Descrição de chapéu Tóquio 2020

Atrás da 7ª Olimpíada, Robert Scheidt quer mais do que 'só estar lá'

Dono de cinco medalhas olímpicas, velejador mira sexto pódio em Tóquio

Daniel E. de Castro
São Paulo

Aos 46 anos, o velejador Robert Scheidt não se cansa de escrever páginas inéditas na história do esporte olímpico brasileiro. Até hoje, nenhum atleta do país participou de sete edições dos Jogos ou ganhou seis medalhas, marcas que ele pode atingir no ano que vem, durante a Olimpíada de Tóquio-2020.

Em fevereiro, Scheidt anunciou que deixaria sua aposentadoria de dois anos e meio da classe laser, uma das que mais exigem fisicamente do atleta, em busca da vaga no Japão.

No início de abril, o brasileiro terminou o Troféu Princesa Sofia, em Palma de Mallorca, na 12ª posição entre os 187 barcos que participaram do tradicional evento espanhol.

Após a primeira competição em alto nível desde que anunciou o retorno à corrida olímpica, Scheidt fez uma análise crítica sobre o seu desempenho, mas também ressaltou pontos a comemorar.

“A largada foi um ponto em que tive bastante dificuldade, porque o pessoal é bem agressivo. Na maioria das vezes, tive que vir de trás e fazer recuperações. Mas alguns sinais foram positivos. Fisicamente, que era uma preocupação, consegui terminar bem, sem lesões. Se quisesse velejar mais dois dias, poderia”, diz em entrevista à Folha.

Ele ficou à frente de concorrentes de ponta, como Pavlos Kontides, atleta do Chipre campeão mundial em 2018, e do croata Tonci Stipanovic, segundo colocado na Rio-2016.

A Olimpíada em casa foi a única das seis de que participou em que Scheidt não subiu ao pódio. Apesar de ter liderado com folga a última regata, acabou em quarto lugar na classificação final.

A primeira medalha do brasileiro foi o ouro na Olimpíada de Atlanta-1996, aos 23 anos. Na época, alguns dos seus principais rivais de hoje eram crianças ou até bebês.

Na Espanha, portanto, ele pôde reencontrar velhos conhecidos e conhecer as caras novas da categoria.

“Muita gente ficou surpresa com o meu retorno, achavam que nunca mais me veriam na raia da laser. Muitos vieram dar uma força, disseram que sentiram minha falta e que é importante ter a minha presença nas competições”, afirma.

Por mais que exista grande respeito pelo seu histórico na modalidade, Scheidt prefere deixar o passado de lado e olhar apenas para frente.

“Quero velejar melhor do que em Palma. Foi um resultado satisfatório, mas eu não voltei para chegar nessas posições. Quando a gente já conquistou coisas importantes, não vai se satisfazer em só estar lá e competir”, diz.

Nos próximos meses, ele terá novas oportunidades de dar passos importantes para chegar aonde pretende. A primeira a partir deste domingo (28), em outro evento de destaque do calendário, a semana de vela de Hyères, na França.

Em julho, será disputado o Mundial da classe laser, no Japão. A sede da Olimpíada ainda receberá o evento teste da modalidade, em agosto. A vaga brasileira na sua categoria está garantida em Tóquio, restando apenas uma disputa interna para saber quem será o representante do país.

Na Espanha, Scheidt ficou à frente dos concorrentes Bruno Fontes (19º) e João Pedro Souto de Oliveira (60º).

Um dos momentos fundamentais para o retorno do experiente velejador foi a disputa da Copa Brasil de Vela, em Florianópolis, no fim de 2018. 

Apesar de ter dito que estava inscrito na laser só para se divertir, Scheidt vinha de resultados animadores na categoria durante treinamentos com um grupo de estrangeiros na Itália, onde vive há alguns anos. A medalha de prata —ficou atrás de Fontes no desempate— foi o empurrão definitivo para a sua volta.

Casado com a velejadora lituana Gintare Scheidt, medalhista de prata em Pequim-2008, e pai de dois meninos, o atleta se estabeleceu na Europa pela qualidade de vida. Em Torbole, cidadezinha da província de Trento que atrai vários esportistas, ele está a cinco minutos de bicicleta do lago de Garda.

Em várias viagens para competições no continente, basta colocar a embarcação em cima do carro e pegar a estrada.

“Motivação para treinar eu tenho, sempre fui um cara muito ativo. Não é uma coisa que me assusta ter que cumprir treinamentos. O que é diferente é que tenho que lidar com obrigações de pai, de marido, é muito importante saber dividir bem o tempo”, diz.

Pesou para Scheidt também o fato de que desta vez a sua corrida olímpica não terá quatro longos anos. Será um sprint de um ano e meio.

Para isso, ele conta com apoio financeiro do Comitê Olímpico do Brasil (COB), da Confederação Brasileira de Vela e do Banco do Brasil, que o patrocina desde 2003 e com quem o atleta negocia renovação de contrato até 2021. Segundo sua assessoria de imprensa, o novo acordo está muito perto de ser assinado.

“O Robert sempre terá nosso apoio quando se dispuser a participar de uma campanha olímpica, não só pelo histórico, mas por sua personalidade e seu profissionalismo. Percebemos que ele se entusiasmou ao acompanhar o último Mundial”, afirma Jorge Bichara, diretor de esportes do COB.

Na competição realizada em agosto de 2018, na Dinamarca, Scheidt foi o treinador de Jorge Zarif, aposta do país na classe Finn. Mas logo depois ele descobriu que seu lugar ainda era entre os atletas.

“Não são todos os dias maravilhosos, como em qualquer profissão. Tem dias em que você não veleja tão bem quanto gostaria, mas é bom saber que, apesar da minha idade, consigo ser competitivo, posso melhorar e meu corpo está permitindo que eu faça isso ainda”, afirma.

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