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A raquete me salvou, afirma Larri Passos sobre luta contra câncer

Ex-técnico de Guga falou pela primeira vez sobre a doença durante homenagem no Rio Open

Larri Passos senta na quadra e discursa durante a homenagem que recebeu no Rio Open
Larri Passos discursa durante a homenagem que recebeu no Rio Open - Fotojump - 20.fev.19/Rio Open
Daniel E. de Castro
São Paulo

​Homenageado no Rio Open na quarta (20), o técnico de tênis Larri Passos, 61, surpreendeu ao dizer que no ano passado lutou contra um câncer de próstata, informação que poucas pessoas do meio esportivo conheciam até então.

Marcado principalmente pelo seu trabalho com o tricampeão de Roland Garros Gustavo Kuerten, Larri hoje vive na Flórida (EUA), onde trabalha como consultor de tenistas e comentarista na TV. O técnico mantém ainda uma academia em Camboriú (SC).

Depois de ter recebido a notícia de que estava livre da doença e um dia após a homenagem no Rio, Larri afirmou à Folha estar aliviado e com muitos projetos para realizar: “Poxa vida, eu ainda tenho tanta coisa para dar”.

 

Câncer é uma palavra muito forte. Quando descobri, conversei com minha esposa e minhas duas filhas e falei: quero compartilhar com vocês que estou com câncer e gostaria que não fosse divulgado, é uma coisa minha. Foi muito duro para a família.

Conversei também com o Guga, mas não queria divulgar para a imprensa. Achei que tinha que fazer isso e no fim falar que recebi um presente de Deus, que ele queria que eu tivesse essa experiência. Passei a minha vida inteira me dedicando a outras pessoas, e parece que Deus disse: agora tu tens que cuidar de ti.

Quando saí do consultório fui até um santuário perto da minha casa e perguntei: por que eu, Deus? Qual é a tua?

Foi um choque, porque tenho uma família, muitos projetos, sou um cara jovem. Primeiro foi uma revolta muito grande, mas depois pensei: por que não eu? Eu também tenho o direito de ter câncer.

A partir dali foi uma luta interna muito grande. As pessoas perguntavam o que eu tinha, e eu dizia que minha próstata tinha aumentado e entrado dentro da bexiga, mas nunca comentei com ninguém que estava com câncer.

Duas semanas depois da operação, eu entrei no ar para transmitir jogos [como comentarista do canal Sony]. Antes da operação, viajei para torneios, firme, mentalizando que ia dar tudo certo. Coloquei um substituto para ajudar o Guilherme [Clezar], que estava treinando na época, mas nunca falei para ele.

Eu operei no dia 17 de abril. Um dia antes da cirurgia, o Guga chegou e ficou comigo a noite inteira, e depois no hospital. Então foi muito bacana, um elo muito grande.

Primeiro fizemos 20 minutos de bicicleta e ele disse que eu estava numa forma incrível. Antes de ir para o hospital ainda fizemos um circuito na piscina. Não falamos muito sobre a operação.

Observado por Thiago Monteiro e Guga, Larri Passos discursa no Rio
Observado por Thiago Monteiro e Guga, Larri Passos discursa no Rio - Fotojump - 20.fev.19/Rio Open

A recuperação é aparentemente tranquila, mas para mim não foi muito. Como mexeu muito na bexiga, tive que usar o cateter por três semanas. Tive que ficar quatro dias a mais no hospital, minha hemoglobina baixou.

O médico falou que se eu quisesse viajar para torneios poderia, mais depois de setembro faltavam 20 radiações e decidi não viajar mais para fazer perfeito esse final.

Tive que tomar quatro injeções para expulsar a célula cancerígena, e a última foi com o lupron, que é um bandido, o remédio mais odiado pelas pessoas. Você chega a ter quatro, cinco, seis hot flashes [calor intenso e repentino comum a pacientes com câncer], acorda com dor nas articulações. Agora que estão passando as dores.

Uma lição que eu gostaria de passar para todos é que o câncer odeia chá verde e o esportista. Durante a recuperação, eu chegava a tomar dois litros de chimarrão. Ficava ali meditando, então é uma experiência que realmente gostaria de passar para as pessoas. Foi o esporte que me fez ficar.

No mês passado fiz o último exame, e agora estou zero, não tem mais nenhum resquício de câncer. Agora é só correr e suar para tirar a química que entrou no meu corpo.

Fico muito feliz, e ter falado naquele momento [durante a homenagem no Rio] foi uma coisa muito íntima. Quando recebi a notícia de que seria homenageado, pedi uma semana para pensar. Será que eu merecia essa homenagem? Depois que eu vi todas as imagens do meu trabalho [exibidas no telão], pensei: acho que mereço.

Hoje [quinta, 21], um dia depois, eu estou num alívio tão grande para a minha cabeça. Vai fazer um ano, e não ter divulgado, não ter falado para ninguém, e agora poder falar para as pessoas que elas acreditem, que façam tudo certo.

Meus amigos me abraçaram, perguntaram por que eu não tinha falado com eles. Eu achava que poderia ser visto como marketing, não queria isso. Queria passar pela minha experiência e depois poder contar para as pessoas.

Quando entrei na quadra, eu toquei a mão no saibro, porque quando eu tinha 14 anos eles me botaram para carregar barro em Novo Hamburgo (RS) para construir as quadras. A gente fazia concurso para ver quem carregava mais. Eu era garotão, já jogava tênis, e era aquela luta de carregar para construir a quadra.

Aquela imagem veio na minha cabeça. Comecei carregando saibro e agora estou numa quadra de saibro recebendo essa homenagem. Então passei a mão no saibro porque ele simboliza muito para mim. Continuo pensando que a raquete me salvou.

Eu queria homenagear [na cerimônia] muito os pais. Eles são as pessoas mais importantes na carreira dos esportistas. Depois homenageei a pessoa que me deu a minha primeira raquete, Adanilo Müller. E no final eu quis fazer uma homenagem a todos os professores e técnicos de tênis. Para mim, o Brasil tem os melhores professores de tênis do mundo, mas muitas vezes o processo não sai como tem que ser.

Encontrei o Guga em dezembro e falei que acho que nosso caminho ainda não terminou. Nossa relação é surreal, ele estar com essa empolgação o tempo inteiro, sempre buscando uma maneira de ajudar o tênis brasileiro.

Uma coisa que estou adorando fazer é consultoria. Eu faço duas, três semanas com o jogador, e depois o técnico dele segue. Hoje eu não me vejo viajando 40 e tantas semanas como fazia antes.

Existe essa possibilidade de continuar fazendo consultoria e também de comentar o tênis feminino nos EUA, ainda estou aguardando. Gostaria de continuar trabalhando com um projeto de transição para a carreira profissional.

Quando tem torneio, eu começo a assistir às 4h e olho até as 18h. Meu vizinho pergunta se eu não enjoo de tênis, digo que não, que eu tenho que ficar analisando. Eu amo tênis, e a minha visão é incrível.

Poxa vida, eu ainda tenho tanta coisa para dar. Estive fazendo uma palestra em Campinas, foi uma experiência fantástica, mas essa parte de ser palestrante... Gosto mesmo de estar na quadra. Vou sempre pender para o lado da quadra.

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