'Jogar futebol feminino é estar do lado das minorias', diz goleira da seleção

Após concluir mestrado nos EUA, jogadora sonha em disputar Mundial da França

Sérgio Rangel
Rio de Janeiro

Aline Reis deixou o Brasil aos 18 anos para tentar conciliar duas paixões: o estudo e o futebol.

Nesse período, a goleira de 29 anos se formou na UCF (University of Central Florida), concluiu mestrado em esporte na mesma instituição e jogou até na Finlândia.

Agora, ela disputa uma vaga na seleção brasileira que vai participar da Copa do Mundo da França, em junho.

Com um perfil acadêmico raro no futebol, Aline é feminista e fã de Michele Obama (ex-primeira-dama dos EUA).

Aline Reis posa para foto após treino da seleção feminina em Teresópolis
Aline Reis posa para foto após treino da seleção feminina em Teresópolis - Ricardo Borges/Folhapress

Em entrevista à Folha, a atleta do Granadilla Tenerife, da Espanha, disse que sofreu preconceito por jogar futebol e criticou os apoiadores do discurso machista do presidente Jair Bolsonaro.

“O que me preocupa não é o Bolsonaro, mas a legião de pessoas que gostam e sentem prazer de ouvir uma declaração dessa [ao ser questionada sobre o que sentiu quando o presidente disse que deu uma ‘fraquejada’ ao ter uma filha mulher]”, disse a goleira.

“Mas ele mostra a realidade do nosso Brasil, que ainda é um país racista, preconceituoso. As mulheres ainda estão em uma posição muito delicada, mas tudo evolui”, acrescentou.

Empoderada, a goleira nascida em Campinas afirmou que “jogar futebol feminino é estar do lado das minorias”.

 

Você é uma das raras atletas no Brasil que tem mestrado. Como você conseguiu conciliar o esporte e os estudos? Jogava futebol no Guarani desde os 12 anos. Quando completei 18, a situação do futebol feminino era bem diferente. Ao terminar o Ensino Médio, tinha que escolher entre o futebol e a carreira acadêmica. Isso acontece muito com os jogadores aqui no país.

Mas apareceu o convite dos EUA, que era a oportunidade perfeita. Fiquei por cinco anos lá estudando e jogando. No meu caso, o futebol acabou me ajudando.

Me formei em estudo interdisciplinar, que se aprofunda em três áreas: educação, saúde e sociologia. Em seguida, fiz o mestrado de treinadora.

Quando encerrar a carreira, quero muito continuar trabalhando no futebol.

E como era na sua infância jogar futebol no Brasil? Você sofreu muito preconceito? Comecei aos 9 anos em escolinhas. Naquela época, jogava com os meninos. Quando fiz 12 anos, fui para o Guarani. 

Sempre teve preconceito. Ouvia que era mulher macho. Mas sempre tive apoio da família. Isso foi muita sorte. Tem algumas atletas que sofrem pressão dentro de casa. É a pior coisa que pode acontecer. Já o que vem de fora você tampa o ouvido e acabou. Mas as mulheres estão se empoderando. É empoderamento feminino que se diz no Brasil, né? Hoje em dia estamos mostrando o machismo e o preconceito. As mulheres estão mais fortes e têm voz. O preconceito ainda existe. A Espanha, onde jogo atualmente, também é preconceituosa com relação ao futebol feminino.

Você é feminista? Uma mulher que não é feminista não entendeu o feminismo. Como não posso estar do meu próprio lado? As pessoas confundem o feminismo como o oposto do machismo. E não é isso. A mensagem do feminismo não é que somos melhores que os homens. Claro que não. Queremos mostrar que somos iguais. Queremos igualdade, respeito e oportunidade. 

Vivendo dez anos nos Estados Unidos vi que esse discurso é muito presente na sociedade lá. As pessoas entenderam que para mudar alguma coisa é preciso entender que o problema existe, falar a respeito e achar soluções. Com certeza, sou feminista.

Quando você começou a se empoderar? Quando fui para os Estados Unidos para estudar, há uns 10 anos. Já se falava muito nisso, na luta das mulheres pelos seus direitos, buscar igualdade. Isso foi muito presente quando estive lá. E foi num momento perfeito para mim. Tinha 18 anos. Me conscientizei lá. Cheguei a participar de uma marcha linda em Los Angeles, quando trabalhava na UCLA. A nossa treinadora levou o time inteiro para participar.

O presidente Jair Bolsonaro disse que deu uma “fraquejada” quando teve a filha mulher. O que você acha? O que me preocupa não é o Bolsonaro, mas a legião de pessoas que gostam e sentem prazer de ouvir uma declaração dessa. Mas ele mostra a realidade do nosso Brasil, que ainda é um país racista, preconceituoso. As mulheres ainda estão numa posição muito delicada. Mas tudo evolui. Apesar disso tudo, tenho orgulho de ser brasileira. Quero muito jogar a Copa do Mundo pela seleção. Acredito que para melhorar algo sempre tem que ficar pior. Se Deus quiser está ficando pior agora para melhorar lá pra frente.

 

Você votou em quem para presidente? Não votei. Estava na Espanha jogando. Nesta campanha, mesmo estando de longe, vi muito ódio. Muita separação. Coisas muito feias. Também fiz campanha a favor do amor, do respeito, da diversidade. Infelizmente, aconteceu o que aconteceu. Agora é fazer cada um a sua parte para que o Brasil fique cada vez melhor.

Nos EUA, as estrelas de Hollywood lutam pela igualdade salarial. Você é a favor de pedir aos dirigentes da CBF a mesma premiação que os jogadores ganhariam pela conquista da Copa da Rússia? É um pouco diferente. O público do futebol feminino e masculino não tem comparação. Basta ver o valor dos ingressos, os direitos de transmissão. Não tem como comparar e pedir a mesma premiação dos homens. Mas não é isso que nós queremos quando falamos em igualdade. O valor da premiação é a nossa última preocupação. O que queremos é estar na mídia como os homens. Falar do futebol feminino, gerar o interesse das pessoas, trazer mais gente para o campo. Aí é que se cria a bola de neve, que vai afetar todos os fatores, inclusive o financeiro. Isso é a igualdade de oportunidade que pregamos. 

Cite uma mulher que você admira. Eu admiro muito a Michelle Obama. Estou lendo o novo livro dela [“Minha História”]. Ela tem uma história muito bonita e esteve sempre do lado das minorias. Queria conhecer muito a família Obama. E jogar futebol feminino é estar do lado das minorias. Escolher ser atleta mulher é estar do lado das minorias independentemente do esporte em qualquer lugar do mundo.

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