David Neres superou solidão para chegar à seleção brasileira

Sem levar estafe, atacante do Ajax viveu a maior parte do tempo sozinho na Holanda

David Neres controla a bola no peito durante treino da seleção brasileira em Portugal, antes do amistoso contra o Panamá
David Neres controla a bola no peito durante treino da seleção brasileira em Portugal, antes do amistoso contra o Panamá - Miguel Riopa/AFP
Bruno Rodrigues
São Paulo

“Eu vou cantar [uma música] do Pixote, Insegurança... Porque eu estou inseguro”. Foi dessa forma que o atacante David Neres, 22, enfrentou o trote dos novatos da seleção brasileira.

Cantar ou falar em público, para Neres, representa sufoco muito maior do que estrear pela seleção brasileira, o que ele poderá fazer neste sábado (23), contra o Panamá. Será o primeiro compromisso da equipe de Tite em 2019, ano em que o Brasil disputa a Copa América em casa.

Tudo aconteceu muito rápido na carreira do atacante, hoje no Ajax (HOL). Revelado pelo São Paulo, fez sua primeira partida com no clube do Morumbi aos 19 anos, em outubro de 2016. Em janeiro do ano seguinte, já estava vendido para o futebol holandês.

A chegada à Europa foi complicada. Sem domínio do inglês —e muito menos do holandês—, David Neres foi apenas com o empresário para Amsterdã. Ao contrário de outros atletas, inclusive colegas da seleção como Ederson e Gabriel Jesus, o atacante não encheu sua casa de amigos brasileiros. Algo que não faz até hoje.

O jeito foi tentar se concentrar na carreira e na possibilidade de mostrar seu talento em um dos clubes mais tradicionais do futebol mundial.

Com paciência, soube esperar pelas oportunidades. Contratado no meio da temporada 2016/2017, chegou a jogar quatro partidas pelo time B do Ajax, que disputa a segunda divisão holandesa.

A temporada seguinte foi de afirmação no futebol local. Neres fez 38 jogos pelo Ajax, 32 deles no Campeonato Holandês, contribuindo com 14 gols e 13 assistências na campanha do vice-campeonato —o PSV ficou com o título.

Na temporada atual, o brasileiro mostrou evolução. Já tem 40 partidas, superando 2017/2018, além de 13 assistências para os companheiros. 

De seus oito gols até aqui, nenhum foi mais importante do que o marcado diante do Real Madrid (ESP), na goleada por 4 a 1 no Santiago Bernabéu que classificou o Ajax para as quartas de final da Liga dos Campeões.

“Seu desenvolvimento é incrível. Claro que ele teve alguns altos e baixos desde que chegou, mas nas últimas semanas ele mostrou o Neres que o Ajax quis contratar. Para o técnico Ten Hag, foi a confirmação. Ele sempre disse que Neres é importante. Por isso o Ajax se recusou a deixá-lo ir para a China recentemente”, diz à Folha o jornalista holandês Vincent de Vries.

David Neres comemora o segundo gol do Ajax contra o Real Madrid, pela Champions League
David Neres comemora o segundo gol do Ajax contra o Real Madrid, pela Champions League - Sergio Perez-5.mar.19/Reuters

Cinco dias depois da vitória sobre o Real, o brasileiro marcou duas vezes na goleada de 4 a 0 sobre o Fortuna Sittard, pelo Holandês. Exibição para coroar a convocação, que veio após a lesão de Vinicius Júnior, cortado justamente após lesionar-se contra o Ajax, na Champions League.

As boas atuações vêm chamando a atenção de outros clubes em centros europeus mais poderosos, que começam a olhar para Neres como boa possibilidade de reforço.

Segundo De Vries, a transferência para uma das principais ligas da Europa é um passo natural na carreira do atleta. Assim como foi para outros atacantes brasileiros que brilharam na Holanda nos anos 1990, como Romário e Ronaldo, ambos jogando no PSV.

“Se Neres quiser seguir os passes deles, é necessário ir para Espanha, Itália ou até Inglaterra. E daí uma transferência para um clube entre os tops”, afirma o jornalista.

O sucesso engrandecido pelas exibições na Champions desta temporada parece afetar pouco a maneira como David Neres encara a carreira e a própria vida fora de campo.

Ele segue receoso de dar entrevistas. Não gosta nem de atender ao celular quando vê que o número não está salvo em seus contatos.

Como fez com Edu Gaspar e Tite, que tentaram ligar para informar o atleta da convocação. Neres não atendeu em nenhuma delas. Só conversou com o treinador da seleção depois que o avisaram das tentativas de contato.

A adaptação à Holanda foi facilitada depois que começou as aulas de inglês, permitindo que ele já se comunique melhor com os companheiros e a imprensa local.

Mas a nova língua permitiu, mesmo, que Neres pudesse melhorar a comunicação com a namorada, a modelo alemã Kira Winona, com quem vive em Amsterdã. É com ela que ele treina o inglês. Tarefa aparentemente mais fácil do que cantar ou falar em público.

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