Brasileiro planeja voar de parapente saindo do cume do Monte Everest

Rodrigo Raineri, 49, busca feito inédito para encerrar carreira de mais de 30 anos como alpinista

 
Alex Sabino
São Paulo

Estar no teto do mundo, como é chamado o cume do Monte Everest, pode ser o sonho de vários alpinistas.

Mas estar a 8.848 metros acima do nível do mar não é o bastante para o brasileiro Rodrigo Raineri, 49.

Depois de chegar no cume da montanha, seu objetivo é voar por cerca de 30 quilômetros de parapente até uma das bases do acampamento.

Será a última expedição de um dos mais experientes alpinistas brasileiros.

“Posso considerar que será minha aposentadoria. Vou começar a diminuir o ritmo porque é um esporte que depende muito do preparo físico”, explica ele. O voo solo de parapente após chegar ao topo do Everest será um feito inédito. 

Raineri é o único brasileiro a ter escalado como guia as sete montanhas mais altas do mundo. Com Vitor Negrete, ele formou a única dupla do país a ter escalado a face sul do Aconcágua, montanha de 6.961 metros de altura na Cordilheira dos Andes —a mais alta fora da Ásia.

O alpinista brasileiro Rodrigo Raineri no cume do Monte McKinley
O alpinista brasileiro Rodrigo Raineri no cume do Monte McKinley - Divulgação

“O Everest é o ícone porque é a montanha mais alta do mundo. Mas não é a mais difícil. A mais complicada foi em 2002, a face sul do Aconcágua”, conta o alpinista.

Não que não existam mais desafios a serem enfrentados. O planeta é muito grande, como diz o próprio Raineri, que vai completar 50 anos durante a expedição. Sua jornada começou no último dia 24, quando embarcou para o Nepal.

Há as mesmas montanhas, mas rotas diferentes, outras escaladas que poderiam valer a pena e manter Raineri motivado à procura de novos desafios. Mas é preciso saber a hora de parar.

Para citar outra frase do alpinista, o maior sucesso da expedição é voltar para casa.

“Alpinismo é um estilo de vida. Chegar ao cume [da montanha] é o grande objetivo, mas a expedição vale a pena mesmo se você não chegar. Sucesso é voltar para casa”, afirma Raineri.

Escalar o Monte Everest não será novidade para o brasileiro, que já fez este percurso. Novidade será encerrar a subida com um voo de parapente. Acostumado a ser guia e antigo proprietário de uma empresa que levava pessoas para expedições nas maiores montanhas do planeta, ele sabe dos riscos envolvidos. 

“Há vários pontos críticos que devem ser considerados. O maior risco no Everest é o de avalanches. Não são muitas, mas quando acontecem, podem ser gigantes e avassaladoras. Há também o problema da altitude, do ar rarefeito. É perigoso, mas eu sou profissional nisso. Dá para minimizar”, avalia.

​Raineri considera ter começado tarde a subir montanhas, aos 19 anos. Em 1988, escalou o Pico das Agulhas Negras, na Serra da Mantiqueira, no Rio de Janeiro. Depois disso, decidiu ir para a Holanda para estudar como ser guia. Voltou ao Brasil e se formou em engenharia da computação, mas resolveu que seria alpinista profissional. 

A expedição deste ano para o Everest terá quatro fases. A primeira é a chegada ao Nepal, para o treinamento com o parapente e a realização de testes. Depois Raineri fará a caminhada até a base da montanha, o que deve levar dez dias. A seguir, começa o período de aclimatação, com pequenas subidas e descidas para que o organismo se adapte ao ambiente e temperatura. A expedição termina com a escalada ao topo, o voo à base e o retorno ao Brasil.

“Eu sou o guia. Nunca dependo de um guia local. No caso do Everest, contratamos pessoas para dar suporte. Um cozinheiro, auxiliar de cozinha, e alpinistas sherpas, que nos acompanham até o cume e se for muito experiente, toma decisões pela expedição. Mas não no meu caso. Eu tomo as decisões”, explica Raineri.

Ele afirma que uma das finalidades do projeto é divulgar a escalada, esporte recém-incluído no programa olímpico e que será disputado pela primeira vez nos Jogos Olímpicos de 2020, em Tóquio.

Em Campinas, onde mora, o alpinista tem uma carreta basculante em que colocou uma parede de escalada. Raineri quer levá-la a escolas e parques da cidade para explicar as regras da modalidade e incentivar a prática.

Ele já praticou a escalada no passado, mas lembra que são coisas parecidas apenas no princípio de subir para atingir determinado ponto. No restante, são modalidades bem diferentes.

“A escalada envolve explosão. O alpinismo é logística e resistência. A parte mental esportiva da escalada é a mesma de um ginasta. Você não precisa ter medo de cair. Escalar uma montanha é diferente. Você tem de superar o frio e uma série de limitações.”

Como o sucesso é voltar para casa, ao chegar em Campinas, Raineri espera compartilhar, talvez pela última vez, a sensação de ter chegado ao teto do mundo.

“É a sensação de saber que você é capaz de realizar um sonho. Estar em uma expedição dessas é uma satisfação enorme”, afirma.

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