Descrição de chapéu Futebol Internacional

Goleiro sul-africano assume homossexualidade e encara preconceito

Phuti Lekoloane, 26, afirma já ter sido rejeitado por causa da orientação sexual

Alex Sabino
São Paulo

Uma história que jamais saiu da cabeça de Phuti Lekoloane, 26, é sobre sua passagem pelo JDR Stars, equipe semi-profissional da África do Sul.

Era um de seus primeiros treinos no clube e na saída, o atacante se aproximou para dizer o que pensava sobre o goleiro recém-contratado.

“Ele falou que um homem que faz sexo com outro homem é uma pessoa tão ruim quanto um assassino”, disse ele à Folha.

Lokoloane não respondeu nada. Baixou a cabeça e foi para o vestiário. O mesmo onde, dias antes, havia sido questionado se tomaria banho e trocaria de roupa ao lado dos outros jogadores. A pergunta não o surpreendeu.

Phuti Lekoloane em treinamento de sua equipe, o Tornado FC, na África do Sul
Phuti Lekoloane em treinamento de sua equipe, o Tornado FC, na África do Sul - @LekoloaneP no Instagram

“Foi discriminação que eu cresci percebendo existir. Na escola, em casa, na minha comunidade. Eu era sempre ofendido e rejeitado de muitas formas. Sempre foi assim”, completa.

O goleiro, hoje em dia no Tornado FC, clube da quarta divisão da África do Sul e na briga pelo acesso, não gosta de ouvir que “revelou” ser homossexual (“Jamais escondi ser quem eu era”). Se sua equipe conseguir a promoção, Lokoloane será uma raridade: um jogador de futebol profissional abertamente gay.

Houve casos de atletas que saíram do armário apenas depois de terem abandonado o esporte, como o americano Robbie Rogers e o alemão Thomas Hitzlsperger. O inglês Justin Fashanu nunca admitiu a homossexualidade enquanto atuava, apesar de ser o segredo menos bem guardado do futebol britânico. 

Ele se matou aos 37 anos, em 1991, após ser acusado de abusar sexualmente de um adolescente nos Estados Unidos.

Hitzlsperger fez apelo público para que jogadores gays declarassem de forma pública a orientação sexual. O primeiro a atender pedido foi o atacante australiano Andy Brennan. Na semana passada, ele disse ser gay.

“Na África do Sul sempre houve muitos homossexuais, mas no armário. Eles não se expõem por medo de serem discriminados. Eu fui rejeitado várias vezes, especialmente em times profissionais. Muitos não quiseram se trocar ao meu lado. Muitas, muitas vezes! Eu sempre fui rejeitado por ser gay”, lembra Lokoloane.

Ele reconhece ter deixado clubes por não suportar as piadas pelas costas e os comentários de dirigentes. Era uma opção que não tinha na escola, onde as surras eram diárias. O único jeito de ir ao banheiro e voltar são e salvo era pagar para um amigo mais alto e forte acompanhá-lo até a porta e depois voltar à sala de aula.

 

Apanhar não o fez querer mudar. Lokoloane diz que a percepção disso o deixou mais forte. Havia algo dentro dele que a violência física na escola não podia tirar. A mesma força interior que levou ao netball (uma variação do basquete) e ao futebol. A aceitação da mãe foi imediata e ele nem precisou dizer nada. O entendimento entre os dois era claro. O pai precisou de mais tempo.

Lokoloane escuta piadas ou xingamentos homofóbicos nos acanhados estádios das divisões inferiores da África do Sul, primeiro país do continente a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não poderia jamais dizer que não se importa. Sente-se ofendido, claro. Mas punir torcedores ou clubes por comportamentos discriminatórios não é uma virtude das autoridades do futebol, seja na Europa, América do Sul ou África.

Ele diz aguentar tudo por um motivo. Quer ser alguém a abrir caminho para quem vem depois. Que os próximos jogadores gays não tenham de ouvir perguntas se vão se tomar banho ao lado dos demais integrantes do elenco.

“Eu já fui rejeitado por algumas equipes por ser homossexual. Tinha certeza que possuía talento para jogar, mas para os treinadores isso não parecia ser o mais importante. Então decidi me empenhar para que os jovens que queiram falar abertamente sobre a sexualidade não se sintam constrangidos no mundo do futebol. O que posso fazer, por enquanto, é contar a minha história e dar o meu exemplo”, completa.

É uma briga solitária porque não há outros gays declarados no futebol sul-africano e africano. Mas Lokoloane está habituado a estar só. Ele mora em Mdanstane, na parte leste da Cidade do Cabo, atraído pela oferta de um clube mais tolerante e onde seria respeitado. Todas as noites, sua companhia são os livros de motivação e autoajuda, que devora um atrás do outro. Foi a forma que encontrou para estar bem consigo mesmo todos os dias.

“Nós temos de fazer mais agora. Temos de falar mais sobre isso. As pessoas precisam se abrir e há muito a ser feito. Há muitas coisas ainda ignoradas.”

Lokoloane usa a camisa 91 em homenagem a John Moshoeu, integrante da seleção sul-afiricana campeã da Copa Africana de Nações em 1996. O veterano meia o colocou debaixo de sua asa e lapidou seu talento nos treinos. O ensinamento era que Lokoane teria um papel no futuro: abrir caminhos para outras pessoas. Mesmo que ele não tivesse sucesso no mundo do futebol, alguém que viesse depois poderia ter por causa dele.

Moshoeu morreu em 2015, aos 49 anos.

Phuti Lokoloane tem uma característica que lhe serve bem para a posição de goleiro: personalidade. Não é um erro em campo que vai lhe trazer insônia à noite. Nem a eventual preocupação do que os outros jogadores vão pensar por ele estar se trocando no mesmo vestiário que eles.

“Eu não tenho nenhum problema com isso. Se eles têm, problema deles.”

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