Endividada, Portuguesa joga por primeiro acesso após 4 quedas

Clube deve R$ 354 milhões e presidente do clube foge de credores

Jogadores da Portuguesa no banco de reservas durante treino antes do início do Campeonato Paulista da Série A2
Jogadores da Portuguesa no banco de reservas durante treino antes do início do Campeonato Paulista da Série A2 - Jardiel Carvalho-17.jan.19/Folhapress
Alex Sabino
São Paulo

Quando avisou aos amigos ter aceitado proposta para ser técnico da Portuguesa, Vica ouviu a mesma reação. Foi como se todos eles tivessem combinado.

“Você é louco!”

Não parecia mesmo ser uma decisão sã. A Portuguesa era lanterna da Série A2 do Campeonato Paulista e não havia vencido nenhuma vez. Com as contas bancárias bloqueadas, rendas penhoradas, oficiais de Justiça caçando qualquer recurso financeiro do clube e quatro rebaixamentos nos últimos cinco anos, a Lusa parecia terra arrasada.

Um mês depois, Vica pode dar uma rara alegria para o torcedor. Se vencer o Santo André, no sábado (30), às 15h, no estádio Bruno José Daniel, no ABC, a Lusa se classificará para as quartas de final da segunda divisão estadual.

“Se qualquer outro time dessa divisão me convidasse, eu não aceitaria. Mas a imagem que eu tenho da Portuguesa não é essa de hoje. É a da Portuguesa tradicional, do time que estava sempre na elite. O primeiro objetivo era não cair. Mas agora queremos mais”, disse o treinador após o treino desta terça (26).

Os dois finalistas sobem para a elite.

Depois da chegada de Vica, a Lusa tem cinco vitórias e uma derrota. Se vencer o Santo André, ficará na sétima ou oitava posição, a depender do resultado do Taubaté. Classificam-se os oito primeiros.

Desde a escalação irregular de Heverton na última rodada da Série A do Brasileiro de 2013 (um assunto não esclarecido para a torcida da Portuguesa) e o rebaixamento para a 2ª divisão, o clube entrou em espiral de decadência sem fim.

Caiu para a Série C em 2014, para a D em 2016 e como foi lanterna do seu grupo na última divisão do país em 2017, está sem torneio nacional para disputar. Em 2015 saiu da elite estadual e desde então a possibilidade de rebaixamento para a Série A3 foi mais real do que o acesso para a A1.

O futebol da Portuguesa tenta se manter vivo entre ações trabalhistas, dívida de R$ 354 milhões e penhora até de troféus como o da Barcelusa, apelido do elenco campeão nacional da Série B em 2011. 

Mas os jogadores treinavam como se não houvesse nenhuma preocupação no mundo.

“Deixa eu ir embora porque vai começar a novela”, diz o atacante Anderson Cavalo, 32, artilheiro da equipe na Série A2, com cinco gols.

A preocupação do presidente Alexandre Barros, ex-radialista que acompanhou a Portuguesa por mais de duas décadas antes de se eleger para o cargo, é outra. Garantir que os jogadores recebam o salário de março até esta sexta (29). 

“De fora, eu tinha uma visão do que era administrar o clube. Quando você senta na cadeira, é outra coisa”, confessa.

Pedir ajuda financeira à Federação Paulista de Futebol não adianta. Qualquer dinheiro que cair na conta corrente da agremiação será bloqueado para pagar dívidas.

O futebol é feito, segundo Barros, com “ajuda de abnegados” que ele não diz quem são. 

Antes do início do Campeonato Paulista, ele bolou uma fórmula para conseguir receita: o carnê de ingressos. Os sete jogos como mandante na Série A2 foram vendidos de uma vez por R$ 140. 

Como os carnês foram negociados em janeiro, quando a Justiça estava em recesso, arrecadou na boca do caixa do clube R$ 140 mil, investidos no futebol. Quando os cobradores foram atrás da receita, esta já não existia mais.

Para forçar a torcida a aderir à ideia, colocou o ingresso individual de arquibancada a R$ 100. Em todo o torneio, vendeu apenas 13. Os R$ 1.300 obtidos foram bloqueados por oficiais de Justiça.

São assuntos que passam à margem do elenco, com os jogadores dando mais atenção ao resultado do rachão, disputado em campo reduzido no estádio do Canindé.

A mudança de humor aconteceu a partir da alteração no estilo de jogo imposta por Vica. Ele aboliu o losango no meio-campo, utilizado pelo técnico Luis Carlos Martins, e colocou dois meias abertos pelas laterais para municiar Anderson Cavalo na área.

“Quando a bola chega, fica mais fácil. As pessoas não percebem que a Portuguesa ainda é uma vitrine. Quem vem para o clube aparece muito mais do que em outros lugares. E se a gente conseguir, apesar de todos os problemas, classificar e fazer a Portuguesa subir para a Série A1 do Paulista, estaremos na história do clube”, analisa Cavalo, que tem contrato até o final do ano.

Com ou sem acesso, a Portuguesa terá no segundo semestre a Copa Paulista. Um torneio esvaziado, pouco relevante, mas que, para a equipe do Canindé, é o caminho para voltar a disputar uma competição  nacional em 2020. O campeão pode escolher entre jogar a Copa do Brasil ou a Série D do Campeonato Brasileiro.

“Se a Portuguesa for campeã da Copa Paulista, vamos escolher a Série D para voltar a disputar o Brasileiro. A Copa do Brasil é mais rentável, mas precisamos retornar ao Brasileiro”, afirma Barros, deixando em segundo plano os R$ 500 mil  pagos por apenas participar da Copa do Brasil. 

Talvez porque saiba que o dinheiro terá um destino que não será o cofre da Lusa.

Não poder trabalhar com um planejamento de longo prazo não é animador. Ainda mais na Portuguesa, que vive sempre na expectativa quanto ao futuro do Canindé. 

O estádio será leiloado? Por quanto? Qual valor a Portuguesa terá direito no final de tudo? Que destino terá o futebol profissional?

Até quando a sobrevivência da Portuguesa vai depender de receitas que não podem ter a origem divulgada?

“A gente pode melhorar isso em campo. Se colocarmos o time na elite do Paulista, já tem milhões de direito de TV, se começarmos a subir no Brasileiro da Série B são R$ 6 milhões ou R$ 7 milhões de direitos de TV. Nós podemos começar o processo de ressurgimento da Portuguesa”, completa Vica, que relembra o dia que jogou contra Enéas, histórico meio-campista da Lusa. 

Na época, o hoje treinador da Portuguesa era zagueiro do Joinville e da Ferroviária.

Para isso ressurgir, será preciso ganhar do Santo André. E “vencer” não é um verbo que tem sido muito empregado na Portuguesa desde 2013.

No meio do treino, o presidente Alexandre Barros recebe um telefonema.

“Eu sabia! Sabia!”, exulta.

Era a notícia de que o SporTV havia decidido transmitir a partida em Santo André. Mas por que a festa? A exibição ao vivo vai render dinheiro para a Lusa?

“Não. Mas o jogo vai ser mostrado para o Brasil inteiro. O árbitro vai pensar duas vezes antes de nos prejudicar.”

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