Descrição de chapéu The New York Times

Alpinista com câncer de pulmão avançado chega ao topo da América

Isabella de la Houssaye, 55, completa escalada no Aconcágua ao lado da filha

Rebecca Byerly
Parque Provincial Aconcágua (Argentina) | The New York Times

Isabella de la Houssaye e sua filha, Bella, estavam enfrentando dificuldades para respirar o ar rarefeito do alto dos Andes, enquanto percorriam a trilha tortuosa que conduz ao topo do Aconcágua, o maior pico do planeta fora do Himalaia.

Com altitude de 6.962 metros, a montanha é conhecida por muitos como "o teto da América". Nessa altitude, respirar é difícil, e o risco de hipobaropatia, ou "mal da montanha", debilitante e às vezes fatal, é uma realidade até mesmo para os alpinistas mais fortes.

Isabella tem câncer de pulmão em estágio 4, o que torna especialmente difícil respirar.

Ela e a filha estavam na quarta hora da escalada de 14 horas que as levaria ao topo quando Bella, 22, chegou ao seu limite, a cerca de 6.400 metros de altitude. A imensidão das montanhas recobertas de neve que se estendiam por sob as duas era deslumbrante, mas Bella não estava atenta ao panorama.

"Não sei por que estamos aqui ou por que estamos fazendo isso", ela disse à mãe, enquanto se apoiava com a mochila contra uma encosta rochosa, ao sol da manhã.

Usando casacos estofados iguais, cor de laranja, feitos para temperaturas de menos 40 graus, capacetes, máscaras de esqui e uma proteção de tecido para a metade inferior de seus rostos, elas pareciam quase idênticas.

Por duas décadas, Isabella, 55, entusiasta da vida ao ar livre e veterana alpinista, maratonista e triatleta, e seu marido, David Crane, financista importante no setor de energia, haviam criado os cinco filhos, que usam o sobrenome Crane, para viver aventuras. Essas excursões, por exemplo cavalgadas pela Sibéria até o deserto de Gobi, muitas vezes em companhia apenas da mãe, conduziram a família a feitos atléticos extraordinários.

Aos 20 anos, o filho mais velho dos Crane, Cason, se tornou o primeiro alpinista assumidamente gay a galgar os picos mais altos de cada continente, conhecidos em conjunto como "seven summits". O segundo filho de Isabella, David, foi de bicicleta do Cairo à Cidade do Cabo, aos 19 anos. Bella completou a trilha Pacific Crest quando tinha 19 anos, um percurso de 4.250 quilômetros que percorre a Sierra Nevada e a serra Cascade, e leva do México ao Canadá. No ano passado, Oliver, o quarto filho de Isabella, se tornou a pessoa mais jovem a atravessar o Oceano Atlântico remando, aos 19 anos. O filho mais jovem do casal, Christopher, 16, está entre os fundistas de elite no circuito colegial de Nova Jersey.

Quando o câncer pulmonar de Isabella foi diagnosticado, em janeiro de 2018, ela não estava certa de que lhe restassem muitos meses de vida, ou mesmo muitas semanas. De cama e sofrendo dores lancinantes, com tumores na pélvis, espinha e cérebro, ela foi aceita para um tratamento experimental e passou a usar dois remédios anticâncer que aliviavam suas dores e bloqueavam a difusão das células cancerígenas. O tratamento costuma ser efetivo por 18 meses, mas depois a saúde do paciente se deteriora.

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, a probabilidade de sobrevivência por cinco anos entre os pacientes de câncer pulmonar estágio 4 é de 4,4%. Alguns poucos pacientes conseguiram sobreviver mais de uma década. Isabella, que está grata por seu acesso a cuidados médicos excelentes e pelo tempo "adicional" de saúde relativamente boa que os medicamentos propiciaram, espera se tornar uma dessas pessoas. Ela acredita que sua abordagem holística de tratamento tenha ajudado a mitigar os efeitos colaterais muitas vezes debilitantes dos remédios experimentais.

Isabella de la Houssaye recebe atendimento médico antes de encarar a subida ao topo do Aconcágua
Isabella de la Houssaye recebe atendimento médico antes de encarar a subida ao topo do Aconcágua - Max Whittaker/The New York Times

Quando Isabella recuperou um pouco as forças, no ano passado, planejou nova aventuras —talvez suas últimas— com cada um de seus filhos, que têm entre 16 e 25 anos de idade. Havia lições que ela queria transmitir aos seus filhos sobre garra, perseverança e "mindfulness".

Em abril de 2018, ela percorreu os mais de 800 quilômetros do Camino de Santigo, uma rota medieval de peregrinação na Espanha, com Oliver. Em seguida, em junho, ela correu uma maratona no Alasca com Cason. Em setembro, ela, o marido e três de seus filhos completaram uma ultramaratona de 112 quilômetros no Cazaquistão. Uma semana depois, ela e o filho David completaram um Ironman integral —um triatlo que consiste de 3,8 quilômetros de natação, 180 quilômetros de bicicleta e uma corrida de 42 quilômetros—, na Coreia do Sul.

Em janeiro, ela e Bella, sua única filha, viajaram à Argentina para conquistar o Aconcágua, como parte de uma equipe que incluía mais uma dupla de mãe e filha e dois guias, além de um repórter e fotógrafo do The New York Times.

Tecnicamente, o Aconcágua é uma montanha relativamente fácil de escalar, porque não requer cordas, machados para o gelo ou habilidades de alpinismo. Mas é uma escalada de duas semanas que requer dormir em barracas gélidas e suportar temperaturas abaixo de zero e ventos brutais.

Cerca de 40% dos atletas que tentam chegar ao topo completam a escalada. Isabella, bastante enfraquecida pela quimioterapia, e com peso abaixo de 45 quilos, sabia que a montanha causaria dor, e levaria sua filha e ela ao limite.

Esse era o objetivo. A escalada era uma tentativa de ensinar algumas lições essenciais à sua filha enquanto ela ainda podia, entre as quais a de que é necessário aceitar não só os triunfos mas as dores da vida —"alegria e sofrimento na mesma medida", ela disse.
 
Paradas na entrada da trilha, no primeiro dia do percurso pelo vale de Vacas até o Aconcágua, Isabella e Bella não mostravam sinais de preocupação. Audaciosa e vivaz, Bella, que está no terceiro ano da Universidade Columbia, usava um chapéu bege com uma cara de bicho preguiça na frente. Ela ironicamente definiu a preguiça como "seu animal espiritual".

Isabella está muito magra, tem os malares salientes, e usa seu cabelo castanho na altura dos ombros. Seus olhos, castanhos e miúdos, se semicerram quando ela sorri. O chapéu cor de laranja cintilante que ela usa traz a mensagem "mulheres bem comportadas raramente fazem história", na aba.

Nascer do sol no Aconcágua, ponto mais alto das Américas
Nascer do sol no Aconcágua, ponto mais alto das Américas - Max Whittaker/The New York Times

Era um dia quente, e o céu azul mostrava nuvens magníficas. A trilha, cercada por montanhas avermelhadas, parecia relativamente fácil.

"Quando faço coisas como essa, lembro de que cheguei bem longe", disse Isabella ao começar a trilha.

No segundo dia da escalada, a trilha ofereceu o primeiro vislumbre do Aconcágua. Um pico de recorte irregular, com uma nuvem branca fervilhando em torno de seu topo pontudo, a montanha era a um só tempo aterrorizante e fascinante. O guia apontou para um posto avançado na encosta da montanha —o Acampamento 3, o último ponto de parada do grupo antes da ascensão final ao pico.

A trilha que o grupo tomou para o topo segue a chamada Variação Polonesa, para atravessar o vale de Vacas até o campo base. De lá, ela circunda a montanha de maneira a abordar o pico pelo lado noroeste.

Ao longo do segundo dia, Isabella foi perdendo a força, especialmente nas seções de declive da trilha. A quimioterapia fragilizou seus ossos, e ela estava preocupada com possíveis quedas. Recorria à ajuda dos guias para as subidas íngremes, que eram apenas uma modesta amostra do que nos aguardava mais acima.

Ao chegar à Casa de Piedra, um acampamento à beira-rio no sopé do Aconcágua, Isabella se dirigiu à sua barraca. Na manhã seguinte, ela estava aninhada no saco de dormir quando os guias acordaram o grupo para o desjejum. Bella insistiu em que a mãe se levantasse. Isabella não se mexeu, e Bella, que aprendeu com a mãe sobre amor intransigente, desmontou a barraca com Isabella lá dentro.

A caminhada até o campo-base que se seguiu foi brutal. Ventos gélidos surgiam em rajadas ferozes, vindos de toda parte. Isabella estava com medo de ser arrastada montanha baixo por uma delas.

A quase 4,3 mil metros de altitude, o campo-base do Aconcágua é um lugar movimentado, com barracas circulares para cada equipe, uma sala de leitura, acesso intermitente à internet e chuveiros com água aquecida por energia solar para quem tiver a coragem de se despir. Uma refeição caseira, para aqueles que não estão nauseados demais para comer, é o ponto alto do dia.

Tentando digerir a refeição, Isabella disse que aquela seria sua última montanha. "Não acho que eu tenha condições de continuar fazendo isso", ela disse. "Vou continuar tentando, mas não tenho ilusões de que chegarei ao topo".

Bella disse à mãe que pensar assim era provavelmente uma boa ideia. E sugeriu que a próxima delas fosse uma viagem de férias à praia.

Mais tarde naquele dia, Pablo Goldengruss, o líder dos guias, explicou que a possibilidade de que uma ou mais pessoas do grupo, incluindo Isabella, não chegassem ao topo não o preocupava. "A montanha tem seus modos de deixar passar as pessoas que merecem passar", ele disse, tomando um gole de chá argentino.

Restavam diversos dias de escalada.

Isabella de la Houssaye (à esq.) e sua filha Bella conversam na barraca durante a subida do Aconcágua
Isabella de la Houssaye (à esq.) e sua filha Bella conversam na barraca durante a subida do Aconcágua - Max Whittaker/The New York Times

Na manhã seguinte, Bella saiu fatigada de sua barraca, carregando um balde de vômito e uma garrafa de urina de sua mãe. Porque o frio é intenso demais para que os alpinistas façam suas necessidades fora das barracas, muitos deles optam por usar garrafas ou um aparelho especificamente projetado para mulheres. A noite havia sido longa. Enjoada com a altitude e apertada na barraca lotada, Isabella vomitou diversos vezes e derramou uma garrafa de urina na barraca.

Bella limpou a sujeira e, em meio ao silêncio e às mordidas nos ovos e panquecas do desjejum, disse: "Eu te perdoo, mãe".

Isabella olhou para a filha e seu rosto emaciado se iluminou com uma risada. "Ótima maneira de nos aproximarmos mais", ela disse.

Cada alpinista passou por um exame médico completo antes de deixar o campo base. Um jovem médico examinou os pulmões de Isabella e concluiu que "tudo bem, suas funções pulmonares estão regulares", e isso causou uma onda de depressão. Os médicos haviam diagnosticado seu câncer de pulmão exatamente um ano antes.

"Boa parte do que sempre me definiu foi minha força física", ela disse. "É com certeza difícil estar doente e dizer adeus à pessoa que fui um dia. É preciso que você se redefina, e ninguém quer se definir como uma pessoa doente. Estou aprendendo que é preciso encontrar uma maneira de aceitar o declínio".

As mulas que carregaram os sacos de dormir, barracas, utensílios culinários e comida até o campo base chegaram ao seu limite de altitude. Isso queria dizer que, em lugar de carregar cargas leves montanha acima, cada integrante do grupo teria de carregar mochilas pesando até 27 quilos, pelo resto do caminho. Isabella estava pesando menos de 42 quilos, e seu plano era contratar carregadores para transportar sua porção dos suprimentos.

Enfraquecida pelo vômito e pela exposição às intempéries e incapaz de dormir por conta da altitude, que torna difícil obter oxigênio suficiente, Isabella não estava certa de que conseguiria deixar o campo base.

Mas no dia seguinte ela se levantou, e quando ela e Bella chegaram ao próximo acampamento, o otimismo voltou. Repousando em sua barraca apertada e úmida, o único refúgio que tinham contra os elementos, Isabella disse à filha que queria que seus filhos tivessem tudo que faltou a ela quando era menina. "Um conhecimento da vida ao ar livre era uma dessas coisas", ela disse.

Bella olhou para a mãe e seu rosto usualmente estoico mostrou traços de emoção.

"Não conheço uma pessoa mais forte que você no mundo", disse Bella. "Jamais serei você".

"Você está louca", disse Isabella. "Você já é muito mais forte".

Isabella de la Houssaye (ao centro) é ajudada por sua filha Bella e pelo guia Pablo Goldengruss no processo de subida
Isabella de la Houssaye (ao centro) é ajudada por sua filha Bella e pelo guia Pablo Goldengruss no processo de subida - Max Whittaker/The New York Times

Quando a equipe chegou ao Acampamento 3, que ostenta barracas laranja e amarelas, acima das nuvens aos 5.970 metros de altitude, Bella ergueu o zíper do agasalho de sua mãe. Os dedos de Isabella, descascados pela quimioterapia e pelo contato com os elementos, estavam sangrando. Bella ofereceu o braço à mãe para firmá-la, e elas contemplaram as camadas de montanhas se estendendo ao longe.

A viagem despertou um lado desconhecido na personalidade de Bella —ela se viu forçada a ser a mãe.
A equipe não conversou muito ao iniciar o percurso na manhã seguinte. Os trechos mais complicados costumam requerer silêncio. Quando o sol se ergueu sobre as montanhas, coroando-as de luz cálida e alaranjada, a sombra do Aconcágua se estendeu pela vasta paisagem.

O olhar de Isabella era determinado, e seu passo era firme. Quando Bella quis desistir, forçada pela fadiga, a 500 metros do topo, foi Isabella que convenceu a filha de que ela era capaz de chegar ao topo —como sempre.

Seis horas mais tarde, Isabella e Bella chegaram ao topo da América. Exaustas, elas se abraçaram, enquanto Isabella limpava lágrimas dos olhos. Ela disse que as montanhas sempre dão um jeito de fazê-la chorar.

As duas estavam esgotadas demais para descer caminhando, e por isso os guias as baixaram usando cordas.

De volta ao Acampamento 3, o sorriso de Isabella era vitorioso. Haverá dias difíceis no futuro, mas aquele dia havia sido bom.

"Era importante para mim que eu e Bella tivéssemos essa experiência juntas", ela disse. "Eu realmente queria que ela visse que quando as coisas são difíceis, você pode encontrar força dentro de você mesma e seguir adiante".

Tradução de Paulo Migliacci

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