Descrição de chapéu Copa América

Título há cem anos começou a forjar 'pátria de chuteiras'

Campeonato Sul-americano de 1919, disputado no Rio, foi 1ª conquista da seleção

Marcos Guedes
Teresópolis

Quando Nelson Rodrigues escreveu, em 1970, que “o escrete não é outra coisa senão a pátria”, a construção de uma identidade nacional em torno do futebol já estava bem estabelecida. “Se não é pátria, que fazem as bandeiras, sim, as bandeiras, que pendem das janelas?”, perguntou o cronista, referindo-se sempre à seleção brasileira como “escrete”.

A edificação dessa “pátria em chuteiras”, como descrevia Nelson, teve seu ensaio inaugural há cem anos, no Sul-Americano de 1919. É consenso entre os pesquisadores de história social que a competição realizada há um século, no Rio de Janeiro, representou a primeira tentativa organizada —e bem-sucedida— de unir parcela significativa da população em torno do time nacional.

O torneio, adiado em 1918 por causa do mortífero surto da “gripe espanhola”, foi realizado um ano depois e abraçado por um Rio cheio de problemas. Antes mesmo do início da competição, o jornal A Rua observou que a cidade enfrentava outra pandemia. O “football” se tornara “uma grande epidemia, a coqueluche da cidade”, relatou a edição de 7 de maio.

A competição se desenrolou entre os dias 11 e 29 daquele mês e terminou em uma jornada épica no estádio das Laranjeiras, cujas arquibancadas foram construídas especialmente para o campeonato. Brasil e Uruguai ficaram no zero por quase 150 minutos, com duas prorrogações completas, até que Neco fizesse uma grande jogada concluída por Friedenreich.

O palco, que comportava algo em torno de 20 mil espectadores, estava apinhado. Quem não estava elegantemente nas arquibancadas, de casaca e chapéu, ocupava a encosta do morro ao lado do campo. O Sul-Americano, que passaria a se chamar Copa América na década de 1970, havia mesmo conquistado a cidade e teve um desfecho que ajudou a construir a tal “pátria em chuteiras”.

“É o primeiro registro mais claro de um envolvimento da população em torno dessa coisa da seleção brasileira representando a nação”, diz Roberto Sander, autor do livro “Sul-Americano de 1919 – Quando o Brasil Descobriu o Futebol”, que se apaixonou pelo torneio ao encontrar imagens dele em uma pesquisa no Fluminense.

“Claro que era outro tempo, né? As comunicações engatinhavam. Mas, mesmo naquele momento, tudo se espalhou rapidamente, ainda que de forma rudimentar. As pessoas iam saindo do estádio, pegavam o bonde e a cada estação anunciavam o resultado. A coisa foi se espalhando”, diz.

Os jornais cariocas também tiveram papel fundamental. Ao divulgar em tom grandiloquente cada passo do “escrete nacional”, ajudaram a popularizar um esporte em momento decisivo para que ele se desgarrasse das camadas mais ricas da sociedade –que o haviam instituído no país.

“Ainda era um esporte das elites, mas, pouco a pouco, a partir daquele momento, a coisa foi ganhando a adesão do povão”, observa Sander. “O futebol ainda estava se instituindo como um gosto. Não tinha se afirmado necessariamente como um esporte de massa”, acrescenta o historiador social Raphael Rajão Ribeiro, que pesquisou a reverberação do Sul-Americano de 1919 além do Rio de Janeiro.

Fora da então capital federal, percebeu Ribeiro, que focou sua pesquisa em Belo Horizonte, a mobilização foi menor. As notícias até chegavam por telégrafo, mas ainda havia um interesse maior pelos acontecimentos locais –e pelos jogos de futebol locais– do que propriamente pelas notícias que chegavam do Rio.

“A ideia de uma integração nacional era muito incipiente no país. Por mais que no império tenha havido certo esforço, especialmente por parte de dom Pedro 2º, havia ainda uma limitação muito grande na ideia de nação única”, diz o pesquisador, explicando por que o efeito do Sul-Americano foi restrito longe da capital.

“Era um esforço que tinha reverberação limitada. Não só porque era uma ideia ainda muita nova a identidade nacional ligada ao futebol mas porque o próprio futebol ainda se afirmava. A integração nacional, um projeto que viria lá no Estado Novo do Getúlio Vargas, ainda estava muito incipiente na primeira República”, explica Ribeiro.

Ele não tem dúvida, porém, “indiscutivelmente”, de que o Sul-Americano de 1919 tenha representado o primeiro ensaio da “pátria em chuteiras”. Esse projeto decolaria de vez em 1938, com a primeira Copa do Mundo transmitida pelo rádio, porém quem esteve nas Laranjeiras 19 anos antes teve a primeira amostra.

“Até surpreendeu. Na época, as coisas eram todas muito formais. Esperava-se um comportamento bem civilizado, mas o pessoal não se comportou muito, não. Xingava o juiz, atirava laranja ou sei lá o quê dentro do campo... Você vê pelas fotos que foi necessário o uso do policiamento para evitar a invasão da torcida”, conta Roberto Sander.

“Ali, você já vê os primeiros sinais dessa coisa que o Nelson Rodrigues dizia: futebol é paixão, e nunca se viu paixão bem comportadinha”, acrescenta, vendo um símbolo nacional naquela paixão que brotava: “Foi o dia em que o Brasil começou a ganhar um rosto”.

Esse dia foi o 29 de maio de 1919, e esse rosto era mestiço. Friedenreich, chamado de “El Tigre” pelos derrotados uruguaios, era filho de um alemão com uma negra brasileira, lavadeira e ex-escrava. Foi Fried —completando jogada do alvinegro Neco, o protótipo do “maloqueiro e sofredor” que a torcida do Corinthians idolatra ainda hoje— quem deu o primeiro título importante à seleção brasileira.

É aí que aquele Sul-Americano ganha significado ainda maior. Futebol e miscigenação são fatores fortes na construção da identidade nacional e estavam ali, naquele gol decisivo. Falta o quê? Música popular? Pois o gênio Pixinguinha, ainda jovem, compôs o choro “1 a 0” em referência ao resultado da decisão.

A democracia racial é até hoje um mito e era algo extremamente distante em 1919, pouco mais de 30 anos após a abolição da escravatura. Mas, mesmo naquele Brasil, ainda mais racista e desigual do que o atual, cor da pele e classe social significaram um pouco menos durante 150 minutos de bola rolando.

O ótimo goleiro Marcos de Mendonça, branco, vivia ouvindo pedidos do chefe e depois sócio Mário Rache, com quem trabalhava no ramo siderúrgico, para abandonar o futebol. “Quando imaginava um diretor da Usina Queiroz, da Companhia Locativa e Construtora, jogando futebol, o doutor Mario Rache se escandalizava”, relatou Mario Filho, no livro “O Negro no Futebol Brasileiro”.

No entanto, “quando Friedenreich marcou o gol da vitória, o doutor Mário Rache se abraçou, chorando, a um inglês velho, que nunca vira mais magro ou mais gordo”, prosseguiu Mario Filho. “E o mais extraordinário é que continuou abraçado ao inglês velho, é que continuou chorando, sem nenhuma vergonha de chorar, de pular, como todo o mundo.”

Semanas depois, imagens da conquista circulavam pelos cinemas do país. Ribeiro, em sua pesquisa, encontrou o seguinte anúncio: “GRANDE E SENSACIONAL CAMPEONATO SUL AMERICANO DE Foot-ball –o maior e mais extraordinario torneio da AMERICA DO SUL– Film completo em 2 séries, contendo todos os aspectos e detalhes do grande acontecimento sportivo. – SCENAS EMOCIONANTES DE PATRIOTISMO BRASILEIRO. –o jogo em todas as suas phases mais empolgantes– 40.000 pessoas torcendo ansiosas ao desenrolar das luctas!!! –A alma brasileira vibrando de enthusiasmo pelo exito dos nossos jogadores”.

Aquela final, com “scenas emocionantes de patriotismo brasileiro”, completará cem anos na próxima quarta-feira (29). Duas semanas depois, a seleção estreará em mais uma Copa América em casa –e voltando a usar o uniforme branco do triunfo de 1919.

A relação do time nacional com o povo não vive seu momento mais pleno, mas, graças a um movimento que teve início há um século, muitos se sentirão representados por Marquinhos, Philippe Coutinho, Firmino e Neymar.

Afinal, reiterava Nelson Rodrigues (irmão caçula de Mario Filho), “se uma equipe entra em campo com o nome de Brasil e tendo por fundo musical o hino pátrio –é como se fosse a pátria em calções e chuteiras, a dar botinadas e a receber botinadas”.

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