solicitados a marcar suas opções preferidas para os novos torneios. 

O problema de Infantino é que os dirigentes europeus que participaram das reuniões se recusam teimosamente a expressar quaisquer opiniões. Em lugar disso, dizem ao presidente da Fifa e ao seu pessoal que as opiniões de Alexander Ceferin, o presidente da Uefa, a organização que comanda o futebol europeu, representam sua posição.

Alguns dos europeus se recusaram a expressar opiniões porque as opções para o Mundial de Clubes não incluem não realizar o torneio, que muitas vezes representa um incômodo para o campeão da Europa participante. Nos tablets da Fifa, os participantes são convidados a escolher entre três opções: torneios com 16, 24 ou 32 clubes.

Ceferin, que está sendo pressionando pelos clubes e federações da Europa, teve confrontos repetidos com Infantino quanto às mudanças propostas, tanto no Mundial de Clubes quanto no calendário mais amplo do futebol mundial, e Ceferin em geral está insatisfeito com novas iniciativas que poderiam representar ameaça a torneios existentes, como a sua Champions League, e aumentar a carga de trabalho dos jogadores.

"Não posso aceitar que pessoas que foram cegadas pela busca do lucro estejam considerando vender a alma dos torneios de futebol a nebulosos fundos privados", disse Ceferin em um discurso em maio. "O dinheiro não manda –e o modelo do esporte europeu deve ser respeitado. O futebol não está à venda. Não permitirei que qualquer pessoa sacrifique suas estruturas no altar de um mercantilismo altamente cínico e impiedoso".

O presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, participa de coletiva de imprensa após reunião do Comitê Executivo da entidade
O presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, participa de coletiva de imprensa após reunião do Comitê Executivo da entidade - Paul Faith - 3.dez.18/AFP

Infantino apresentou inicialmente seus planos para um Mundial de Clubes na reunião do Conselho da Fifa em Bogotá, em março de 2018. Mencionando um acordo de confidencialidade, ele se recusou a identificar os proponentes financeiros da proposta, que, ao que se sabe, incluem não só o SoftBank, mas dinheiro do Oriente Médio, que Infantino mais tarde negou estar associado a fundos nacionais de investimento da região –a Arábia Saudita continua a ser o maior participante do Vision Fund, do SoftBank, o maior fundo de capital privado já constituído. Em lugar disso, Infantino pressionou o conselho que o autorizasse a concluir o acordo sem supervisão.

Os líderes europeus presentes refugaram, e Ceferin e Infantino não se reúnem desde a conferência da Colômbia. Em outubro, dirigentes europeus ameaçaram abandonar a mais recente reunião do presidente da Fifa quando Infantino deu a entender que pretendia convocar uma nova votação.

A votação não ocorreu; em lugar disso, a Fifa formou um grupo de trabalho com representantes das seis confederações e o encarregou de produzir um plano aceitável em tempo para a reunião do conselho da Fifa marcada para março em Miami.

 

Na reunião mais recente, em Marrakech, Infantino expressou frustração quanto aos dirigentes que se recusam a votar sobre seus planos, de acordo com diversos dos presentes.

"Como parte da discussão, as pessoas são convidadas a expressar sua opinião sobre uma série de propostas, e, como em qualquer processo de consulta democrática, todos os membros podem expressar sua opinião livremente", a Fifa declarou em comunicado. "O feedback recebido será encaminhado ao conselho, em companhia dos resultados de outras plataformas de consulta".

O grupo de trabalho da Fifa sobre os dois torneios realizará sua próxima reunião em 21 de fevereiro, no Rio de Janeiro. Mas com a intensificação das tensões, há a chance de que os representantes europeus não compareçam, de acordo com uma pessoa informada sobre os planos dos dirigentes continentais.

A Uefa se recusou a comentar.

A proposta de criar um Mundial de Clubes expandido e uma Liga das Nações, semelhante à que a Uefa criou recentemente, contam com o apoio dos dirigentes da América do Sul, Ásia e África, e isso deve bastar para garantir a vitória em uma votação caso Infantino a convoque na reunião de março. Mas fazê-lo agravaria a cisão cada vez mais grave entre a Fifa e a Europa e poderia causar uma crise ainda mais grave, caso os clubes e as federações mais poderosos do continente se recusem a participar dos novos torneios propostos pela Fifa.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

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