Confederação associa evento de Schwarzenegger a doping e anabolizantes

São Paulo recebe edição da feira, que tem como atrativo provas de fisiculturismo

Daniel E. de Castro Diego Garcia
São Paulo e Rio de Janeiro

A Arnold Sports Festival, feira esportiva e de entretenimento ligada ao ator e ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger, entrou na mira da Confederação Brasileira de Musculação, Fisiculturismo e Fitness (CBMFF).

A edição sul-americana do evento será realizada em São Paulo de sexta (12) a domingo (14).

A confederação acusa a feira de ser conivente com o uso de doping no seu principal atrativo, as competições de fisiculturismo, e de se associar a pessoas e empresas que comercializam de forma ilegal anabolizantes esteroides no país.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) permite a venda desses produtos apenas em farmácias, mediante retenção da receita médica.

Na semana passada, durante uma audiência pública na Comissão de Assuntos Sociais do Senado, representantes da confederação apresentaram as denúncias contra o evento e cobraram medidas de vários órgãos, entre eles a Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) e a Polícia Federal, neste caso para investigar possível tráfico de anabolizantes.

Em documento enviado ao Senado, a CBMFF sugere também que a realização do Arnold Festival deveria ser impedida pelos órgãos de vigilância sanitária.

Segundo a confederação, o evento está associado à empresa paraguaia Landerlan, que comercializa anabolizantes pela internet para vários países, inclusive oferecendo em seu site contato para venda direta ao Brasil.

A associação ao festival se daria por meio de outra marca, a Landerfit, que possui logomarca quase idêntica à da Landerlan, mas vende suplementos alimentares.

O fisiculturismo, esporte que mede o resultado do treinamento de musculação em diferentes categorias, tem o objetivo de se tornar uma modalidade olímpica. O primeiro passo para isso foi a entrada no programa dos Jogos Pan-Americanos de Lima, que acontecerão em julho.

Premiação de competição de fisiculturismo no Arnold South America 2018
Premiação de competição de fisiculturismo no Arnold South America 2018 - Divulgação Arnold South America

A CBMFF, filiada ao COB, é a autoridade reconhecida para o esporte no país. Cabe a ela organizar campeonatos e também comandar o processo de classificação ao Pan-Americano.

As competições sob seu guarda-chuva, portanto, seguem as normas da Agência Mundial Antidoping (Wada), que proíbe o uso de anabolizantes.

“A partir de 2017, entidades piratas, não vinculadas ao movimento olímpico, começaram a se proliferar no Brasil, transmitindo a ideia equivocada aos atletas que eles poderiam competir livremente em seus campeonatos, sem qualquer necessidade de teste de doping”, afirma Alexandre Bortolato, diretor jurídico da confederação.

Até o ano passado, a Federação Internacional de Fisiculturismo e Fitness (IFBB), que segue as normas da Wada, organizava as competições no Arnold Festival. No caso da edição brasileira, com o apoio da confederação nacional.

De acordo com Bortolato, o rompimento para o evento deste ano partiu da confederação, pelo fato de a entidade não abrir mão da realização de exames antidoping na competição.

Em meio à discussão, o próprio Arnold Schwarzenegger, segundo o diretor jurídico, lavou as mãos. “A gente ficou muito insatisfeito com a postura do Arnold, porque o cara foi governador americano, não é possível que ele vá continuar atrelado a essa pirataria barata.”

A competição, então, foi assumida pela IFBB Pro League, entidade que apesar de manter um nome parecido se separou da federação internacional e é presidida por Jim Manion, americano que está suspenso de competições chanceladas pela Wada até 2025 por violar o código antidoping.

Procurada, a empresa Savaget afirma que apenas promove o evento e disponibiliza o espaço para que entidades desportivas montem programações de acordo com suas regras. No caso do fisiculturismo, a IFBB Pro League.

“Para poder responder à indagação formulada, após contato com os organizadores do fisiculturismo, [a Savaget] pode acrescentar que o evento é privado, não é olímpico, não está submetido à jurisdição da Wada e que os atletas participam por diversão”, disse a empresa.

A Savaget afirmou ainda não ser verdade que ela e seus parceiros tenham parcerias com pessoas ou empresas que comercializem anabolizantes ou pratiquem outras irregularidades “Não têm e nunca tiveram nenhum contato com a empresa Landerlan”.

Após ser notificada pela Wada sobre quatro eventos de fisiculturismo em São Paulo que não seguem “as melhores práticas esportivas antidopagem”, entre eles o Arnold Festival, a ABCD, órgão ligado ao governo federal, enviou um ofício à prefeitura em que sugere que o órgão não apoie nem incentive a realização deles na cidade.

“A ABCD não pode se omitir em realizar o que a legislação antidopagem determina, qual seja, preservar a saúde dos atletas, o esporte ético, o atleta limpo e o exemplo para os jovens de nosso país”, diz o documento enviado pela entidade.

Procurada, a Anvisa disse que todas as importações para pessoa física de medicamentos que não têm autorização de entrada no país são bloqueadas pela agência.

A Prefeitura de São Paulo e um representante da Landerlan não se manifestaram até a publicação desta reportagem.

Fisiculturismo estreia nos Jogos Pan-Americanos de Lima

Os Jogos Pan-Americanos de Lima terão a estreia do fisiculturismo em seu programa. Para os homens, a categoria em disputa será o "clássico", criado como alternativa para quem não pretende desenvolver músculos de forma extrema e que estabelece limites de peso de acordo com a altura do atleta.

São analisados fatores como tamanho dos músculos, proporção e simetria. Para as mulheres a disputa será na categoria "fitness coreográfico", que segue critérios parecidos, mas também inclui elementos como "elegância" e "graça" em seus critérios de avaliação.

Os representantes brasileiros no Pan serão Carla Rosane Lobo Ghisleni Ferreira e Juscelino Santos Nascimento.

Veja na íntegra o posicionamento da Savaget

1) A  Savaget Promoções, Congressos e Eventos Ltda.  apenas promove o evento ARNOLD SPORTS FESTIVAL SOUTH AMERICA, obtendo e disponibilizando espaços, para que as entidades esportivas (associações, federações, etc.) concretizem as programações estabelecidas segundo suas regras;
 
2) Não detém a SAVAGET qualquer ingerência sobre exigências, restrições e controles feitos pelas entidades responsáveis pelas respectivas atividades;
 
3) A Savaget cedeu espaço à IFBB Pro League,  à qual  deveriam ser formuladas as indagações pertinentes às atividades de fisiculturismo;
 
4) No entanto, para poder responder à indagação formulada,  após contato com os organizadores do fisiculturismo, pode acrescentar que o evento é privado, não é olímpico, não está submetido à jurisdição da WADA e que os Atletas participam por diversão;
 
5) Apurou também que a IFBB PRO LEAGUE e a NPC  separaram-se da IFBB. Com a separação, perdeu a IFBB o direito do uso da marca IFBB PRO LEAGUE e teve que criar, para poder continuar a atuar com atletas profissionais, a IFBB ELITE PRO;
 
6) E em face de tal separação, e dos direitos da NPC, somente os eventos por ela realizados podem proporcionar eventual acesso, desejado pelos atletas, ao Mr. OLYMPIA e ARNOLD OHIO;
 
7) Na medida em que o evento continua a ser realizado com a IFBB PRO LEAGUE, com quem sempre já fez mais de 40 eventos, não pode dizer que haja, agora,  mudança na organização.
 
 8) A Savaget e seus parceiros não fazem contratos com pessoas e empresas que pratiquem irregularidades. E não é verdade que tenham parcerias com pessoas e/ou empresas que comercializem anabolizantes.
 
9) Não têm e nunca tiveram nenhum contato com a empresa Laderlan e tampouco com o Sr. Kleber Augusto Caramello, como representante da mesma;
 
10) Finalmente, esclarece que a NPC  é a maior organização do bodybuilding amador nos Estados Unidos, e está se expandindo, após desligar-se da IFBB,  para outros países.

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