Pesquisador desmente mito de que Santos parou guerra na África há 50 anos

Tese de José Paulo Florenzano contesta versão santista que chegou a virar música da torcida

Pelé em ação pelo Santos, em 1973
Pelé em ação pelo Santos, em 1973 - Acervo UH - 1973/Folhapress
Alberto Nogueira
São Paulo

“O meu Santos é sensacional. Só o Santos parou a guerra…”, este trecho, de um cântico entoado por torcedores santistas durante as partidas da equipe, reverencia o episódio em que o clube teria sido motivo de um cessar-fogo durante um grande conflito na Nigéria, há 50 anos. A versão hoje é contestada pelo pesquisador José Paulo Florenzano, 53, professor da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP.

A controvérsia ganhou força com a reportagem especial da ESPN (em vídeo) "O Santos Parou uma Guerra", publicada no último dia 2 de fevereiro.

O time de Pelé e companhia excursionou pela África entre janeiro e fevereiro de 1969, época em que a Nigéria estava sob uma guerra civil. O conflito começou após uma onda de violência entre diferentes etnias, que culminou na criação da república independente de Biafra, a região mais rica em jazidas de petróleo no território nigeriano, em maio de 1967.

Passar pelo país não estava no planejamento santista, mas, após dois amistosos no Congo, clube e jogadores foram convencidos a aceitar o convite do governo nigeriano.

O Santos enfrentou a seleção da Nigéria na cidade de Lagos, em 25 de janeiro de 1969. A partida terminou empatada em 2 a 2, com dois gols de Pelé para o esquadrão brasileiro. Dalí, a equipe partiu para o território que hoje é conhecido como Moçambique para outra apresentação, antes de retornar ao solo nigeriano para o confronto que seria lembrado até hoje pelo clube e seus torcedores.

No dia 4 de fevereiro de 1968, a equipe santista foi recebida sob muita festa da população da cidade de Benin, que, segundo estudos de Florenzano, já não estava mais sob controle das forças de Biafra.

"Quando Santos joga na cidade de Benin, o território de Biafra está reduzido a um quarto do que era originalmente quando declarou sua independência. Não tinha saída para o mar. Estava cercado territorialmente, com o espaço aéreo vigiado. Do outro lado do rio Níger, a mais de cem quilômetros de distância, nós temos a cidade de Benin. Não havia um exército disputando militarmente o controle daquela cidade”, conta o professor, que prepara um livro sobre a excursão do time pela África e lançou uma série de textos sobre o assunto no site acadêmico Ludopédio.

Florenzano reconhece que o Santos e Pelé eram muito festejados por onde passavam. A prova disso está nos relatos de Gilberto Marques para o jornal A Tribuna. Ele foi o único jornalista brasileiro a acompanhar a excursão da equipe.

Os estudos de Florenzano sobre o tema foram desenvolvidos ao longo de seu projeto de pós-doutorado para a USP. Ele faz pesquisas sobre o tema há 10 anos.

Para o autor, o jogo entre Santos e a seleção do Estado do Centro Oeste, no estádio de Ogbe –vencido pelo time brasileiro por 2 a 1– foi usado como propaganda de guerra pelo governo militar nigeriano.

“Se você se perguntar, do ponto de vista do governo nigeriano, qual o interesse que ele teria de levar o Santos para uma cidade a qual ele não controla, que seria necessário ele negociar um cessar-fogo? Que tipo de mensagem isso passaria para a sociedade nigeriana e para o Mundo? Seria um contrassenso, um absurdo em termos de propaganda de guerra. Seria o mesmo que dizer que eles não tinham recuperado aquela região chave do conflito.”

O Santos era tido como trunfo do governo da Nigéria, segundo o professor, pois a opinião pública mundial estava contra a violência das tropas nigerianas no conflito. Artistas como John Lennon e Jimi Hendrix, por exemplo, protestavam constantemente pelo fim dos confrontos. Estima-se que a Guerra de Biafra, conflito que se estendeu até janeiro de 1970, provocou a morte de 2 milhões de pessoas.

A história de que o clube paulista teria parado uma guerra não estava nos relatos de Gilberto Marques para o jornal A Tribuna. Segundo Florenzano, o primeiro registro na imprensa nacional veio em uma coluna de Armando Nogueira, em outubro de 1970, no Jornal do Brasil. O jornalista conta que recebeu um recorte de um jornal dos EUA no qual diz que Pelé havia parado uma guerra.

“Provável primeira notícia sobre essa história veio depois do tricampeonato da seleção brasileira, em 1970, quando o Santos estava excursionando pelos EUA. Um intérprete da delegação santista teria dito a um repórter americano que o Pelé havia sido responsável por parar a Guerra de Biafra. O próprio Armando Nogueira, apesar de reconhecer a força do craque e da equipe alvinegra, na ocasião dá a informação como folclore, exagero”, diz.

Anos depois, a história foi sendo recontada por jornalistas e ex-jogadores, como o próprio Pelé, na maioria das vezes com imprecisões, com a mistura de fatos ocorridos no Congo, por exemplo, durante aquela mesma excursão. “A imprensa chegou a noticiar anos depois que o Santos parou a guerra entre os Congos, algo que não existiu. Havia uma crise diplomática entre os países, mas nunca houve guerra entre os Congos”.

Ao menos, conta Florenzano, a equipe da Baixada Santista foi responsável pela negociação entre os dois Congos para que o time fizesse a travessia do rio entre os dois países, que estava proibida em razão do conflito diplomático. Um fato relevante, proporcionado pelos santistas.

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