Descrição de chapéu

Idolatria de Senna no Brasil advém de concepção errada da F-1

Globo tornou o excelente piloto um verdadeiro ídolo popular

Claudio Carsughi
São Paulo

Passou um quarto de século, mas Ayrton Senna continua sempre presente quando se fala de F-1 no Brasil. E isso é facilmente explicável, embora, em minha opinião, advenha de uma abordagem errada do esporte em si.

A Globo, identificando Ayrton no “herói brasileiro”, com direito a musiquinha e elogios de todos seus narradores e comentaristas, tornou o excelente piloto um verdadeiro ídolo popular. A ponto de, com seu prematuro desaparecimento, a atenção para a F-1 ter assinalado uma brutal queda de audiência.

Uma queda, diga-se, que não se verificou em outros países, onde a atenção para o esporte a motor independe da presença ou não de um piloto local que possa ser campeão.

Para um exemplo claro, basta lembrar a Itália, onde os GPs têm boa audiência (uns mais, outros menos, dependendo das mais diversas circunstâncias) embora seu último campeão mundial da categoria tenha sido o falecido Alberto Ascari e sua Ferrari, nos anos 1952 e 1953. Há 66 anos!

Ou então a Alemanha, onde a F-1 sempre teve boa audiência, embora seu primeiro campeão mundial, Michael Schumacher, tenha aparecido apenas em 1994, com a equipe Benetton.

Em minha opinião (e debati este ponto de vista muitas vezes com meus bons colegas do SporTV, quando lá trabalhei) o erro da direção da Globo foi acreditar que o Brasil sempre teria um campeão mundial.

Com efeito, a saga de ótimos pilotos, iniciada lá atrás com Chico Landi, teve Emerson Fittipaldi, Carlos Pace, Nelson Piquet (para lembrar apenas os mais famosos) e chegou a seu ápice com Ayrton Senna. 

Quando ele desapareceu tragicamente em Ímola, a Globo apostou todas suas fichas em Rubens Barrichello, um ótimo piloto, mas não à altura de Senna. E isso, por sinal, prejudicou a história de Barrichello aqui no Brasil. Embora, lá fora, não lhe tenha trazido problema algum, pois tanto críticos como o grande público europeu não embarcaram nesse julgamento.

Para mim, colocar Ayrton Senna num hipotético pódio de todos os tempos é bastante fácil. Com a premissa que esse julgamento começa com o início do Campeonato Mundial, em 1950, quando já tinha condições de analisar as corridas de uma forma profissional, sem o entusiasmo do menino que, levado pelas mão do pai, ia a Monza ver Nuvolari e os outros grandes pilotos de antes da 2ª Guerra Mundial.

Torcedores invadem a pista de Interlagos após vitória de Senna em 1993
Torcedores invadem a pista de Interlagos após vitória de Senna em 1993 - Ormuzd Alves/Folhapress

Aí o julgamento seria influenciado pela paixão e —provavelmente— não teria o equilíbrio que julgo ter alcançado.

Feita essa premissa, de que me limito a levar em consideração apenas os GPs dos últimos 70 anos, o melhor piloto que vi foi, sem dúvida, o argentino Juan Manuel Fangio.

Ele ganhou cinco títulos mundiais com as mais diversas marcas, desde Alfa Romeo em 1951, passando por Mercedes em 1954 e 1955, continuando com Ferrari em 1956 e encerrando com Maserati em 1957.

Juan Manuel Fangio, piloto argentino cinco vezes campeão da F-1
Juan Manuel Fangio, piloto argentino cinco vezes campeão da F-1 - Arquivo Clarín

É nesse último campeonato que eu encontro o grande diferencial de Fangio, pois ele levantou a taça com um carro que era inferior à Ferrari. E teve, no GP da Alemanha, a 4 de agosto de 1957 no tradicional circuito de Nurburgring, aquele que ele mesmo reconheceu, falando comigo anos depois, como a maior atuação de sua carreira.

Recorde-se que ele tinha pela frente o esquadrão da Ferrari, que contava com pilotos de alto nível como Mike Hawthorn, Peter Collins, Luigi Musso (que se classificaram em 2º, 3º e 4º lugares, ratificando a excelência do carro).

Logo após Fangio, porém, eu coloco —empatados— Ayrton Senna e Jim Clark.

Ayrton venceu em todas as condições, seco ou molhado, e correndo por várias equipes, desde a modesta Toleman Hart, passando depois para a Lotus até chegar ao ápice com a Mclaren Honda, onde formou excepcional dupla com Alain Prost e ganhou três títulos mundiais. Mas sempre, é bom lembrar para estabelecer a diferença com Fangio, tendo o melhor carro.

Para o britânico Jim Clark, que em toda sua carreira só dirigiu Lotus, ficam 2 títulos mundiais e um triunfo nas 500 Milhas de Indianápolis. Mas, acima disso, a constatação de que, mesmo quando pilotava um carro inferior ao dos adversários, conseguia mostrar toda sua classe.

Jornalista, comentarista de futebol e crítico de F-1, atua na área há 72 anos

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