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Sem medo, cadeirantes usam esporte radical para ganhar mais autonomia

Atletas treinam WCMX, modalidade em cadeira de rodas em pistas de skate

Fernando Poffo
São Paulo

“As pessoas associam a cadeira de rodas a uma prisão, mas na verdade ela dá a possibilidade de voar”.

Esse é o sentimento de Leandro Badi, 27, praticante do WCMX (Wheelchair Moto Cross), modalidade em cadeira de rodas que mistura BMX e skate e se pratica em uma pista ou com obstáculos.

No mínimo três vezes por semana ele vai ao Centro de Esportes Radicais de São Paulo, no Bom Retiro, onde treina por mais de três horas. O local conta com ciclovia e mais de cinco pistas, que oferecem diferentes níveis de dificuldade e são usadas por skatistas, ciclistas e patinadores.

Depois de 30 minutos de aquecimento pela ciclovia que rodeia o local, os seis atletas da equipe Faca na Cadeira, da qual Badi é presidente, vão para uma pista de park, que mescla obstáculos das categorias vertical e street do skate e começam a arriscar manobras.

Em uma delas, Badi se apoia no topo da rampa e fica quase de cabeça para baixo antes de retornar para a pista. 

Entre manobras e tombos, os cadeirantes são estimulados a se virarem sozinhos, sem ajuda dos instrutores. 

Praticante do WCMX há um ano, Badi é o mais experiente da turma. Ele usa cadeira de rodas desde 2010, quando sofreu um acidente durante férias em Amsterdã, na Holanda. 

“Enquanto comia no jardim de um restaurante, um australiano maluco caiu do nada em cima de mim. O sujeito disse ter ouvido vozes e saltou de uma altura equivalente ao terceiro andar”, lembra.

Ele continuou os estudos, trabalhou e cansou de ouvir conselhos para praticar esportes como rúgbi, basquete e corrida, mas nada o animava. 

 
Fã do skate, ficou curioso quando descobriu o WCMX, modalidade inventada pelo americano Aaron “Wheelz” Fotheringham, 27, que nasceu com espinha bífida, uma má formação congênita.

Quando criança, ele começou a ir com a cadeira de rodas às pistas para acompanhar o irmão, atleta de BMX. Na adolescência, em Las Vegas, Aaron passou a participar de competições locais em meio às bicicletas. Nascia o WCMX, que Aaron desenvolveu e tratou de espalhar pelo mundo. 

Entre seus feitos, estão descer a megarampa de Bob Burnquist e se apresentar na abertura da Paraolimpíada do Rio de Janeiro, em 2016.

Ao conhecer o WCMX, Badi, foi atrás da modalidae, pouco difundida no Brasil. Encontrou um brasileiro famoso mundialmente justamente por fabricar as cadeiras adequadas para a modalidade.

“Consegui uma cadeira emprestada e nem andei direito, mas o coração bateu forte e pensei: é isso!”, diz o brasileiro, que ficou em quarto lugar no Mundial da modalidade na categoria intermediária. 

Além da cadeira de rodas adaptada, que custa cerca de  R$ 10 mil (cinco vezes o preço de uma convencional de boa qualidade), o WCMX exige equipamentos como caneleiras, joelheiras, capacete e protetores de coluna, para minimizar o risco de lesão.

Badi competirá em maio no Campeonato Americano, e já pretende se inscrever na categoria Open (a mais difícil) no Mundial que será realizado em agosto, na Alemanha.

Mais do que um objetivo, Badi encara os troféus como uma forma de popularizar a modalidade e tornar seus benefícios mais conhecidos para outros cadeirantes.

“Faz um bem indescritível, sou outra pessoa. WCMX é o esporte para se viver no Brasil, um país em que não tem acessibilidade para o cadeirante. A gente fica independente, passa a subir degrau, rampa íngreme, tudo”, diz Baldi que, junto com o professor e doutor em Educação Física José Ricardo Auricchio, fundou o Instituto Faca na Cadeira, que promove treinos gratuitos para os interessados.

Um dos praticantes é Diego Soares, 27, que usa cadeira de rodas há dois anos e quatro meses, após sofrer um acidente de moto. Depois passar um período deprimido, com extrema dependência para realizar atividades cotidianas, achou no WCMX uma forma de obter mais autonomia.

“Quando vim a primeira vez usava uma prancha para passar do carro para a cadeira, mas já eliminei essa prancha e hoje subo até em caminhonete. Ganhei força no braço, controle do tronco… É uma fisioterapia isso aqui”, diz.

“Hoje me sinto seguro e sei que vou conseguir me virar sozinho para tudo. Ainda não levanto sozinho quando caio com a cadeira no chão, mas sei que vou conseguir isso também”, completa Diego, que se transformou nos últimos meses e já perdeu 16 quilos.

Segundo José Ricardo, é normal o atleta de WCMX conviver com os tombos, por ser um esporte realmente radical. Mas tudo é feito dentro da individualidade de cada um e sempre com os equipamentos adequados para desenvolver ao máximo a autonomia dos praticantes.

O estímulo durante os treinos é que cada um se vire sozinho. Para tudo mesmo. Os instrutores observam as quedas e esperam ao máximo que cada atleta levante sozinho antes de intervir. Um método intensivo do Faca na Cadeira.

“Aqui é esporte radical no auxílio à reabilitação. Todo dia eles são testados e superam seus limites. Pode até parecer rude, mas eles têm que se virar o tempo todo. Não deixo instrutor nem pegar água quando pedem. Quando viajo com eles não abro nem a porta. Se viram sem reclamar, com orgulho na verdade. A gente muda a vida das pessoas”, diz José Ricardo.

Badi atesta a recompensa dos treinos que o ajudaram a reviver a vida que levava antes do acidente, quando fazia manobras em pé sobre um skate.

“O vento na cara, a galera gritando. E se cair é só levantar para continuar. Para uma pessoa com deficiência, que todo mundo olha com dúvida, receber um olhar de admiração te traz de volta para a sociedade”, afirma.

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