Pistas no quintal de casa impulsionam nova geração de skatistas em Floripa

Referência na modalidade olímpica park, cidade recebe estreia do circuito nacional em 2019

Yndiara Asp faz manobra em bowl durante a disputa da etapa do Skate Total Urbe (STU), em Florianópolis
Yndiara Asp faz manobra em bowl durante a disputa da etapa do Skate Total Urbe (STU), em Florianópolis - Júlio Detefon/Divulgação
 
Daniel E. de Castro
São Paulo

Não é coincidência que os principais skatistas do país na modalidade park, presente no programa olímpico dos Jogos de Tóquio-2020, sejam de Florianópolis.

A capital de Santa Catarina é a maior referência nacional das pistas de bowl (em formato de piscina), elemento central desse estilo.

A cidade recebe desde quinta (24) a primeira etapa da temporada 2019 do Skate Total Urbe (STU), o circuito nacional do esporte. Os melhores colocados ao longo do ano formam a seleção brasileira e contam com apoio da Confederação Brasileira de Skate na preparação para a Olimpíada.

Neste sábado (26), a partir das 12h25, acontecem as semifinais masculinas e a final feminina (com transmissão do SporTV) do STU. No domingo, às 10h, a decisão masculina (exibida na Globo).

A relação de Florianópolis com o skate se fortaleceu nos anos 1990. Nessa época, adeptos do esporte e também surfistas que aderiram a ele vindos de outros locais do Brasil se juntaram a moradores da cidade e disseminaram a prática principalmente no bairro Rio Tavares.

O local, afastado do circuito turístico da cidade e então pouco habitado, foi um grande achado para comprar terrenos baratos e de quebra construir pistas neles. Hoje estima-se que mais de 30 casas na região tenham pistas particulares.

Em um período de popularidade do street —a outra modalidade olímpica, com rampas, escadas e corrimões— no país, quem preferia os bowls encontrou seu local de resistência.

Em 1996, um campeonato da modalidade vertical organizado pela marca Drop Dead na Praia Mole também ajudou nesse processo. Segundo Carlos Eduardo Dias, CEO da empresa, foi um momento de união com o surfe, que resultou em mais visibilidade para o skate e novos praticantes, muitos deles crianças.

André Barros, pai de Pedro Barros, atualmente o principal skatista do país e campeão mundial de park em 2018, foi um dos que ergueram sua primeira pista —hoje são três, que abrem ao público três vezes por semana—​ no local. Assim, Pedro começou logo cedo a sua trajetória.

Quem seguiu o mesmo caminho foi Rafael Bandarra. O espaço onde ele construiu um bowl em 1997 se transformou anos mais tarde em uma pousada voltada para o esporte, a Hi Adventure.

Léo Kakinho, destaque do skate brasileiro nos anos 1980, também havia se mudado para Florianópolis, o que contribuiu para que a modalidade se estabelecesse na cidade.

Nos últimos anos, os filhos de integrantes desse movimento começaram a se destacar em competições nacionais e internacionais, como Pedro Barros, Vi Kakinho e Isadora Pacheco.

Esta última, uma adolescente de 13 anos, começou a andar de skate aos 5, na mesma época em que uma turma feminina foi aberta na escolinha da Hi Adventure. A pousada, localizada na mesma rua em que ela mora, se tornou seu local de treinamento.

No ano passado, Isadora terminou a temporada do STU em segundo lugar e garantiu vaga na seleção brasileira de 2019.

Seu pai, o empresário Alexandre Pacheco, também viveu a transformação do Rio Tavares e agora incentiva a carreira da filha, que ganhou uma nova dimensão com a criação do circuito nacional e a entrada do esporte na Olimpíada.

"A gente não tinha ideia de que viraria tudo isso. O crescimento da cena surpreendeu, sempre andamos porque dava prazer. O mais legal é poder acompanhá-la em um ambiente que também é agradável para mim", afirma.

Para ser uma das representantes mais novas da seleção e ter chances de disputar a Olimpíada de Tóquio aos 15 anos, Isadora já vive uma rotina intensa de treinos e competições. Os pais apoiam, mas cobram que os estudos não fiquem de lado.

"Ela tem uma força mental boa, consegue lidar bem com a pressão. Nas horas em que a coisa aperta ela consegue tirar o melhor. A gente sabe que tem uma expectativa, mas não fica trabalhando nisso", diz Alexandre.

Outra representante de Florianópolis é Yndiara Asp, 21, líder do STU no ano passado e principal nome brasileiro no park entre as mulheres.

Ela não começou tão cedo no esporte. Foi aos 15, quando passou a frequentar a casa de amigos que tinham construído bowls, que Yndiara se aproximou do movimento do Rio Tavares e se inseriu na cena local.

Com a entrada do skate no programa olímpico e o aumento na quantidade de competições nacionais e internacionais, ela conta que viveu em 2018 o melhor ano da vida.

"Uma competição atrás da outra, estou adorando. Meu sonho é esse, viajar e andar de skate. Chegar à Olimpíada vai ser irado, mas o caminho até lá vai ser mais ainda", diz.

Com Yndiara, Isadora, Pedro Barros e outros destaques nacionais, o STU é realizado no Skatepark da Costeira Pirajubaé.

Uma das poucas pistas públicas de Florianópolis, o local passou por grande reforma recentemente. O projeto foi desenvolvido por Léo Kakinho e teve o envolvimento dos skatistas da região.

O evento, que além da competição conta com shows de artistas locais e uma exposição, tem entrada gratuita.

COMO FUNCIONA A CLASSIFICAÇÃO PARA OS JOGOS DE TÓQUIO-2020

Número de competidores:
20 na categoria street feminina
20 na categoria street masculino
20 na categoria park feminina
20 na categoria park masculino

Em cada evento há o limite de 3 representantes por país e o mínimo de 1 skatista por continente. O Japão tem vaga garantida em cada um deles.

Park
A categoria reúne vários elementos construídos para a prática do skate, como rampas, paredes e bowls (pista com formato de piscina).

Street
A categoria simula a paisagem urbana, com bancos, escadas, corrimões e calçamento como espaços de manobras.

Mundiais
Os três primeiros colocados dos campeonatos mundiais da temporada 2020 já estarão classificados.

Ranking
Levará em consideração eventos nacionais, continentais e mundiais disputados de 1º de janeiro de 2019 a 31 de maio de 2020. Serão considerados os três melhores resultados da temporada 2019 (até 15 de setembro) e os seis da temporada 2020 (de 16 de setembro até 31 de maio).

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