Futevôlei ganha popularidade em SP e vive boom de quadras

Surgido no Rio de Janeiro, esporte já conta com mais de dez quadras na cidade

O professor Bello Soares e a campeã paulista de 2019 Tatiana Pena jogam futevôlei na Zona Sul de São Paulo - Eduardo Knapp/Folhapress
Barbara Bigarelli
São Paulo

Às 8h30 de uma terça-feira de janeiro, sob um sol já escaldante, homens e mulheres tocam bola na areia, de pés descalços. Poderiam estar na praia. Mas o jogo ocorre numa quadra entre prédios residenciais e comerciais na Zona Sul de São Paulo. A mesma cena se repete em diferentes horários, em quadras de vários cantos da cidade.

Entre 2017 e 2018, o futevôlei ampliou seu público na capital paulista, o que incentivou a abertura e expansão de uma série de quadras e centros de treinamento. Com redes oficiais e areia, os novos espaços contam com bares e arquibancadas improvisadas. Ampliam, assim, a cultura de um esporte que começou a ser praticado timidamente na cidade no fim dos anos 1990 em clubes como São Paulo, e Esperia e na Arena Carolina, na Zona Norte da cidade. 

Entre os atrativos da modalidade estão a prática de exercícios ao ar livre, a facilidade de montar times e a acessibilidade a públicos de diferentes idades, gêneros e porte físico.

“Fiz academia e corri em maratonas, mas sempre encarei como uma obrigação. Só com o futevôlei sinto que estou numa atividade de lazer. Estava com 76 kg e já emagreci 6 kg em quatro meses”, diz o pediatra Lucas Freitas, 31. 

Para Tatiana Pena, 32, o esporte proporcionou a chance de se exercitar, emagrecer e fazer um grupo novo de amigos. Formada em administração de empresas, ela começou a jogar há dois anos, após entrar em um grupo de WhatsApp com 60 mulheres que praticavam o esporte. 

A jogadora tem aulas com Fabio Alves Soares, conhecido como Bello. Considerado o maior campeão do esporte, somando 29 torneios nacionais e 9 títulos mundiais, dá aulas desde 2011 em São Paulo e é testemunha do boom recente do futevôlei na cidade.

Nascido em União dos Palmares, cidade com 75 mil habitantes no interior de Alagoas, ainda adolescente largou a escola para vender doces e limpar quintais, ajudando no sustento da família.

“Um dia, a esposa do prefeito da cidade me pediu para pegar uma fruta numa árvore. O galho onde eu subi quebrou e junto com ele os meus dois braços”, lembra o jogador. 

Impedido de jogar vôlei, seu esporte preferido, Bello passou a treinar futevôlei e não saiu mais da quadra de areia. Aos 17 anos, conquistou o quinto lugar em um campeonato realizado em Arapiraca (AL), o que o incentivou a mudar-se para o Rio de Janeiro, berço do esporte.

Encontrar professores, com formação em educação física e conhecimento sobre fundamentos do futevôlei, é a dificuldade atual das escolas. Riplay e Posto 011 afirmaram que estão recrutando educadores físicos e treinando-os.

“Ensinamos teoria e dinâmica do esporte. Caso tenham interesse, atuam como auxiliares de turmas iniciantes até se especializarem”, diz Bruno Cozzolino, sócio da Posto 011. 

Ter a instrução correta é importante não só para o aluno evoluir, como também para diminuir o risco de lesões.

Segundo Paulo Zogaib, especialista em Medicina Esportiva da Unifesp, a prática na areia exige atenção. Por um lado, diminui o impacto vertical, reduzindo lesões sobre cartilagens e tendões. Por outro, torna o apoio e equilíbrio do jogador (invariavelmente em uma perna só) instável. 

“As lesões mais comuns são causadas por entorses de tornozelos e joelhos”, diz Ricardo Nahas, coordenador do Centro de Medicina do Esporte do Hospital 9 de Julho.

Os médicos afirmam que é preciso ter cuidado com o uso repetitivo da cabeça. Mas, devido ao peso da bola, velocidade e distância em que é jogada, o risco de trauma cefálico é considerado baixo comparado ao boxe e ao futebol.

Os cuidados para a prática do esporte incluem a realização de exame médico 
—o que não costuma ser exigido na maioria das quadras—, uso de protetor solar e de tensores para diminuir impacto da bola e atrito com areia. Os médicos também recomendam treinos para melhorar o condicionamento, força muscular e articulações dos joelhos e tornozelos.

“Lesões por esforços repetitivos acometem os menos condicionados e os que exageram na quantidade de horas praticadas”, diz Nahas.  

O futevôlei surgiu nos anos 1960, em plena ditadura militar, quando a polícia proibiu o futebol nas praias cariocas após determinado horário. 

Alguns garotos, liderados pelo arquiteto Otávio Moraes, passaram a se reunir à noite em uma quadra de futebol de areia na Rua Bolívar, próximo à praia de Copacabana. A turma criava linhas imaginárias no campo e passava a bola de um lado para o outro da trave com os pés e a cabeça. 

Em 1965, Moraes levou a brincadeira, conhecida na época como “pévôlei”, para a Rua Joaquim Nabuco, no Posto 6. Lá, chamou a atenção de Jairzinho, Marinho Bruxa e Fontana, craques da seleção brasileira de futebol. Em 1968, o esporte ganhou regras próprias e também a orla de Copacabana. Nos anos 1990, começaram a surgir as primeiras federações e, em 2002, o primeiro circuito brasileiro de futevôlei masculino.

Jogando com Marcelinho, Bello venceu o primeiro campeonato mundial de futevôlei em 2004. A modalidade ganhou fama ao atrair jogadores famosos de futebol, como Romário e Renato Gaúcho.

Quando Bello se mudou para Santos (SP), conheceu Neymar, Paulo Henrique Ganso e Alan Kardec. Após conquistar títulos consecutivos na última década, ganhou dos amigos o apelido de “Pelé do Futevôlei”. 

A rede de contatos de Bello ajudou a dar fama às academias Riplay, em São Paulo, onde é professor. Fundada por três primos de Roberto Rivellino, a Riplay cresceu e hoje conta com cerca de  mil alunos em atividade e três centros esportivos. O boom, segundo os sócios da escola, veio nos últimos dois anos. A academia deverá abrir cinco franquias na cidade em 2019. 

Quem também está em expansão é o Posto 011, escola fundada por três amigos na Lapa, Zona Oeste da cidade e que ganhará nova unidade em Santana, na Zona Norte.

Para os praticantes, o futevôlei não é um esporte barato. Nos clubes, a prática é restrita a sócios e, nas quadras de rua, duas aulas por semana não saem por menos de R$ 200.

Onde jogar futevôlei em São Paulo
Arena Carolina 
Rua Susana de Góis, 28 -
Vila Palmeiras 

Atená Paracatu 
Rua Paracatu, 775 -
Parque Imperial

Beach Arena 
Avenida Lineu de Paula Machado, 599 - Morumbi

Clube Esperia 
Av. Santos Dumont, 1313 -
Santana 

Klabin Beach Sports 
Rua Santa Cruz, 1350 - 
Vila Mariana 

Posto 011 
Rua Barbalha, 381 - Lapa

PowerSports 
Av. Talma de Oliveira, 77 - 
Vila Moreira

Sun7 
Rua Jose Ramon Urtiza, 121 -
Vila Andrade 

Riplay 
Rua Cel. Domingos Ferreira, 323 – Vila Firmiano Pinto
Rua Conde Vicente de Azevedo, 73 - Vila Monumento Av. Marquês de São Vicente, 2477 - Barra Funda

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.