Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro

Nova distribuição do Brasileiro na TV força clubes a reorganizar finanças

Contratos com Globo e EI preveem receitas flexíveis e mudança no fluxo de pagamento

João Gabriel
São Paulo

Começa neste ano um novo modelo de transmissão do Campeonato Brasileiro. A principal novidade é a entrada do Esporte Interativo como concorrente da Rede Globo na exibição dos jogos na TV fechada.
Também foi alterada a forma de distribuição das receitas dos direitos televisivos. Assim, os clubes precisarão se adaptar financeiramente.

Para TV aberta e fechada, a Rede Globo acordou o pagamento total de, respectivamente, R$ 600 milhões e R$ 500 milhões anuais. Desse valor, 40% será dividido igualmente entre os times, 30% de acordo com a posição final na tabela e os outros 30% proporcionalmente ao número de partidas transmitidas.

De todo o dinheiro arrecadado pela emissora com o pay-per-view (PPV), 38% será revertido aos clubes. A distribuição será feita de acordo com o tamanho de cada torcida, verificado via pesquisa feita no mês de julho anterior ao ano em questão e informado aos clubes previamente.

Câmera de transmissão durante partida entre Corinthians X Independiente Santa Fe, da Colômbia, válida pela fase de grupos da Copa Libertadores da América, na Arena Corinthians na zona leste de São Paulo
Câmera de transmissão durante partida entre Corinthians X Independiente Santa Fe, da Colômbia, válida pela fase de grupos da Copa Libertadores da América, na Arena Corinthians na zona leste de São Paulo - Eduardo Anizelli-2.mar.16/Folhapress

No modelo antigo, os contratos com a Globo eram de valor fixo, parcelado igualmente nos 12 meses do ano.

Agora, a quantia por desempenho será paga ao final do torneio, e a referente às transmissões, mensalmente, a partir do início do Campeonato Brasileiro (abril ou maio).

Assim, até abril os clubes receberão somente pelo PPV e pela fatia igualitária, receitas pagas mensalmente durante todo o ano. Além disso, os pagamentos passam do primeiro para o último dia de cada mês.

Sob a perspectiva de um orçamento mais apertado no começo da temporada, foi feito um ajuste, a pedido dos clubes, para que 3/4 do valor comum a todos seja paga de janeiro a junho.

Mesmo assim, até maio a verba mensal oriunda dos direitos de TV deve ser menor que no modelo antigo.
Flamengo e Corinthians, por exemplo, receberam cerca de R$ 14 milhões por mês em 2018. Com o novo modelo, a quantia diminuirá no início do ano.

Apesar de ser impossível quantificar o déficit em valores exatos (uma vez que os números de PPV não são divulgados), somando os 40% divididos igualmente, mais os direitos de transmissão internacional e a receita de placas de publicidade, a renda seria de R$ 3,9 milhões por mês.

Quem deve ver um aumento na renda desde o início (além dos quatro clubes promovidos para a série A) são equipes como a Chapecoense e o Ceará, que até então tinham contratos baixos com a Globo e passarão a receber, ainda sem contar o PPV, R$ 3,4 milhões. A diferença em relação a Flamengo e Corinthians se dá pelo valor inferior recebido no acordo das placas.

A partir do primeiro pagamento pelas transmissões, quem aparecer mais na televisão tende a equilibrar as contas mais rapidamente.

Vale lembrar ainda que, a partir de julho, as parcelas mensais do que foi dividido igualmente diminuem em cerca de R$ 9 milhões. A salvação pode vir somente em dezembro, com as receitas pelo desempenho: R$ 11 milhões para o 16º e R$ 33 milhões para o campeão, por exemplo. Os rebaixados não recebem nada.

Para Cesar Grafietti, consultor financeiro que produziu com a empresa Ernst & Young um estudo sobre os efeitos do novo modelo da Rede Globo, a mudança de receitas “pressiona o caixa ao longo do primeiro semestre”.

“Como parte [das receitas] é variável e incerta, fica mais difícil obter adiantamentos baseados nessa fonte, dificultando ainda mais a gestão dos clubes mais apertados”, explica.

Os clubes que fecharam contrato de TV fechada com o Esporte Interativo também terão que se reorganizar. O fluxo com o Grupo Turner funcionará da seguinte maneira: 50% do acordo de R$ 520 milhões serão divididos igualmente, 25% pela audiência e 25% pela colocação final.

Esses 50% serão pagos em três parcelas iguais, até o mês de julho. Já a outra metade será paga ao fim do campeonato.

“Os clubes que assinaram com a Turner podem receber um valor ligeiramente superior aos demais no que seria a parte da TV fechada, mas muitos foram penalizados na TV aberta. Desta forma tendem a ter valores parecidos”, diz Grafietti.

A Globo reduziu os valores para TV aberta no contrato daqueles times acordados com o Esporte Interativo.

Carlos Fabel, diretor financeiro do Atlético-MG, projeta uma temporada apertada e “um primeiro semestre de muito arrocho para todos”. 

“Independentemente deste novo fluxo, teremos um ano muito complicado financeiramente para os clubes, mais complicado que 2018. Os clubes receberam muitas luvas no passado e gastaram essas luvas. Agora vem a nova cota, a máquina não tem mais luva, novo contrato até 2024, crise econômica, receitas de bilheteria baixas, [...] vai travar”, prevê.

Há ainda o cenário de Palmeiras e Athletico-PR, que até agora fecharam acordo só com o Esporte Interativo.

Mário Celso Petraglia, presidente do Conselho Deliberativo atleticano, disse que o clube procura meios de compensar o déficit de não ter transmissões em TV aberta e PPV.

“Vamos buscar um parceiro que nos sustente até a mudança na legislação. Tem a nova tecnologia, essa parte do streaming, o mercado vai mudar. A expectativa é que tudo se reacomode rapidamente”, declarou Petraglia.

A mudança citada seria na Lei Pelé, que em seu 42º artigo diz que uma partida só pode ser exibida se a emissora tiver os direitos das duas equipes envolvidas no páreo.

“Há uma negociação em andamento”, disse o Palmeiras.

Em nota, a Rede Globo afirmou que o novo modelo “endereça mais equilíbrio a aspectos relacionados à meritocracia esportiva e comercial de maneira consistente”.

O Esporte Interativo declarou que a empresa está disposta “a ajudar as equipes, mas a administração financeira e a avaliação de cenários é feita pelos próprios clubes”.

O Campeonato Brasileiro começa no dia 28 de abril.

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